sábado, 28 de fevereiro de 2015

Dor nas costas? Culpe a evolução.

Desde minha janela consigo ver a Nica. Várias vezes mãe e avô, mantém a agilidade e esperteza de sempre. Seus filhos e netos orbitam ao seu redor nesse espaço bem cuidado de grama onde todos se dedicam a brincar e procurar comida. Nem sempre é assim, claro. O corpo de Nica e sua prole evoluiu para viver fundamentalmente em árvores. Suas mãos e pés são bem adaptados para segurar em galhos, e ainda uma cauda preênsil com a qual pode ficar pendurada liberando os membros restantes para recolher frutas (ah! Nica é um macaco-prego, ou Sapajus apella para ser mais preciso)

Mas agora quase toda a comida que ela precisa está no chão, regularmente fornecida por seus cuidadores. Nica então vira um quadrúpede. Sem a elegância ao andar e correr de um felino, por exemplo, cuja linhagem já é especialista nesse lance de ser 100% quadrúpede desde bem antes que os primatas como Nica.

Mas há um detalhe curioso que também observo desde aqui. Quando a comida é depositada na grama pelos cuidadores o grupo inteiro de macacos se junta e alguns tentam recolher a maior quantidade possível de fruta para ir a algum lugar mais calmo e comer sem ameaças ou disputas. Como carregar duas ou três frutas ao mesmo tempo ocupa completamente suas mãos e braços não resta outra alternativa a Nica a não ser apelar ao bipedalismo. Seu andar agora é ainda mais desengonçado. Mesmo assim ela e outros conseguem seu objetivo e se afastam uns dez a vinte metros nesse seu andar tão peculiar.

Cientistas utilizam este tipo de observação comportamental de campo (não amadora como a minha, claro) associada ao estudo dos fósseis, da embriologia, de geologia, da genética, etc., para obter pistas sobre nós mesmos, sobre nossa história evolutiva, causas e consequências.

Hoje sabemos que bem provavelmente o primata ancestral que nos deu origem -assim como a nossos primos atuais mais próximos como chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos- há uns seis milhões de anos, vivia em árvores e raramente se aventurava a passear pelo solo, até que mudanças climáticas foram transformando florestas em savanas o que incentivou que alguns grupos desses primatas se arriscassem em terra firme.

A coluna vertebral destes primos distantes no tempo não era muito diferente da que observamos em Nica. A que mudou enormemente foi a nossa. De todos os primatas nós e nossos ancestrais diretos (Homos e Australopitecíneos) fomos os únicos que adotamos uma postura completamente ereta. Nosso andar bípede se fez bem mais eficiente que o pouco frequente e desajeitado bipedalismo que nossos primos atuais mais próximos, os chimpanzés, exibem. Nosso centro de gravidade se deslocou e nossa coluna vertebral adotou uma posição vertical. Com isto nossas mãos ficaram completamente liberadas da função de locomoção e com um cérebro em rápida expansão tornaram-se as ferramentas indispensáveis para criar toda a tecnologia associada ao Homo sapiens



Macaco-prego (Sapajus apella). Observar a curvatura da coluna vertebral, formando um arco de convexidade superior, típica dos quadrúpedes. Devido à sua disposição horizontal da coluna, o impacto vertical entre as vértebras é mínimo.


Mas isso teve um preço. A coluna vertebral dos nossos ancestrais quadrúpedes tinha uma forma ligeiramente arqueada, com convexidade superior e posicionada horizontalmente. Vísceras e membros se fixavam a ela –como ainda o fazem nos quadrúpedes modernos- exercendo um jogo de forças perpendicular ao longo eixo. O impacto de uma vértebra sobre sua vizinha neste formato é mínimo. Mas ao adotar o bipedalismo cada vértebra foi se apoiando na imediata inferior. Com isto, nossas cinco vértebras lombares têm que absorver um impacto vertical intenso. 


