sábado, 11 de julho de 2015

Cérebro e maioridade penal


Na figura, imagens de ressonância magnética de um mesmo
 indivíduo realizadas aos 5, 8, 12, 16 e 20 anos. O nível de maturidade 
do córtex cerebral é expresso na escala de cores, do amarelo 
(menos maduro), ao violeta (mais maduro). Observar que o córtex pré-frontal 
(à esquerda no cérebro) é o último a madurecer. 
(Extraído de CRIME, CULPABILITY,  AND THE ADOLESCENT 
BRAIN, Beckman, M. Science 30 July 2004: Vol. 305)
Em meio a esse tiroteio todo sobre a maioridade penal, vez ou outra surge o argumento neurológico. Jovens não poderiam ser penalizados da mesma forma que adultos porque seus cérebros não estariam prontos para tomar as decisões corretas e suprimir os impulsos agressivos. Se a justiça já trata indivíduos com deficiências cognitivas de forma diferente (utilizando argumentos neurocientíficos) deveria fazer a mesma coisa com jovens. Quanto de verdade há nisso e quanto de mito?

A discussão não é nova, mesmo na neurociência, mas existem algumas evidências importantes que nos dão boas pistas. 

Hoje sabemos que algumas regiões do cérebro são parcialmente responsáveis por algo que os neurocientistas denominam “processo de tomada de decisão”, processo este que envolve a análise de risco e dano potencial. É essa capacidade cognitiva que nos permite avaliar antecipadamente as consequências das nossas eventuais ações. Algo assim como “se faço isto vai acontecer aquilo, e se acontecer aquilo então pode acontecer isso ou isto; agora, se faço isto outro pode acontecer isto ou isto...” e por aí vai. Como um bom jogador de xadrez o cérebro maduro permite antecipar alguns lances, o que depende muito da nossa inteligência e das nossas experiências de vida, das quais -muitas vezes de forma inconsciente- o cérebro lança mão para que sintamos antecipadamente o que sentiríamos se o pior acontecesse em virtude de uma decisão errada ou precipitada. Ou seja, antes de fazer sentimos como se tivéssemos já feito.

Cientistas já descobriram que a área cerebral mais diretamente envolvida em tudo isso é o córtex pré-frontal (CPf), uma região muito desenvolvida nos humanos localizada na parte mais anterior do cérebro. Esse conhecimento surge tanto de experimentos em animais como no estudo clínico e comportamental de humanos com lesões no CPf. Alguns pacientes com lesão nessa área têm poucas alterações comportamentais evidentes fora a incapacidade de processar normalmente informação com fundo emocional. Ao que parece se as emoções que uma situação provoca não são bem avaliadas pelo cérebro, a capacidade de tomar a melhor decisão diminui drasticamente. Resumindo, a decisão racional é guiada pela avaliação emocional da consequência de um ato (ver aqui e aqui casos clínicos de pacientes com lesão no CPf).

Paralelamente vários estudos confirmam que essa região, o CPf, é uma das últimas do cérebro a ficar pronta. Os processos de ajuste no número de neurônios, na forma como os neurônios estabelecem suas conexões para formar redes neurais (o que depende e muito do ambiente onde o jovem está inserido), e até o importante processo de mielinização (a formação de uma camada lipídica que envolve os prolongamentos neuronais e que aumenta a velocidade de comunicação entre essas células), terminam em idades que, dependendo do estudo, variam entre os 18 a 25 anos.

Mas na prática, isso resultaria no quê? Em que aos 16 anos pular de cabeça nas águas desconhecidas de um rio, experimentar cocaína ou pegar uma carona com um amigo bêbado podem ser decisões aceitáveis. O benefício imediato não seria suficientemente avaliado em relação ao dano potencial. Da mesma forma, ante uma ofensa a agressão física poderia ser a resposta imediata. E claro, se o jovem com esse cérebro em plena remodelação convive num ambiente onde o crime e a violência fazem parte do seu dia a dia, o cérebro resultante será condicionado por esse ambiente.

