sábado, 19 de julho de 2014

Choro e raça. A neurobiologia por trás da derrota.

"Não entendo por que um jogador de futebol chora, brasileiros sempre choram. Toca o hino, choram; eliminam o Chile, choram; perdem para a Alemanha, choram. Eles têm que mostrar que são homens e são fortes. Nunca vi nada tão nefasto como a linguagem corporal dessa equipe.".

Não, o chatíssimo comentário acima não é de um argentino provocador ou de algum uruguaio mordedor. É de um alemão, Lothar Matthäus, um desses alemães que agora reverenciamos num misto de admiração e umas pitadas de síndrome de Copenhague.

Muito do que eu teria que dizer aqui já foi mencionado por outros, fundamentalmente depois das cenas presenciadas após o jogo contra o Chile, imagens de descontrole emocional que se alguém pensou que tinha sido superado no jogo contra Colômbia reapareceu infelizmente no início do jogo contra Alemanha, e que levou –algo “Nunca antes na História deste País” - a que tomássemos sei lá quantos gols em quinze minutos.

O futebol como qualquer esporte de competição objetiva vencer, obedecendo claro regras bem determinadas. E vencer pressupõe também derrotar o adversário. Assim, é necessário potencializar todas as capacidades que levem à superação individual, tanto físicas quanto psicológicas, mas também neutralizar as capacidades do rival (ou como dizem, evitar que o rival “goste do jogo”).

Voltemos então ao choro. Por que ele atrapalha numa competição? Para entender todo este processo precisaríamos detalhar como nosso cérebro processa as emoções, como este processamento interfere na resposta física, como nosso cérebro diferencia desafio de ameaça. É muita coisa para abordar aqui, mas posso afirmar que já avançamos muito na compreensão desses fenômenos e este conhecimento deveria fazer parte da preparação dos atletas.

Sabemos que situações que levam à tristeza, medo, felicidade, etc., são processadas pelo cérebro e este coordena respostas físicas na forma de contração muscular e secreção glandular. A resposta de contração muscular determina nossa postura corporal e nossas expressões faciais. Assim, nosso corpo e nossa face mostram felicidade quando estamos felizes, tristeza quando estamos tristes, medo quando algo nos ameaça, raiva, etc., reações que podem ser “lidas” pelos outros. É uma forma de linguagem não verbal que permite que comuniquemos nossos estados de ânimo, algo que compartilhamos com quase todos os animais.

Ao mesmo tempo, também descobrimos que além desse caminho cérebro-corpo existe o caminho contrário, desde nosso corpo em direção ao cérebro. Este está constantemente recebendo informações somáticas e reagindo de acordo com elas. Em um experimento hoje já clássico, foi solicitado que voluntários avaliassem quão engraçado era um desenho animado. À metade dos voluntários foi solicitado que previamente segurassem um lápis entre os dentes, o que resultava numa expressão facial semelhante à que fazemos quando sorrimos (ver figura abaixo). Como resultado, aqueles que tinham mordido o lápis acabaram encontrando o desenho animado mais engraçado que o grupo controle. Muitos experimentos depois, hoje sabemos que se adotamos uma postura corporal e facial de tristeza, raiva, felicidade, medo, etc., ela acaba influenciando nossas emoções mesmo que não exista nenhum fato real que as cause (os atores que o digam).




De acordo com a hipótese do feedback facial, a contração muscular
 resultante de "forçar" o sorriso como no exemplo acima,
 ativa redes neurais que geram uma melhora no humor e uma percepção
mas positiva do entorno (Strack, F. e cols, 1988).

Voltando ao jogo, como o cérebro dos jogadores estava lendo sua expressão corporal e facial desde o momento do hino? Eles tinham um aspecto de desafio ou ameaça? A diferença é fundamental. A ameaça decorre quando as demandas são percebidas como superando nossas reais capacidades. Já o desafio resulta quando achamos que nossas capacidades são suficientes para superar as demandas.