Para compensar, nossa coluna vertebral apresenta curvaturas que lhe dão um aspecto de “S” quando vista de lado, e entre cada corpo vertebral cartilagens ou discos articulares amortecem em parte o impacto, mas considerando a quantidade de consultas médicas por causa de problemas associados à coluna, vemos que isto não é suficiente. 


Uma vértebra vista desde cima. À esquerda o aspecto normal, com o disco intervertebral intacto. À direita, o disco degenera devido ao impacto e seu interior (núcleo pulposo) extravasa comprimindo a raiz nervosa que sai da medula espinhal.


As curvaturas naturais se acentuam com o tempo. Uma nova e problemática curvatura lateral pode surgir (escoliose). Os discos intervertebrais não resistem ao impacto constante, degeneram e deformam, invadindo o forame intervertebral comprimindo as raízes nervosas (hérnia de disco) provocando dor, formigamento e limitação de movimento. Com o constante atrito gerado pela nova postura, algumas articulações entre as vértebras podem fraturar (espondilólise) provocando dores crônicas que chegam a ser incapacitantes. 



Imagem de ressonância magnética da região lombar da coluna vertebral humana com hérnia de disco. Observar entre as vértebras os discos intervertebrais. O círculo amarelo mostra uma protrusão do disco (núcleo polposo) em direção ao espaço medular, causando compressão dos nervos espinais (cauda equina). Ver também a diferença desse disco (degenerado) com os outros com aspecto normal.


É isso. A evolução não “criou” uma coluna vertebral nova para nós humanos, perfeita e completamente adaptada ao bipedalismo. Utilizou o que já existia e fez uma adaptação, meio que às presas em termos evolutivos, já que o bipedalismo oferecia vantagens adicionais importantes e sobre ele a seleção natural atuou. É assim que funciona. Se a cuidamos bem e temos sorte nossa coluna funciona bem umas cinco décadas. Depois disso...


E agora estou aqui, de novo, com meu velho problema entre L5-S1, olhando para Nica que nem sabe o que é ter dor nas costas.




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AS CICATRIZES DA EVOLUÇÃO. GRAVIDEZ E DOR NAS COSTAS.



Se você esteve ou está grávida ou conviveu com alguém que esteve, já deve ter sentido ou visto: a postura muda e as dores lombares são frequentes. Por quê? Se achou que é por causa do peso do bebê, acertou pela metade. É bem provável que nossos primos mais próximos, os chimpanzés, não sintam dor nenhuma. Sim, ao que parece os problemas não vêm pelo peso do feto e sim por uma “conquista” evolutiva relativamente recente: o bipedalismo.

Veja a figura. Na parte superior uma fêmea de chimpanzé, a, não grávida; b, grávida. Diferente de nós, chimpanzés são fundamentalmente quadrúpedes (e arborícolas). Sua coluna vertebral tem forma de arco com convexidade superior. O centro de massa do seu corpo (CDM, círculo preto e branco) não altera sua posição em relação à articulação do quadril (coxofemoral).

Agora veja o que acontece com nossas mulheres: c, situação normal (sem gravidez); diferente dos outros primatas nossa coluna vertebral não tem mais forma de arco, mas curvas bem características. Repare na curvatura da região lombar (azul). O CDM está bem próximo à articulação coxofemoral, o que proporciona maior equilíbrio e menor gasto energético para manter a postura ereta.
Agora veja em d, com a gravidez o CDM se desloca anteriormente afastando-se da articulação coxofemoral. Mas quanto mais afastado o CDM da articulação maior o esforço para manter a postura. Para compensar (aproximar novamente o CDM da articulação), a mulher aumenta a curvatura lombar (lordose, imagem e). A postura se equilibra, mas o aumento da curvatura lombar pressiona os discos intervertebrais e eventualmente as raízes nervosas. Como esta região lombar já é uma região crítica nos humanos, a gravidez acaba aumentando os fatores que levam à alteração de discos e articulações com o passar do tempo.