Mas de certa forma todos suspeitamos que isso é assim mesmo. Se aceitamos que um jovem não tem maturidade para participar de um júri, comprar ou consumir bebidas alcoólicas, casar sem autorização dos pais, assinar contratos ou até entrar no cinema, é porque aceitamos que sua capacidade de discernimento não é a mesma que a de um adulto.

Tudo isto, claro, não justifica de forma alguma que jovens delinquentes sejam “perdoados” porque não sabem o que fazem ou algo do gênero. Isso seria absurdo. Sociedades têm o direito e o dever de defender os indivíduos daqueles que apresentam comportamentos que ameaçam a vida e a segurança dos outros. A discussão é o que fazer com o jovem infrator. A experiência internacional mostra que uma parcela desses jovens –não todos- pode ser recuperada para o convívio social se utilizados os mecanismos educacionais adequados.

A solução que estamos adotando aqui no Brasil parece ser a menos inteligente. O menor infrator será colocado num dos piores sistemas prisionais, em companhia de adultos delinquentes, com garantia mínima de recuperação. Caso não morra em prisão, será provavelmente posto em liberdade no máximo em dez a quinze anos. Em outras palavras, prendemos um menor como se adulto fosse pela ameaça que ele representa, e o soltamos dez anos depois representando uma ameaça bem mais grave, já que praticamente eliminamos a chance de reabilitação social.

Às vezes temos que ter cuidado para que o natural e primário desejo de vingança e punição não nos impeça de tomar a medida mais racional. A evolução nos deu o mais desenvolvido CPf do reino animal, talvez o que nos torna humanos.


Façamos então bom uso dele.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Homossexualidade é “não natural”?

Mesmo depois de dezenas e dezenas de artigos escritos no jornal e no blog sobre diversos assuntos, “Homossexualidade sob a lupa da ciência”, de 2012, continua a ser o mais lido e acessado. Pelos motivos certos ou errados o tema da homossexualidade não sai da pauta. Entre os motivos errados, a constante tentativa de negar direitos civis entre outras formas de discriminação.

Um dos argumentos mais utilizados para esta atitude seria que esta, a homossexualidade, é “não natural”. Deuses (ou a natureza) teriam criado macho e fêmea e baseado nisso os comportamentos “naturais” de corte, acasalamento e reprodução, que seriam a base do que li por aí como “valores irrefutáveis da família”. Se considerarmos que “natural” significa “que pertence ou se refere à natureza” ou “regido pelas leis da natureza; provocado pela natureza” (Dicionário Houaiss), o argumento é um completo equívoco.

Já foram identificadas mais de 1300 espécies animais com comportamentos homossexuais, e é certo que esse número é subestimado. Cientistas denominam comportamentos homossexuais em animais não humanos com a sigla SSB, do inglês “same-sex sexual behavior”, definido como “interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo que também ocorrem com indivíduos do sexo oposto com a finalidade de reprodução”. O termo SSB substitui nesses estudos denominações como “preferência” ou “orientação” sexual, que implica um desejo consciente que, por motivos óbvios, não pode ser comprovado em animais (não podemos saber o que um animal deseja, podemos apenas observar o que ele faz e a partir de aí fazer inferências).

SSB foi descrito cientificamente em animais de todos os níveis de complexidade e tamanho, incluindo vermes (nemátodos), moluscos, insetos, anfíbios, répteis, peixes, aves e mamíferos, entre os quais nossos primos mais próximos, os bonobos, mas também golfinhos, felinos, morcegos e muitos outros. A duração do SSB na natureza é extremamente variável, podendo ser identificados casais homossexuais relativamente estáveis a comportamentos homossexuais esporádicos.

