Todo dia, pontualmente às 16:00, milhões de mongóis se ajoelham sobre seus tapetes sagrados e olhando em direção ao centro da Terra oram para Athot, a deusa de todas as coisas, da pureza e da perfeição. O reino de Athot (Khann) é separado do mundo impuro (Govi-Altay, tudo o que existe na superfície, no mar e no céu) pelo escudo de Athiai, o Guerreiro (para os mongóis, o escudo de Athiai representa a crosta terrestre). No interior do planeta, Athot vive com os seres encantados, ou afians, todos nascidos da mente de Athot. Contam os livros sagrados que um dos afians, Dundgovi, seduzido pela beleza de Athot tentou tocar os cabelos dourados da deusa. Como castigo, seu corpo foi despedaçado e seus restos jogados no mundo impuro. Os fragmentos de Dundgovi entraram então em cada objeto existente em Govi-Altay, em cada folha, cada pedra, cada lança, cada criatura viva, cada objeto inanimado, natural ou construído pelo homem. Tudo o que podemos ver na superfície da Terra, nos mares e no céu tem em seu âmago algo do espírito de Dundgovi. Mas Dundgovi, arrependido, não que ficar no mundo impuro da superfície. Cada fragmento do seu espírito quer retornar ao centro da Terra, se desculpar com Athot e pedir que seu corpo volte a ser uno. É por isso que todos os objetos tendem a cair, porque os fragmentos de Dundgovi os empurram em direção a Khann.
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História 2
A gravidade é uma das quatro forças fundamentais da natureza. Por causa dela objetos com massa exercem atração uns sobre os outros. Classicamente, é descrita pela lei da gravitação universal de Newton. De acordo com Newton, todos os objetos no Universo atraem todos os outros objetos com uma força que é proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa.
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As histórias 1 e 2 explicam, cada uma a sua maneira, por que as coisas caem. Na história 1 o fazem porque fragmentos do espírito de um deus as empurram em direção ao centro da Terra. A história é completamente falsa, claro. Foi inventada por mim. Não existe nenhuma divindade mongol chamada Athot, ou Dundgovi. Mongóis não rezam, suponho, para nenhum deus às quatro da tarde. Tudo foi fruto de 15 minutos de invenção literária.
Já a história 2, extraída da Wikipédia, embora também tenha saído da cabeça de alguém, surge de um trabalhoso processo de observação, análise e experimentação. Por séculos a humanidade tentou explicar por que os objetos caem, por que os planetas e satélites naturais como a lua não se afastam da Terra. Explicações místicas nunca faltaram. Se eu consegui inventar a deusa Athot e seu séquito em 15 minutos, imaginemos o que poderia ser feito com mais tempo, sem TV, e sem muita coisa para fazer.
Felizmente alguns decidiram duvidar de histórias como a minha e testar se essas explicações eram fruto apenas da imaginação ou estavam amparadas por evidências. Se a teoria não podia ser testada (é impossível criar um experimento que negue a existência de qualquer deus, seja este Athot, Zeus ou Jeová), era deixada de lado. Se os experimentos comprovassem que a teoria estava errada, era jogada no lixo. A teoria que sobrevivesse a todos os ataques persistiria. Esse tipo de pensamento originou o método científico. Não precisamos acreditar na teoria gravitacional científica porque Newton era um gênio (embora ele fosse mesmo). Acreditamos porque ela funciona.
Da mesma forma que a gravidade, a origem das espécies – incluindo a origem do homem-, possui explicações místicas e uma explicação científica. As primeiras nascem das dezenas de lendas cosmogônicas que cada religião ao longo da história do homem foi criando, suspeito que de uma forma não muito diferente ao processo mental que me levou a criar a história de Athot. A explicação científica - a teoria da evolução – foi fruto das observações de Darwin e Wallace, testada e aprimorada ao longo de 150 anos de muita pesquisa e trabalho árduo de milhares de cientistas.
Mesmo que a teoria de Athot não fosse minha, mesmo que ela fizesse parte dos mitos de criação de alguma religião, quero acreditar que nenhuma pessoa sensata daria a ela a mesma validade que a teoria gravitacional newtoniana. Salvo em algumas teocracias fieis a Athot, a explicação religiosa para a queda dos objetos jamais competiria com a explicação científica.
Mas ao contrário da gravidade, muitos querem que a explicação mística sobre a origem das espécies tenha a mesma relevância que a explicação científica, e oferecê-la como alternativa em nosso sistema de ensino.
Claro, muitos dirão, estou comparando uma teoria maluca inventada por mim em alguns minutos de ócio com o Gênesis bíblico. Respeito a crítica, mas discordo. Ensinar a alunos já tão pobremente preparados para enfrentar a Sociedade do Conhecimento que a Terra tem 10.000 anos e não bilhões, que dinossauros e humanos conviveram, que um deus lá no céu em seis dias criou tudo o que existe, que Noé teve seu primeiro filho com 500 anos e morreu com 950, não me parece muito mais sensato que o desejado retorno de Dundgovi ao fantástico reino de Khann.