Fontes:

-The Scars of Human Evolution. AAAS, 2013 Annual Meeting, https://aaas.confex.com/aaas/2013/webprogram/Session5714.html
-Whitcome KK, Shapiro LJ, Lieberman DE (2007) Fetal load and the evolution of lumbar lordosis in bipedal hominins. Nature 450(7172):1075-8

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A incrível história da mulher que confundiu seu marido com um dragão

Não, não se trata de uma história vinda da série Game of Thrones, e a personagem não é a bela Daenerys Targaryen (aquela Nascida da Tormenta). Os dragões que atormentavam a vida de Rosa (nome fictício, claro) nasciam das bizarrices e truques do nosso cérebro, esse velho contador de histórias, quase sempre irreais.

Mas antes de narrar o drama de Rosa temos que comentar algo sobre como nosso cérebro reconhece faces. Boa parte de nosso sistema de comunicação não verbal ocorre pela complexa e rica expressividade facial que nós humanos (e provavelmente outros primatas) possuímos. Uma parte importante de nosso cérebro é formada por redes neurais que permitem diferenciar rostos de outros tipos de imagens. É tão importante compreender a expressividade facial que só de visualizar três traços já enxergamos aí uma face, e uma face que expressa sentimentos. Os emoticons são uma prova disso. O lado ruim é que muitas vezes acabamos vendo faces onde elas nem existem, como o já famoso caso da face de Marte, um fenômeno que entra no grupo das pareidolias.

Há um bom tempo que sabemos que lesões numa área específica do cérebro denominada giro fusiforme provocam uma incapacidade de reconhecer rostos, embora a capacidade de discriminar qualquer outro tipo de objeto permaneça inalterada. Esta condição foi denominada prosopagnosia, neste caso adquirida (pela lesão). Pacientes com esta condição são incapazes de reconhecer as pessoas pelo rosto, mesmo as mais íntimas, e têm que recorrer a outros aspectos como a forma de andar, voz, cor do cabelo entre outras. Sim, meio bizarro, mas real. 


Depois descobrimos que esta cegueira perceptiva para faces pode ser também congênita, e hoje sabemos que, em diferentes graus e formas, afeta quase 2,5% da população, incluindo aqui gente famosa como Brad Pitt.

Mas agora voltemos a Rosa. Ela resolveu procurar ajuda especializada na sua terra natal (Suíça) quando aos 52 anos seus problemas alcançaram um nível desesperador. Ela não tinha grandes dificuldades para reconhecer rostos, com o que o diagnóstico de prosopagnosia não mais cabia. O problema de Rosa era que após alguns minutos de olhar o rosto de alguém, este começava a mudar. Ia se tornando completamente escuro, se alongava, surgiam orelhas pontudas e um focinho proeminente. Sua pele adotava um reptiliano aspecto escamoso e os olhos cresciam assumindo brilhantes cores amarela, verde, azul, vermelha... Excluindo o fato de não cuspir fogo pelas ventas, todos se transformavam em dragões.

O problema começara a se agravar a partir da adolescência, mas mesmo assim Rosa chegou a ter uma vida relativamente normal, com curso superior, casamento, filhos e tudo mais. Mas com o passar do tempo os dragões do seu cérebro começaram a tomar conta não apenas dos rostos de amigos, colegas e familiares. Eles apareciam quando fixava seu olhar em tomadas, em telas de computador, ou na escuridão das suas noites insones.

Desesperada, enviou uma carta narrando seu caso ao neurologista Oliver Sacks, que ficara mundialmente famoso ao descrever a história “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”. E foi Sacks (curiosamente, ele também portador de prosopagnosia), quem encaminhou Rosa aos seus colegas na Suíça.

Ao ouvir a história os médicos suíços suspeitaram, claro, de alguma lesão no giro fusiforme, mas os exames de ressonância magnética e o EEG não mostraram nada que pudesse ser relacionado com as alucinações visuais descritas pela paciente. Tampouco nada na sua história clínica ou qualquer outro distúrbio psiquiátrico, salvo a depressão associada à sua situação e uma ocasional (e curiosa) alucinação onde via formigas rastejando pelas suas mãos (zoopsia).