Pelas evidências disponíveis cientistas especulam que interações homossexuais poderiam permitir alianças estratégicas como ocorre entre algumas espécies de golfinhos, ou para facilitar a reconciliação após conflitos, como foi observado entre alguns primatas (Macaca fuscata). Também foram observadas em situações onde é necessário confirmar hierarquias (bisão-americano) ou diminuir o sucesso reprodutivo de competidores (moscas Hydromyza livens). A lista de utilidades ainda inclui o simples “treino” entre machos jovens para depois ter mais sucesso numa situação real ante uma fêmea (descrito em Drosophila) e, ainda, como forma de inseminação indireta, depositando o esperma em outros machos para que estes o depositem nas fêmeas posteriormente, comportamento descrito entre alguns tipos de besouros.

Biólogos ainda discutem o aparente paradoxo evolutivo da preferência homossexual em humanos ou do SSB nos outros animais. Por que os genes que levam ao SSB, mesmo diminuindo o potencial reprodutivo, permanecem na população? Apesar de paradoxal, não seria a primeira vez que nos resulta difícil conciliar certas características e comportamentos observados na natureza com o que sabemos sobre evolução darwiniana, fundamentalmente quando não conseguimos descobrir de forma imediata os benefícios de características que à primeira vista parecem muito pouco adaptativas. Este já foi o caso de comportamentos como a agressão, o altruísmo e mesmo a complexa e custosa ornamentação exibida por alguns animais.

Nos últimos anos, dezenas de estudos vêm abordando esta questão. Em relação aos animais não humanos, não há dúvida que a resposta está nos genes. Duas teorias, não necessariamente excludentes, tentam explicar a sobrevivência evolutiva de genes ligados ao SSB: a sobredominância e o antagonismo sexual.

Resumindo – e muito- na sobredominância o par de genes que seriam responsáveis pelo SSB (que denominaremos aqui genes H-H) confeririam esse comportamento apenas na condição homozigótica (quando os dois genes são idênticos). Mas se um dos genes for diferente (H-h, condição heterozigótica) não apenas o comportamento SSB poderia não se manifestar como outras caraterísticas com valor adaptativo poderiam surgir. Uma situação semelhante se observa na anemia falciforme, uma doença hereditária. Quando o indivíduo é homozigótico para os genes que provocam a doença esta se manifesta, mas na condição heterozigótica a doença pode não se manifestar e ainda a combinação genética oferecer resistência para outra doença, a malária, o que em regiões onde é endêmica representou uma vantagem adaptativa que permitiu assim a sobrevivência dos genes da anemia.

Já no antagonismo sexual, o par de genes que em um sexo pode gerar uma situação pouco adaptativa, pode apresentar uma situação adaptativa no outro. Isto foi observado num recente estudo utilizando a mosca da fruta (Drosophila melanogaster). Pesquisadores observaram que machos com uma carga genética relacionada com o SSB, que os colocaria em desvantagem na hora de reproduzir, quando o fazem geram fêmeas com maior capacidade reprodutiva, equilibrando assim a deficiência reprodutiva dos pais machos. 


Algo semelhante foi observado em humanos. Em um estudo com mais de 4900 gêmeos foi observado que indivíduos heterossexuais, quando eram irmãos gêmeos de indivíduos não heterossexuais (de acordo com os resultados de questionários psicológicos específicos) apresentavam um número maior de relacionamentos (heterossexuais) que no caso de gêmeos heterossexuais, o que parece indicar que carregar fatores genéticos que predisponham para a homossexualidade pode oferecer alguma vantagem reprodutiva nos heterossexuais, o que, finalmente, poderia explicar a sobrevivência evolutiva destes genes "H-H".

É isso, de “antinatural” a homossexualidade parece não ter nada. Seria legal se a informação científica conseguisse desarmar essa intolerância toda que permeia a discussão sobre os direitos civis, mas claro, não será o caso. Fundamentalismos não são permeáveis a este tipo de esclarecimento.