Acho que aqui não há muita dúvida. Se do lado de fora tínhamos a impressão que nossos jogadores estavam inseguros (reagindo mais a uma ameaça que a um desafio), “pelo lado de dentro” o cérebro de cada um deles estava interpretando da mesma forma. A consequência disto? Entre outras, fisiológica. Alguns estudos indicam que a
 ameaça aumenta os batimentos cardíacos sem diminuir a resistência vascular, o que leva a um aumento da pressão arterial e uma mobilização pouco eficiente de energia para responder às demandas (no desafio também ocorre aumento dos batimentos mas há uma menor resistência vascular, o que leva a uma utilização energética mais eficiente). Como se fosse pouco, o cérebro dos adversários também estava lendo a atitude dos nossos jogadores, o que os tornava assim cada vez menos ameaçadores. Se atravessando esta situação é possível ainda vencer rivais menos capacitados técnica ou taticamente, ao enfrentar rivais tão bons ou melhores estaremos dando um handicap muito importante.

Em tempo, não concordo com a frase lá de cima do Lothar Matthäus. Nem sempre os jogadores brasileiros choram. Em 1994 decidimos uma final nos pênaltis. Não lembro do Dunga, Branco, Romário & cia. chorarem. Se isto está acontecendo com a geração atual, temos que nos perguntar por quê.

-Social "facilitation" as challenge and threat. Blascovich J. e cols., J. Pers. Soc. Psychol. 1999


Inhibiting and facilitating conditions of the human smile: a nonobtrusive test of the facial feedback hypothesis. Strack F e cols., J Pers Soc Psychol. 1988 May;54(5):768-77.

-Self-attribution of emotion: the effects of expressive behavior on the quality of emotional experience. Laird, J. J. Pers. Soc. Psychol. 1974

domingo, 6 de julho de 2014

Os sem-fé

Anos atrás, quando ainda a fé fazia minha cabeça, a palavra de autoridades religiosas era para mim definitiva. Com esforço tentava que a dúvida em relação ao que lia ou ouvia vindo delas não se instalasse porque tinha aprendido que o simples fato de questionar seria duvidar não apenas da fé, mas da palavra do próprio Deus, expressa pela boca dos seus representantes na Terra. Assim, reconheço que em parte minha fé era mantida pelo medo.

Os anos passaram e quem sabe devido a aspectos de funcionamento cerebral, a necessidade de questionar tudo –mesmo os mais arraigados dogmas- prevaleceu. Com isso a fé, entendida aqui como a crença mesmo na falta ou contra toda evidência, se foi.

Se bem a opção religiosa individual não deveria ser um assunto sobre o qual alguém tenha que se intrometer, a história e evolução das religiões como fenômeno social é um tópico que sempre desperta um enorme interesse, motivo pelo qual nesta coluna já tínhamos abordado alguns aspectos, tanto sociológicos como neurobiológicos da experiência religiosa. 

Por tudo o que já tinha lido, prevalecia a informação que a importância das religiões estaria em franco declínio nos países mais desenvolvidos da Europa (entre outros). Assim causou um real interesse a informação lida dias atrás nesta Folha, segundo a qual o número de candidatos a batismo teria crescido nos últimos anos (A redescoberta da fé, Charles Borg, 22/06/2014). E mais, esse fenômeno teria acontecido em países como a França, justamente um dos países europeus mais desenvolvidos. A religião estaria aumentando seu espaço nas Sociedades do Conhecimento? Como ficariam então os prognósticos de alguns pesquisadores que indicam que até a década de 2040 a religião terá uma relevância minoritária nesses países? Poderia um ateu ou um agnóstico, pelo fato de não encontrar respostas para tudo, abraçar explicações sobrenaturais? Seu cérebro inquiridor o permitiria? 

Mas antes de discutir essas possibilidades seria muito importante confirmar esses números. Uma das mais utilizadas referências ao discutir o tema é a ampla pesquisa de opinião pública realizada pela WIN-GALLUP International, o Índice Global de Religiosidade e Ateísmo (GLOBAL INDEX OF RELIGIOSITY AND ATHEISM – 2012, os dados completos no blog da Coluna Ciência). A pesquisa foi feita em 2005 e repetida em 2012, fazendo a mais de 50.000 homens e mulheres de 57 países a mesma pergunta: “Independentemente do fato de você participar ou não de um local de culto, você se considera uma pessoa religiosa, uma pessoa não religiosa, ou um ateu convicto? ”. Por ter sido realizada com um intervalo de sete anos é possível não apenas conhecer os números totais, mas também as tendências. Em relação à França os dados da GALLUP indicam que entre os países europeus é o segundo menos religioso (superado apenas pela República Checa). Em 2005 a porcentagem de franceses que se consideravam religiosos era de 58% despencando para 37% em 2012 (queda de 21%). Já o número de ateus convictos passou de 14% dos franceses em 2005 para 29% em 2012, um aumento de 15%. Assim, os números da GALLUP parecem ir de encontro à ideia de um ressurgimento da fé religiosa entre os franceses. Pelos dados desta abrangente pesquisa, presumivelmente o aumento no número de adultos candidatos a batismo descritos pelo episcopado francês deva ser um fato isolado, que deve ser analisado no contexto de informações mais abrangentes.