Até o momento, nenhuma abordagem comportamental ou farmacológica tinha funcionado. Finalmente os médicos tentaram com rivagstimina, uma medicação que aumenta no cérebro a quantidade de um neurotransmissor, a acetilcolina, e que é utilizada para melhorar a memória e outros aspectos cognitivos em pacientes vítimas das doenças como Alzheimer ou Parkinson.

E funcionou. Felizmente, por enquanto, a história de Rosa e seus dragões parece estar se encaminhando para um final feliz.

É isso. Um pequeno desequilíbrio químico no cérebro e somos capazes de transformar o rosto de entes queridos em terríveis dragões. Mas é também esse delicado equilíbrio químico que nos mantêm dentro dos parâmetros de normalidade. Uma ligeira flutuação pode fazer mudar muda nosso humor, nossa capacidade de atenção, nossa memória, nossos sentimentos e desejos. Ou pior, nos faz enfrentar um dragão ainda mais temido que os de Rosa, a depressão.


Fonte: Prosopometamorphopsia and facial hallucinations. Jan Dirk Blom, Iris E C Sommer, Sanne Koops, Oliver W Sacks, www.thelancet.com Vol 384 November 29, 2014


sábado, 24 de janeiro de 2015

Darwin, Deus e as baratas.

Vespa-esmeralda ferroando  (através do pescoço)
o cérebro de uma barata.
Quando em 1831 Charles Darwin embarcou no HMS Beagle iniciando a viagem que iria mudar a história da ciência, ainda acreditava na existência de um Benevolente Criador. Mas voltou da viagem cinco anos depois duvidando da existência de deuses. Que aconteceu nessa viagem que produziu tamanha mudança? O que abalou sua fé? Ele mesmo escreveria:

"Durante estes dois anos fui levado a pensar muito sobre religião. Enquanto a bordo do Beagle eu era (religiosamente) bastante ortodoxo [...], gradualmente comecei a perceber que as histórias do Velho Testamento com sua visão manifestamente errada do mundo, com sua Torre de Babel, do arco íris e o dilúvio, etc., etc., e o fato de se atribuir a Deus os sentimentos de um tirano vingativo, eram tão confiáveis quanto os livros sagrados dos hindus ou as crenças de qualquer bárbaro.”

Fora isso, Darwin ficara bastante perplexo pelos requintes de crueldade nas estratégias utilizadas por alguns animais para sobreviver e reproduzir. Em particular ele descrevera a ação de um tipo de vespa da família das Ichneumonoidea, que parasitam lagartas depositando sobre elas larvas que as devoram lentamente. Que benevolente criador poderia pensar em algo tão malévolo? Posteriormente a ideia dos processos de seleção natural que eliminavam a necessidade de um designer seria a resposta às suas dúvidas.

Mas se Darwin tivesse conhecido o ciclo de reprodução da vespa-esmeralda (Ampulex compressa), seu desencanto com a ideia de um benevolente criador teria sido total e imediato.

A vespa-esmeralda pode ser considerada uma aliada para muita gente. Seu alvo é outro inseto: a Periplaneta americana; sim, o nome científico de nossa popular e não muito bem considerada barata.

Esta história de terror entre vespa e barata é mais ou menos assim. Quando a vespa capta a presença de uma barata parte logo para o ataque. Inicialmente tenta virar a vítima deixando-a com as patas para cima, momento em que acerta a primeira ferroada. O golpe é preciso. O ferrão penetra no tórax. O veneno na quantidade e local exatos não mata mas paralisa as patas dianteiras da barata que com isto não pode fugir. Agora, com mais tempo, a vespa calcula milimetricamente a segunda ferroada. Esta entra lentamente pelo pescoço (ver figura acima) e utilizando sensores localizados na extremidade do ferrão alcança com precisão de fazer inveja a qualquer neurocirurgião regiões específicas do cérebro. Graças aos sensores o veneno é injetado nos gânglios encefálicos supra e subesofágico, e só lá. O veneno altera a química cerebral da barata, mas em vez de matá-la modifica seu comportamento tornando-a um verdadeiro zumbi sob controle total da vespa. 