E para finalizar, é bom lembrar que se uma delicada propaganda de perfume tem o potencial de destruir os “valores irrefutáveis da família”, com certeza o problema não está na propaganda, não é mesmo?


Fontes:

-Hoskins JL, Ritchie MG, Bailey NW. 2015 A test of genetic models for the evolutionary maintenance of same-sex sexual behaviour. Proc. R. Soc. B 282: 20150429.
-Bailey, Nathan W. et al. Same-sex sexual behavior and evolution Trends in Ecology & Evolution , Volume 24 , Issue 8 , 439 - 446
-Brendan P. Zietsch et al. Genetic factors predisposing to homosexuality may increase mating success in heterosexuals. Evolution and Human Behavior 29 (2008) 424 – 433






sábado, 16 de maio de 2015

Fantasmas no cérebro

Imagem tomográfica de hemorragia cerebral (fatal).  (Joshua P. Klein & 
Robin C. Ryther.N Engl J Med 2009; 361:1786 October 29, 2009
DOI: 10.1056/NEJMicm0900232
Fico imaginando um indivíduo na Idade Média sofrendo uma alucinação visuoauditiva complexa. A imagem que lhe surge aí, conversando com ele, seja um deus, santo, demônio ou um familiar morto será tão vívida quanto qualquer outra do mundo real. Se a imagem mental vai ao encontro do seu sistema de crenças, se ele acredita que essas figuras sobrenaturais existem e podem conversar com ele, dificilmente teria motivos, com o nível de conhecimento da época, para duvidar da sua autenticidade.

Tudo indica, entretanto, que toda essa população de criaturas sobrenaturais habita em nosso cérebro. Vozes, imagens, ações, tudo está lá. Durante os sonhos parte dessa fauna vem nos visitar, mas ao acordar sabemos que isso não era real. Mas em algumas circunstâncias o cérebro produz tudo isso quando estamos acordados e aí a confusão começa, como não poderia deixar de ser.

Mas por que isto acontece? Por que o cérebro cria essas histórias sobrenaturais e nos empurra no universo místico?

Hoje conhecemos algumas respostas, mas antes devemos lembrar que, ao que parece, temos uma predisposição cerebral para dar explicações sobrenaturais para eventos naturais. Somos dualistas natos. A ideia que a alma, espírito, self, consciência -ou seja qual for o nome que dermos- é uma entidade separada do corpo físico é algo muito arraigado em nós, algo intuitivo. 

Em parte isso acontece pela dificuldade de associar as atividades mentais com o cérebro, o que não sucede com os outros órgãos e sistemas do nosso corpo. Podemos, por exemplo, fazer uma associação visceral entre os alimentos que ingerimos e os órgãos do sistema digestório. Conseguimos perceber a passagem do bolo alimentar pelo esôfago, estômago, intestinos. Sentimos músculos e ossos ao nos movimentar, ao sentar ou ao cair. Enfim, de certa forma podemos relacionar nossas vísceras com suas respectivas funções, mas com o cérebro isto é impossível. Não temos como criar uma relação perceptiva entre aquilo que o cérebro faz (pensar, sentir, calcular, decidir, planejar, desejar, etc.) com essa massa gelatinosa dentro de nossa cabeça. A impressão que temos é que a produção de ideias e pensamentos é algo que de fato não se relaciona com o corpo. Assim, a ideia dualista está fortemente arraigada e com isso os relatos sobrenaturais são facilmente assimilados.

Voltando aos fantasmas, uma das formas de fazer o cérebro fugir da realidade e nos levar para o além é mediante o uso de drogas psicoativas. Aliás, ao longo da nossa história temos utilizado algumas dessas drogas com essa exata finalidade, nos comunicar com entes sobrenaturais. Plantas como a mandrágora, o ópio, ou a Datura inoxia (a “Erva do Diabo” do Carlos Castaneda) entre outras têm sido utilizadas em rituais por xamãs e outras figuras místicas. 