Independente dos números, autoridades religiosas deveriam ser mais prudentes na hora de qualificar eventuais benefícios da fé. Entendo a necessidade que elas sentem de defendê-la veementemente, mesmo por que é através da fé que o pensamento religioso com seus dogmas e improbabilidades pode subsistir. Mas outra coisa é tentar estimular a fé em detrimento daqueles que não a possuem. Expressões como “Sem a fé a vida é fútil, uma viagem sem destino e as conquistas um cruel cinismo” soam como uma forma de menosprezar aqueles que, como eu, substituíram a fé por um saudável ceticismo. Não consigo imaginar como esse tipo de comentário pode ser agregador e estimular a tolerância e o respeito. Será que é fútil então a minha vida? Será fútil também a vida de gente como Bertrand Russel, Jean-Paul Sartre, José Saramago, Jorge Amado, Marie Curie, Carl Sagan, Mark Twain, Stephen Hawking, Bill Gates, Simone de Beauvoir, Charles Chaplin e tantos outros?

Achar, como na Idade Média, que a resposta aos grandes dilemas da humanidade e da nossa vida reside na fé no sobrenatural é menosprezar a engenhosidade humana e a evolução da nossa inteligência como espécie. 

Finalmente, vale lembrar as palavras do Dalai Lama: “Qualquer resposta, baseada na religião, para o problema de nossa negligência dos valores internos não pode ser universal, e assim será insuficiente. O que nós precisamos na atualidade é uma abordagem para a ética, que não faça referência à religião e que seja igualmente aceitável para aqueles que tenham fé e os que não tenham: a ética secular.”.

Concordo com ele, e suspeito que um certo argentino também.



sábado, 21 de junho de 2014

O dilema do homem gordo


(Por favor, leia tudo e vote ao final)

As redes sociais têm nos permitido confirmar algo que sempre soubemos: quanto os outros são imorais e como somos bons. Nesse pano de fundo de falta generalizada de ética, que tal uma pílula da moralidade? Algo que torne as pessoas assim, boas como nós. Será que algum dia a ciência inventará algo parecido? Isso é possível? Sim e não. Por quê? Bom, em parte porque a resposta para dilemas morais pode ser também sim e não.

Decisões de conteúdo moral são complexas. Filósofos têm estudado esse tema por séculos e agora os neurocientistas começaram a mexer nesse vespeiro.


Mas vamos a um exemplo filosófico clássico (este é do tipo moral-pessoal e, como verão, anterior à existência do “Politicamente Correto”).


Estamos numa ponte sobre os trilhos do trem. Sabemos que um vagão desgovernado passará por aí e matará cinco trabalhadores (li no Facebook que foram amarrados aos trilhos por militantes do PT; se deu no FB deve ser verdade). Ao nosso lado na ponte um homem muito gordo observa a paisagem sem nada saber. Se o empurramos sobre os trilhos, ele morrerá mas deterá o vagão. Empurrá-lo (salvando cinco pessoas mas ocasionando sua morte) seria uma decisão moralmente aceitável?

Existem algumas variantes desse dilema e escolas filosóficas têm se dividido quanto à decisão final, influenciando inclusive os sistemas jurídicos. Os utilitaristas (ver Jeremy Bentham, 1748-1832) são favoráveis a decisões que produzam o melhor resultado final. Neste caso seriam favoráveis a empurrar o homem gordo já que isso salvaria cinco pessoas. Outros como Immanuel Kant (1724-1804) argumentam que algumas ações, como matar uma pessoa inocente, são absolutamente proibidas, assim, não aceitariam sacrificar a vida de um para salvar cinco. 

Quando colocados ante esses dilemas indivíduos mentalmente saudáveis têm se dividido para um ou outro lado. Podemos assim quantificar aqueles que decidem uma coisa ou outra e correlacionar essa decisão com caraterísticas como idade, sexo, escolaridade, religião, nacionalidade, etc. Isto nos fornece parâmetros que podem ser analisados cientificamente. Mas pode a ciência palpitar sobre decisões que envolvem aspectos morais? 