Dominada mentalmente por causa do veneno, a vítima em vez de fugir fica no lugar limpando suas patas e antenas como se nada estivesse acontecendo. Enquanto isso a vespa, sabendo que sua presa não vai fugir, começa a segunda parte deste espetáculo macabro. Procura uma toca segura onde esconder sua vítima. Antes de arrastá-la ao local escolhido, corta suas antenas para beber a hemolinfa (o sangue da barata) repondo assim parte das energias perdidas durante a luta. O veneno agora produz outra alteração comportamental dramática na vítima: suprime o comportamento de fuga e a deixa num estado de aparente torpor que durará por vários dias. 

Vespa-esmeralda cortando as antenas da barata
 e bebendo sua hemolinfa.


Na sequência, a vespa arrasta a barata-zumbi até a toca. Antes de abandoná-la deposita um ovo sobre seu corpo, fecha a toca e vai embora procurando outra barata para parasitar. 

Barata com as antenas amputadas e parcialmente paralisada pelo veneno da vespa-esmeralda.
 Observar próximo à pata anterior direita a larva da vespa.


Mas quem pensou que o suplício acaba aqui se engana. Em poucas horas a larva da vespa começa a devorar o corpo semiparalisado da vítima. Faz um orifício em seu exoesqueleto e penetra em seu abdome. Pouco a pouco vai devorando todas suas vísceras mantendo intactas apenas àquelas que são indispensáveis para manter a vida. Depois de alguns dias, uma nova vespa adulta surge do abdome oco da barata, que agora poderá morrer em paz.

Completado o ciclo, uma vespa madura sai do abdome agora oco da barata.


Embora possa parecer roteiro de algum filme de terror a ação da vespa sobre a barata faz parte dos mecanismos de seleção natural operando e se aperfeiçoando em períodos de milhões de anos. Sem moral, sem deuses. Apesar da aparente crueldade (para nosso padrão humano do século 21) nunca as baratas estiveram sob ameaça de extinção por causa da ação da vespa, e alguns já pensaram até utilizar estas vespas para reduzir a população de baratas, num controle mais ecologicamente correto que os venenos que utilizamos rotineiramente (e bem mais eficiente que a famosa chinelada).

Todo este comportamento da vespa não foi aprendido. Como vimos, ela já sai do corpo da barata pronta para iniciar a caçada. Seu comportamento, com essa “crueldade” toda, está fixado em seus genes e depois em seu cérebro ao nascer. Não à toa Darwin descartou o design de um benevolente criador. 



Vídeo completo da ação da vespa-esmeralda.

Provavelmente pelo mesmo motivo, para fugir da armadilha moral de um deus bondoso criando maldades, somado a mais de 150 anos de evidências, várias autoridades religiosas, incluindo o Papa Francisco, já aceitaram a Evolução como um fato.

Em tempo, dia 12 de fevereiro no mundo todo é comemorado o Dia de Darwin (data do seu nascimento). O slogan comemorativo é “Continue pesquisando, continue aprendendo, continue evoluindo.”.

Que assim seja.


Fonte
Absurd Creature of the Week: The Wasp That Enslaves Cockroaches With a Sting to the Brain. WIRED-SCIENCE, http://www.wired.com/2014/02/absurd-creature-of-the-week-jewel-wasp/



sábado, 20 de dezembro de 2014

Jura dizer a verdade?

Quem já não assistiu? Sentado lá no alto o grave juiz e sua toga; ao lado o júri ouvindo longas explanações de advogados de defesa e acusação, o desfile de testemunhas e o conhecido “Jura dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade?”.