Hoje temos uma boa ideia sobre como os componentes dessas plantas mexem com o equilíbrio neuroquímico a ponto de nos fazer alucinar. Anestésicos como a quetamina estão associados a “experiências fora do corpo”. Drogas como a tenamfetamina (MDA) podem trazer memórias de eventos há muito experienciados e esquecidos nos dando uma sensação de regressão. A dimetiltriptamina (DMT), princípio ativo da Ayahuasca, provoca uma dissociação entre mente e corpo e essa estranha sensação de falta de limites corporais. O fungo Claviceps (ergot), a partir do qual foi isolado o LSD, tem efeito alucinógeno e alguns historiadores acreditam que ao contaminar grãos como trigo e cevada podem ter contribuído com o clima de histeria religiosa vivido durante a Idade Média.

Outra forma de induzir experiências místicas é mediante a meditação. Estudos realizados em monges budistas e freiras franciscanas durante o processo meditativo (ou prece) mostram alterações em áreas do cérebro responsáveis por estabelecer os limites entre nosso corpo e os objetos vizinhos. Pacientes com lesão nestas áreas cerebrais têm dificuldades em discriminar onde termina o corpo e começa, por exemplo, uma mesa, tropeçando frequentemente. Estudos de imagem mostraram que durante a meditação existe uma redução do fluxo sanguíneo nessas regiões, o que produz uma diminuição da atividade cerebral local. Isso poderia explicar a sensação de perda de limites físicos, o “pertencer a um todo” ou a fusão da “alma” com a mente de Deus. 


Imagens do cérebro "normal" à esquerda e durante a meditação à direita. Observar a diminuição
do fluxo sanguíneo na região parietal direita, uma região relacionada com a orientação no tempo e espaço  

A hipóxia, diminuição da oxigenação no cérebro, também desencadeia experiências místicas. Isto foi constatado com pilotos em treinamento submetidos a forças de aceleração poderosas (ver filme abaixo), o que leva a uma diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro com a consequente falta de oxigenação. Após o treino nos simuladores quase todos os pilotos relatavam ter passado por um estado de confusão consistindo de breves episódios de visão de túnel (por vezes com uma luz brilhante no final), bem como sentimentos de flutuação ou paralisia, e finalmente perda de consciência, e ao se recuperarem uma sensação de euforia ou de paz e serenidade. Esta descrição, claro, lembra os relatos das chamadas “Experiências de Quase Morte” (EQM). Não por coincidência, estas geralmente surgem durante episódios onde a circulação para o cérebro é diminuída. 






Várias outras situações, mesmo em indivíduos sadios, são capazes de distorcer nosso senso de realidade. Quando há uma alteração psiquiátrica ou neurológica, como na esquizofrenia, epilepsia, ou lesões cerebrais decorrentes de doença ou trauma, estas situações de disfunção cerebral são mais comuns, e temos sobre elas uma literatura muito interessante e rica. Autores como Oliver Sacks, Vilayanur Ramachandran (a quem peço emprestado o título desta postagem) entre outros, mestres na descrição desses casos, são uma referência e, fundamentalmente, uma delícia de ler.

Para os interessados, fica então a dica.

Leitura recomendada:
Why people see gosts. Michael Shermer & Pat Linse. www.skeptic.com

sábado, 25 de abril de 2015

Nosso medo de transgênicos.

Um ano atrás nesta coluna comentávamos a liberação por parte da Comissão Técnica Nacional de Biotecnologia (CTNBio) do mosquito Aedes aegypti transgênico. Resumidamente, a ideia era liberar uma grande quantidade de mosquitos machos geneticamente modificados (GM). Esta modificação no DNA do Aedes faz com que ele morra em poucos dias assim como todos seus descendentes, que sequer conseguem chegar à fase adulta. Como a quantidade de mosquitos GM liberada acaba sendo bem maior que a quantidade de mosquitos machos selvagens, eles, os GM, copulam com a maioria das fêmeas. Estas então geram larvas que morrem antes de virarem mosquitos adultos, diminuindo assim o vetor responsável pela dengue. E lembrando, claro, que podem liberar machos à vontade porque estes não picam.