De novo, sim e não. De fato, não há nada na metodologia científica que nos permita saber se algo é ético ou não. Aspectos éticos são decididos por indivíduos e sociedades. 

Por outro lado, decisões morais são decisões, e estas são produto –até que outras evidências surjam- da atividade do cérebro. Assim a decisão moral é produto da circuitaria cerebral, moldada pela genética, a evolução e a cultura.

Seriam então os conceitos éticos passíveis de manipulação mediante intervenção farmacológica? Uma droga poderia afetar sutilmente nossas decisões morais? 

Agora a resposta é sim. 

Em um estudo de 2010, pesquisadores analisaram a resposta de voluntários sadios ante dilemas morais como o descrito acima sob efeitos de citalopram, uma droga que aumenta a quantidade de serotonina no cérebro, e compararam os resultados com indivíduos que ingeriam placebo. Com mais serotonina, a decisão de empurrar o homem tornava-se mais condenável moralmente. Em outro estudo semelhante os pesquisadores testaram agora a droga lorazepam, um ansiolítico. Desta vez, a opção de empurrar tornava-se moralmente mais palatável.

Assim, como afirma a autora de um dos estudos, a pesquisadora Molly Crockett, algo parecido com a droga da moralidade pode já existir, mas o que não existe é uma unanimidade sobre o que é moralmente correto, pelo menos em determinadas circunstâncias. Pelos resultados destes experimentos, utilitaristas recomendariam o uso de lorazepam, mas os partidários de Kant o de citalopram. Claro, como as coisas não são nada claras a opção da droga da moralidade deve ficar, pelo menos por enquanto, no campo da ficção científica. 

Cérebros criam cultura e culturas criam normativas éticas que, em teoria, estão aí para assegurar o convívio harmonioso dos grupos, permitindo por sua vez a sobrevivência dos indivíduos (ou dos cérebros?). Parece ser uma boa ideia, por enquanto, deixar para lá as informações que nos vem da neurociência, dados perturbadores que apontam que o livre-arbítrio pode não passar de um mito e nosso conceito de moralidade o resultado de um equilíbrio instável de neurotransmissores. 

Parafraseando John Lennon, conhecimento pode ser uma arma quente, quente, quente.

Mas, qual a sua opinião sobre o dilema acima?
Caso tenha esquecido, aqui vai de novo.

Estamos numa ponte sobre os trilhos do trem. Sabemos que um vagão desgovernado passará por aí e matará cinco trabalhadores. Ao nosso lado na ponte um homem muito gordo observa a paisagem sem nada saber. Se o empurramos sobre os trilhos, ele morrerá mas deterá o vagão. Empurrá-lo (salvando cinco pessoas mas ocasionando sua morte) seria uma decisão moralmente aceitável?


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sábado, 3 de maio de 2014

A ilusão do livre-arbítrio

Bereitschaftspotential. O termo parece complicado. Seu significado, algo parecido com “potencial de prontidão”, tampouco é fácil de ser explicado, mas é fundamental para entender por que boa parte (de fato a maioria) dos cientistas que estudam o cérebro e o comportamento acha que nossa ideia de livre-arbítrio, a ideia que somos livres para tomar decisões, não passa de uma ilusão reconfortante que nosso cérebro cria.

A história do debate sobre o livre-arbítrio é tão antiga quanto a própria história da humanidade. Filósofos e religiosos têm se debruçado sobre o assunto e criado uma obra muito rica. Os interessados encontrarão boas descrições sobre conceitos como determinismo cosmológico, indeterminismo, compatibilismo e outros pesquisando na internet.

Mas este não é nosso objetivo. Se bem a discussão filosófica e religiosa é interessante, livre-arbítrio e decisão fazem parte do repertório de ações do cérebro e ao contrário de outras formas de conhecimento a ciência pode nos dar algumas respostas testáveis, algo mais tangíveis que conceitos filosóficos.

Na década de 1960, pesquisadores descobriram que quando tomamos uma decisão nosso cérebro já apresenta uma atividade elétrica que antecede ao momento de sermos conscientes dessa decisão. Os experimentos pioneiros realizados pelos alemães Kornhuber e Deecke usando eletroencefalografia (EEG) mostraram que a ação de mover os dedos, por exemplo, era iniciada de forma não consciente pelo cérebro frações de segundo antes dos voluntários do experimento moverem de fato os dedos e terem consciência do que faziam. Isso foi registrado no EEG e foi essa onda elétrica pré-consciente que recebeu o nome de Bereitschaftspotential (BP).