Em nosso imaginário coletivo tão hollywoodiano esta é a melhor forma de fazer justiça. Pelo menos nos Estados Unidos. Lá o peso de uma “testemunha ocular” é decisivo. Foi apenas a partir da década de 1990 que testes científicos mais objetivos como a análise de DNA começaram a ser utilizados para confirmar depoimentos, álibis e culpabilidades. Nos Estados Unidos mais de 239 condenações foram revistas devido ao uso do teste de DNA. Destas 239 condenações incorretas –algumas das quais mantiveram por décadas inocentes na prisão- 174 tinham sido baseadas em depoimentos obtidos de testemunhas oculares. Em alguns casos foi suficiente o testemunho de apenas uma pessoa, mas em outros, três ou quatro testemunhas tinham confirmado a autoria do crime culpando quem nada tinha feito.

Como é possível, aceitando a honestidade das testemunhas, que duas, três ou mais pessoas afirmem ter visto alguém cometer um crime quando de fato o acusado nem estava aí?

A ciência além de oferecer essa ferramenta incrível que é a análise de DNA pode auxiliar juízes e jurados a entender por que uma ou mais testemunhas oculares por mais honestas que sejam ou por maior convicção que demostrem podem estar simplesmente erradas.

O primeiro passo é entender que nossa memória não é algo confiável. Muitos a imaginam como um filme que gravamos sobre determinado evento e depois, quando necessário, clicamos um “play” imaginário e o filme volta a ser exibido reproduzindo tudo com exatidão. Errado. Se quisermos fazer comparações –sempre perigosas por inexatas- o mais correto seria imaginar a memória como um quebra-cabeça que desmontamos, misturamos as peças e guardamos. Mas vamos complicar ainda. O lugar onde guardamos tem peças de outros quebra-cabeças e, para piorar, com o tempo as peças vão sendo perdidas.

No caso dos julgamentos estes podem demorar anos e o processo de acúmulo e perda de peças se acentua. Quando a testemunha é chamada para depor ela tenta “dar um play” no filme do evento mas na realidade está montando um quebra-cabeça ao qual faltam algumas ou muitas peças. Se nosso cérebro fosse fã da realidade nos faria dizer, “Mmm..., não lembro”. Mas nosso cérebro não é fã da realidade e sim da coerência. Que é que ele faz então? Pode utilizar peças de outros quebra-cabeças para formar uma imagem coerente com nossas convicções e depoimentos anteriores, nossos e de outros. Está faltando um rosto na imagem? Sem problema, há muitas peças de “rostos” com as quais substituir a peça ausente. Está faltando uma frase? Idem. Para o cérebro melhor um corpo com o rosto trocado que um corpo sem rosto nenhum.

Com essa instabilidade toda, nossa memória pode ser manipulada. Falsas memórias podem ser implantadas com alguma facilidade. Em um experimento já clássico pesquisadores deram para ler a um grupo de voluntários quatro textos que narravam eventos da sua infância. Três eram reais e um inventado. Parentes colaboraram com os pesquisadores para dar detalhes de lugares e pessoas que os voluntários conheciam (esta técnica de implantação de memórias é denominada na psicologia cognitiva “Lost in the mall technique”, algo como “Perdido na loja”). No estudo, 25% dos voluntários lembraram como real o evento imaginário, e alguns, quando lhes foi dito que um dos eventos era inventado (mas sem informar qual), eliminaram da lista um dos três que era real.

Isto mostra que, infelizmente, profissionais inescrupulosos podem não apenas direcionar a testemunha, mas também implantar memórias sobre o evento. Com o tempo a testemunha não consegue diferenciar a versão falsa da real.

Além desta fonte de incerteza, o grau de estresse na hora de presenciar o fato influencia a capacidade de memorização. A presença de sangue, armas, nossos preconceitos, nossa tendência a corroborar a versão dos outros se é maioritária (um tipo de viés denominado pensamento de grupo ou Groupthink) acabam contribuindo para criar uma versão que pode corresponder muito pouco com a realidade, mas na qual confiamos plenamente.

É isso. A testemunha pode jurar e acreditar que está dizendo a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, mas seria bom que juízes e jurados levassem em consideração a informação que vem da neurociência. Quem sabe a vida de um inocente é a que está em jogo, e esse inocente pode ser qualquer um de nós.