De lá para cá, fora um aumento assustador do número de vítimas -inclusive fatais- desta doença, pouco ouvimos falar deste Aedes GM. Mas isso mudou em março deste ano. Considerando que nenhuma medida conseguia deter esta epidemia, a prefeitura de Piracicaba decidiu comprar a ideia da liberação de Aedes GM. Isto, como já era de se esperar, gerou uma enorme resistência por parte de grupos que costumeiramente se opõem à utilização de soluções transgênicas (aparentemente em qualquer área). Mas estes, desta vez, seguiram o caminho correto. Em março entraram com uma ação no Ministério Público de Piracicaba (caminho correto porque pelo menos não partiram para a destruição de instalações científicas, como já tinha ocorrido em outros casos). De acordo com os demandantes (que incluía o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente), seriam necessárias garantias que os "Aedes transgênicos" não representariam riscos à saúde pública e à natureza. Acatando a solicitação, o MP suspendeu provisoriamente a liberação dos Aedes GM enquanto analisava toda documentação, incluindo os dados científicos disponíveis, opinião de especialistas, etc. 


Finalmente, no dia 15 de abril o MP autorizou a liberação do mosquito GM. Assim, não é só a CTNBio quem opina favoravelmente em relação ao Aedes GM (batizado Aedes “do bem”, para desespero de alguns ambientalistas), mas agora também o MP (espero que não seja alegado que também o MP está a servir os interesses das “grandes corporações internacionais”).

Temos um medo pouco justificado de organismos geneticamente modificados, mesmo quando em nossa história tenhamos intencionalmente modificado o genoma de bichos e plantas mediante técnicas bem menos precisas, como cruzamentos entre espécies e indivíduos artificialmente selecionados, e em alguns casos tendo utilizado indivíduos mutantes após serem submetidos a radiação, etc. Estas técnicas “naturais” geravam eventualmente organismos com algumas das caraterísticas que nos interessavam mas, como ainda não entendíamos direito como funcionava o DNA, com outras –escondidas no genoma modificado- que poderiam ser prejudiciais. Já a engenharia genética permite fazer isso com precisão, reconhecendo e isolando o fragmento de DNA responsável pela caraterística que desejamos e tendo a capacidade de analisar exaustivamente o organismo resultante.

Um exemplo bastante conhecido é o da insulina produzida por organismos geneticamente modificados. Até algumas décadas atrás a insulina “natural” disponível para os diabéticos era extraída de porcos ou bois. Só que esta insulina, além de cara e escassa, não era idêntica à humana. A de boi diferia em três aminoácidos (os tijolinhos com os quais as proteínas são construídas) e a do porco em um. Por causa disto, com o uso constante os pacientes desenvolviam anticorpos e acabavam rejeitando a insulina de origem animal. 

Felizmente na década de 1970 pesquisadores nos Estados Unidos e Reino Unido tiveram a ideia de remover a sequência de genes que nas células do pâncreas humano tinham a “receita” para produzir insulina, e “colaram” essa sequência de genes no DNA de bactérias da espécie Escherichia coli. Em pouco tempo, os pesquisadores tiveram milhões de bactérias que, além de viverem suas pacatas vidas bacterianas, passaram a produzir insulina idêntica à humana, e é ela hoje a que abastece quase todos os diabéticos do planeta. 