Experimentos semelhantes foram realizados pelo grupo de Benjamin Libet nos anos 80, e os resultados foram parecidos: o cérebro já estava trabalhando numa resposta antes dos voluntários serem conscientes disso.


Resultado dos experimentos de Libet. O experimento consistiu no registro da atividade elétrica cerebral (EEG) e muscular (EM) de voluntários. Estes teriam que cumprir uma tarefa bem simples: numa tela de TV um ponto ia se deslocando numa circunferência (imaginemos que esta circunferência é um relógio e o ponto vai se deslocando número a número). O voluntário deveria escolher quando pulsar um botão de forma absolutamente livre, apenas deveria anunciar em qual posição se encontrava o ponto quando teve a intenção de apertar o botão. No gráfico, o momento da “consciência da intenção” está registrado como ”W - Awareness of intention”, e o momento de mexer o dedo como “Action”. Observar que há uma demora normal de 200 milissegundos entre a decisão consciente e a ação, tempo necessário para a ordem motora gerada no cérebro chegar aos músculos que controlam o dedo. Mas o que surpreendeu a todos é que 350 milissegundos antes da decisão consciente relatada pelo voluntário, já existia uma intensa atividade cerebral (“Rise of RP”).


Com o surgimento de modernas técnicas de imagem cerebral como a ressonância magnética funcional (fMRI) cientistas tiverem ao alcance uma tecnologia bem mais sofisticada que a utilizada por Kornhuber, Deecke e Libet.

Em 2008 o neurocientista John-Dylan Haynes e seu grupo, utilizando fMRI, registraram resultados semelhantes aos de Libet num experimento algo mais complexo, associando a visualização de letras numa tela de computador à ação de movimentar os dedos. Os resultados foram de fato ainda mais surpreendentes. Em alguns casos a atividade cerebral, o BP, se iniciou até 10 segundos antes do indivíduo ter consciência do que faria (ver vídeo abaixo). O mais chocante é que os pesquisadores, olhando as imagens que estavam sendo geradas mediante a fMRI foram capazes de saber o que os voluntários decidiriam segundos antes que estes decidissem!! Não apenas estavam lendo a mente, mas o faziam antes que o dono da mesma!





Imagem fMRI mostrando áreas de ativação no córtex frontopolar (áreas coloridas no cérebro,
 sobre os olhos). De acordo com os autores, esta seria uma das regiões onde inicialmente
 começa a ser gerada a decisão, antes de termos consciência dela 
(extraído de Bode, S. e cols., PloS One, Vol. 6, e21612).

De acordo com os autores a demora entre o início da planificação cerebral e a percepção consciente da decisão a ser tomada ocorre porque ante a tarefa proposta várias áreas cerebrais trabalham na melhor resposta possível e só uma vez encontrada a solução a decisão chega à esfera consciente. E isso, claro, leva seu tempo.



Neste vídeo, Marcus Du Sautoy (Professor de Matemática na Universidade de Oxford e 
da Cátedra Simonyi para a Compreensão Pública da Ciência) participa de um experimento
 realizado por John-Dylan Haynes (Professor no Centro Bernstein de Neurociência
 Computacional de Berlim) na tentativa de encontrar a base neurológica para a tomada de decisão.


Como fica então a crença que somos “nós” que estamos decidindo? Calma, os experimentos nessa área estão no início. Críticos do “determinismo cerebral” argumentam, e com razão, que decisões sobre mexer os dedos são simples demais comparadas a outras mais complexas que tomamos, como casar, divorciar, trocar de emprego, etc. Só quando tenhamos as condições técnicas para aprimorar estes experimentos (e não demorará muito) teremos uma ideia mais aproximada sobre se o que estamos vendo em relação a decisões simples também se aplica a todas as outras. Mas o fato dos resultados desde a década de 1960 apontarem na mesma direção, mesmo com tecnologias mais e mais sofisticadas, é bastante significativo.