Fontes:

-The formation of false memories, 1995. Loftus, EF & Pickrell JE . Psychiatric Annals 25: 720–725.
-Do the “Eyes” Have It?, 2009. Arkowitz, H & Lilienfeld, SO. Scientific American Mind , vol. 20, no. 7, pp. 68-69.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Atraso sem fim


No que parece ser um firme e insistente propósito de levar o país aos saudosos tempos da Idade Média, o pastor-deputado Marcos Feliciano acaba de propor um projeto de lei para incluir na grade curricular das Redes Públicas e Privadas de Ensino, de forma obrigatória, conteúdos sobre criacionismo. Conforme consta no projeto “Os conteúdos referidos neste artigo devem incluir noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe”.

A esta altura nada mais deveria nos surpreender vindo das hordas do fundamentalismo religioso que povoam o Congresso Nacional e às quais os governos fazem questão de dar tanto espaço e apoio (e que, claro, nosso eleitor democraticamente colocou em Brasília). Mas um disparate dessa magnitude chega a ser assustador.

O projeto (leia aqui) se resume a um amontoado de conceitos que carecem da mínima base educacional ou científica. Utiliza erroneamente o conceito de teoria científica, sem ter ideia da diferença com o conceito coloquial do termo; junta no mesmo saco de gatos evidências testáveis e atos de fé. Iguala sem o menor fundamento a Teoria (científica) da Evolução com dogmas de uma religião específica (a do pastor, baseada no livro do Gênesis, as outras são ignoradas no projeto). Mistura conceitos como origem da vida, Big Bang, evolução, como se tudo fosse fruto de uma mente “cientificista” anti-Deus. E ao tornar obrigatório o ensino do criacionismo cristão bate de frente com vários artigos da Constituição Federal. 

Em vão procurei trechos no texto que servissem de exemplo para ilustrar aqui a confusão à qual me refiro, não porque eles não existam e sim porque constituem a quase totalidade do projeto.

Ante tamanho feito, várias federações e associações científicas e de ensino de ciências já se manifestaram alertando sobre o perigo disto ser levado a sério e aprovado. Mas acho que a carta enviada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência aos deputados (ver aqui) resume de forma clara todo esse temor. Assim, com a licença do leitor, por ser a entidade que representa a ciência do Brasil, prefiro transcrever alguns parágrafos que reputo fundamentais.


Sobre a evolução

“A descoberta e o entendimento do processo da evolução representa uma das maiores conquistas na história da ciência. A evolução explica com sucesso a diversidade de vida na Terra e tem sido confirmada repetidamente por meio de observação e experimentos em uma ampla gama de disciplinas científicas. A ciência evolucionária foi que deu a base para o surgimento da moderna biologia, abrindo caminho para novos tipos de pesquisa médica, agrícola e ambiental, além de ter proporcionado o desenvolvimento de tecnologias que têm ajudado a prevenir e combater doenças que afligem a humanidade.”



Sobre o criacionismo

“Os argumentos criacionistas são baseados em crenças acerca de uma entidade de fora do mundo natural. Não pode ser investigado pela ciência, que somente investiga os fenômenos que ocorrem naturalmente.
O criacionismo não é uma teoria científica, não satisfaz a condição essencial de poder ser testada, refutada, confrontada com a realidade por meio de observações e experiências, de tal modo que se possa verificar se suas afirmações são conformes aos fatos. (...)”.



E finaliza...

“Definitivamente, não há como inserir o criacionismo no conteúdo de disciplinas científicas, para que não prejudique o ensino científico de boa qualidade no Brasil.
Diante do exposto, senhores deputados, a SBPC solicita que o PL 8099/2014, bem como o PL 309/2011, no qual o primeiro está apensado, sejam rejeitados e arquivados, mantendo assim o princípio da laicidade e liberdade de crença garantidos pela nossa Constituição federal, bem como não comprometa o ensino das Ciências a nossos alunos.".


É isso. Por mais deficiente que esteja nossa educação básica, sempre encontraremos voluntários para torná-la pior.






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