Na área de saúde o uso de produtos transgênicos não se restringe à insulina. Drogas transgênicas como a Bevacizumab representam uma das últimas esperanças de vida em alguns tipos de câncer mais agressivos. Outras drogas transgênicas como a Pegfilgrastim e Epoetin alfa são utilizadas para combater os efeitos colaterais da quimioterapia. A Infliximabe, também originada de engenharia genética, é utilizada para combater doenças autoimunes. Como se isso fosse pouco, é bom saber que todas as brasileirinhas e brasileirinhos nascidos nos últimos tempos recebem uma vacina transgênica contra a hepatite B (produzida no Instituto Butantã). É isso, a criançada já sai da maternidade com transgênicos circulando pelo corpo.

Parte do medo, claro, vem da desinformação. Nesse sentido, termino com uma história exemplar. Em 1977 o prefeito da cidade norte-americana de Cambridge enviou esta carta ao presidente da Academia de Ciências daquele país:


"Na edição de hoje do Boston Herald American (...) há duas reportagens que muito me preocuparam. Em Dover, Massachusetts, 'uma estranha criatura de olhos alaranjados' foi avistada. Em Hollis, New Hampshire, um homem e seus dois filhos se depararam com 'uma criatura peluda de 2,75 m de altura'. Peço respeitosamente que sua prestigiosa instituição investigue esses relatos. Espero ainda que possam averiguar se essas 'criaturas estranhas' (caso realmente existam) estão de algum modo ligadas aos experimentos com DNA recombinante em andamento na região da Nova Inglaterra".




Passaram-se algumas décadas, produtos transgênicos são utilizados por milhões sem nenhuma morte registrada, mas no imaginário popular as “criaturas estranhas” ainda podem aparecer a qualquer momento para aterrorizar nossa vida.

Fonte:
Organismos transgênicos no Brasil: regular ou desregular? Colli, W. Rev. USP no.89 São Paulo marzo./mayo 2011

sábado, 21 de março de 2015

Com dor darás à luz.

De acordo com o mito cosmogônico judaico-cristão, Deus, irritado por Eva ter ouvido os conselhos de uma cobra falante e ter comido os frutos “da árvore que está no meio do jardim” –coisa que ele terminantemente proibira-, num ataque de ira a teria condenado nos seguintes termos: “Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; (...).” (Gênesis 3:16).

Lendas à parte, há algo de errado no parto das fêmeas humanas. Quem como eu foi criado no campo vendo ovelhas parirem sem grande esforço aparente (mal paravam de pastar), não deixa de ficar impressionado com o esforço e sofrimento que geralmente acompanha o parto vaginal humano. 


A resposta para esse tormento todo está nas alterações anatômicas decorrentes dos processos evolutivos, fundamentalmente por sermos a única espécie entre os mamíferos que adotou o bipedalismo completo.


Sem sinais comportamentais de dor, nos mamíferos, de forma geral, o parto é um processo simples
 que praticamente não altera a rotina dos animais.


Já descrevemos nesta coluna as consequências desse processo sobre estruturas como nossos pés e coluna vertebral, consequências que os especialistas denominam “cicatrizes da evolução”. Fora pés e coluna, os ossos da bacia tiveram também que modificar sua anatomia para tornar o bipedalismo eficiente. 

Em relação aos nossos primos mais próximos, os chimpanzés, nossa bacia encurtou longitudinalmente e se estendeu lateralmente. Para estabilizar o torso na posição ereta os músculos glúteos se tornaram bem mais desenvolvidos e exigiram uma maior área de inserção no quadril (nenhum outro mamífero tem nádegas tão avantajadas quanto as nossas), o que levou a uma lateralização da região ilíaca. O sacro, que forma junto com o cóccix a parte inferior da coluna vertebral, se afastou em direção posterior e as espinhas isquiáticas, localizadas na porção inferior da pelve se deslocaram em direção ao centro do corpo para permitir a inserção dos ligamentos que formam o soalho da cavidade pélvica, mas estreitando ainda mais o “canal do parto”.



À esquerda, pelve óssea do chimpanzé e à direita a pelve humana (Wittman e cols., 2007).  