Por outra parte, de acordo com os próprios cientistas, a noção do “eu” como algo separado do corpo não passa de uma ilusão que o cérebro cria. Como comenta Michael Gazzaniga, um dos maiores neurocientistas da atualidade, mente e cérebro são uma coisa só. A sensação de que existe um eu separado do corpo, que o habita e controla, é apenas o resultado da atividade cerebral que nos engana. A decisão e a posterior tomada de consciência sobre essa decisão fazem parte do mesmo processo que o cérebro cria para que possamos sobreviver e procriar. Mais uma conquista evolutiva.

Se tudo isto se confirmar nossa noção de livre-arbítrio terá que mudar radicalmente. Teremos que encontrar um adjetivo mais apropriado que “livre” para descrever como e por que decidimos o que decidimos.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Mosquito transgênico contra a dengue está pronto

Em tempos de epidemia de dengue, declarada ou não, vem aí uma notícia que deve chamar a atenção de todos, fundamentalmente das nossas autoridades sanitárias. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação aprovou no dia 10 de abril, por 16 votos a 1, a liberação comercial da linhagem OX513A do Aedes aegypti, um mosquito geneticamente modificado (GM), para controlar a população do vetor do vírus da dengue e, assim, combater a doença.

O início desta pesquisa tem mais de uma década, e já foi comentada por esta coluna. Resumidamente a ideia é introduzir mediante técnicas de engenharia genética um gene letal em mosquitos Aedes aegypti machos. Estes mosquitos (lembrar que os mosquitos machos não nos picam, e sim as fêmeas) são liberados nas áreas urbanas em grande quantidade de forma a ter um número bem maior de mosquitos GM que mosquitos selvagens, numa proporção próxima de 10:1. Ao copular com machos GM as fêmeas selvagens geram larvas que, devido à mudança genética do pai, morrem prematuramente. Como o número de mosquitos machos GM é bem maior que o de mosquitos selvagens, as cópulas ocorrem majoritariamente entre fêmeas selvagens e machos GM e com isso a população de larvas com o gene letal vai ficando progressivamente maior que a população de larvas sadias, levando assim a uma redução na população de mosquitos.






                              A experiência do mosquito transgênico na Bahia



Para permitir que sejam os pesquisadores (e não a natureza) os “gerentes” na reprodução das larvas, o gene letal é inibido quando estas crescem na presença de tetraciclina. Isto permite que as larvas GM atinjam a fase de mosquitos adultos apenas nos laboratórios das biofábricas já instaladas na Bahia. 
De acordo com alguns críticos do projeto, este pode ser um ponto negativo. Tetraciclina é um antibiótico comumente empregado nas indústrias da pecuária e da aquicultura, que despejam no meio ambiente grandes quantidades dessa substância. Obviamente, se larvas descendentes de machos GM se reproduzissem no ambiente natural em águas contaminadas com tetraciclina, o gene letal seria inativado e elas chegariam à fase adulta.

O projeto vem sendo desenvolvido pela empresa Oxitec, surgida nos laboratórios da Universidade de Oxford no Reino Unido, uma das mais prestigiosas universidades do mundo, e trabalha no Brasil em parceria com a USP e a Moscamed Brasil, uma Organização Social sem fins lucrativos (OS) reconhecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e pelo Governo da Bahia.

A técnica está sendo testada desde 2011 em alguns municípios da Bahia, como Juazeiro, onde a Moscamed já possui uma biofábrica que produz aproximadamente 4 milhões de mosquitos por semana. As larvas são modificadas geneticamente no Reino Unido pela Oxitec e importadas pela Moscamed, que se encarrega do resto da cadeia produtiva. Dados fornecidos pela própria Oxitec, aos quais não tivemos acesso, apontariam uma redução de 96% na quantidade de mosquitos selvagens nos municípios testados. 

Com a liberação da CTNBio, a Oxitec já está em plena expansão no Brasil para o início do projeto comercial. O valor que os municípios terão que pagar pelo programa oferecido pela empresa ainda não foi divulgado, mas dependerá do número de habitantes de cada cidade.

O que se espera é que o mais breve possível tenhamos dados relativos à diminuição ou não da incidência da doença nos municípios onde o projeto vem sendo desenvolvido. Se estes números forem tão animadores quanto o pessoal da Oxitec e a Moscamed comenta, teremos pela primeira vez uma solução real e efetiva para diminuir a incidência da dengue em nossos municípios.

Cabe assim às nossas secretarias de saúde estarem completamente informadas de todos os aspectos relacionados com o projeto, mesmo porque a ideia já saiu do papel e em breve estará à disposição dos interessados.

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