O resultado de tudo isso foi uma bacia relativamente bem adaptada para caminhar sobre duas pernas mas muito estreita para dar passagem ao feto humano. Este também sofreu as consequências do outro processo evolutivo bem posterior ao bipedalismo, a encefalização. O cérebro do feto humano foi aumentando de tamanho em relação ao dos outros primatas. 

Com o estreitamento do canal do parto provocado pelo bipedalismo e o aumento do tamanho do crânio devido ao processo de encefalização, temos – e apenas nos humanos- a denominada desproporção cefalopélvica, uma cabeça grande e uma pelve estreita, que em muitos casos leva à obstrução na hora do nascimento (distócia) e complicações obstétricas catastróficas -se não houver meios para um tratamento adequado-, tanto para a mãe como para o feto, incluindo ruptura uterina, fístula vesicovaginal entre outras graves complicações.


A origem do problema. Em cinza o crânio do feto dentro do anel pélvico. Observar que em Pongo (orangotango), Pan (chimpanzé) e nos gorilas, o tamanho do crânio fetal é bem menor que o anel pélvico materno. Já nos humanos a situação é crítica (Weiner e cols., 2008).


Para contornar estas dificuldades o mecanismo do parto humano tornou-se um processo demorado, exigindo do feto um verdadeiro contorcionismo. Ao longo do nascimento o bebê tem que ir girando para que o longo eixo da sua cabeça fique sempre alinhado com o longo eixo do canal, que vai mudando conforme o feto vai descendo. Se tudo der certo ele nasce “olhando para as nádegas” da mãe, numa postura que impossibilita que esta o segure e desobstrua as vias respiratórias do recém-nascido, como outros primatas fazem. Depois que a cabeça emerge, são os ombros que devem se alinhar ao longo eixo da pelve materna, uma manobra também bastante complicada. Nenhum outro bebê primata tem esse trabalho.

Outro recurso para fugir do problema causado pela desproporção cefalopélvica é nascer antes da hora. Isso mesmo; para que nossos filhotes nascessem com uma maturidade encefálico-cognitiva comparável aos outros macacos a duração da nossa gravidez deveria ser bem superior que os atuais nove meses. Claro que se isto acontecesse a cabeça cresceria muito e o parto vaginal seria inviável. O nascimento de nossos filhotes nesse estado de fragilidade, dependência total e imaturidade cerebral acaba exigindo um cuidado e dedicação intensa das mães por um período bem mais prolongado que o observado em outros mamíferos.

Em virtude destas dificuldades, sem os recursos médicos apropriados que se tornaram disponíveis apenas a partir do século 20, entre 20 a 25% dos nascimentos humanos ao longo da nossa história evolutiva terminaram com a morte da mãe ou do filho. Ainda no século 20 o índice de morte materna por causa do parto chega a 30% entre algumas populações sem acesso a recursos médicos. Sim, esses números são desastrosos e, claro, colocam em péssimos lençóis os que ainda defendem a existência de um “Designer” minimamente inteligente.

Por outra parte, as dificuldades obstétricas causadas pela desproporção cefalopélvica levaram alguns pesquisadores a sugerir que, quem sabe, a cesariana –com todos seus inconvenientes- seria a solução ao dilema, uma solução saída do grande cérebro que tanto contribuiu para criar o problema.




Fontes:

-The Evolutionary Origins of Obstructed Labor: Bipedalism, Encephalization, and the Human Obstetric Dilemma; Wittman, A.B. e cols., OBSTETRICAL AND GYNECOLOGICAL SURVEY; Volume 62, Number 11O; 2007

-Bipedalism and Parturition: an Evolutionary Imperative for Cesarean Delivery? Weiner, S. e cols., Clin Perinatol 35 (2008) 469–478 doi:10.1016/j.clp.2008.06.003
Ocorreu um erro neste gadget