sábado, 18 de fevereiro de 2012

A lenda de Athot, a gravidade e o criacionismo

História 1
Todo dia, pontualmente às 16:00, milhões de mongóis se ajoelham sobre seus tapetes sagrados e olhando em direção ao centro da Terra oram para Athot, a deusa de todas as coisas, da pureza e da perfeição. O reino de Athot (Khann) é separado do mundo impuro (Govi-Altay, tudo o que existe na superfície, no mar e no céu) pelo escudo de Athiai, o Guerreiro (para os mongóis, o escudo de Athiai representa a crosta terrestre). No interior do planeta, Athot vive com os seres encantados, ou afians, todos nascidos da mente de Athot. Contam os livros sagrados que um dos afians, Dundgovi, seduzido pela beleza de Athot tentou tocar os cabelos dourados da deusa. Como castigo, seu corpo foi despedaçado e seus restos jogados no mundo impuro. Os fragmentos de Dundgovi entraram então em cada objeto existente em Govi-Altay, em cada folha, cada pedra, cada lança, cada criatura viva, cada objeto inanimado, natural ou construído pelo homem. Tudo o que podemos ver na superfície da Terra, nos mares e no céu tem em seu âmago algo do espírito de Dundgovi. Mas Dundgovi, arrependido, não que ficar no mundo impuro da superfície. Cada fragmento do seu espírito quer retornar ao centro da Terra, se desculpar com Athot e pedir que seu corpo volte a ser uno. É por isso que todos os objetos tendem a cair, porque os fragmentos de Dundgovi os empurram em direção a Khann. 


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História 2
A gravidade é uma das quatro forças fundamentais da natureza. Por causa dela objetos com massa exercem atração uns sobre os outros. Classicamente, é descrita pela lei da gravitação universal de Newton. De acordo com Newton, todos os objetos no Universo atraem todos os outros objetos com uma força que é proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa. 


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As histórias 1 e 2 explicam, cada uma a sua maneira, por que as coisas caem. Na história 1 o fazem porque fragmentos do espírito de um deus as empurram em direção ao centro da Terra. A história é completamente falsa, claro. Foi inventada por mim. Não existe nenhuma divindade mongol chamada Athot, ou Dundgovi. Mongóis não rezam, suponho, para nenhum deus às quatro da tarde. Tudo foi fruto de 15 minutos de invenção literária.

Já a história 2, extraída da Wikipédia, embora também tenha saído da cabeça de alguém, surge de um trabalhoso processo de observação, análise e experimentação. Por séculos a humanidade tentou explicar por que os objetos caem, por que os planetas e satélites naturais como a lua não se afastam da Terra. Explicações místicas nunca faltaram. Se eu consegui inventar a deusa Athot e seu séquito em 15 minutos, imaginemos o que poderia ser feito com mais tempo, sem TV, e sem muita coisa para fazer.

Felizmente alguns decidiram duvidar de histórias como a minha e testar se essas explicações eram fruto apenas da imaginação ou estavam amparadas por evidências. Se a teoria não podia ser testada (é impossível criar um experimento que negue a existência de qualquer deus, seja este Athot, Zeus ou Jeová), era deixada de lado. Se os experimentos comprovassem que a teoria estava errada, era jogada no lixo. A teoria que sobrevivesse a todos os ataques persistiria. Esse tipo de pensamento originou o método científico. Não precisamos acreditar na teoria gravitacional científica porque Newton era um gênio (embora ele fosse mesmo). Acreditamos porque ela funciona.

Da mesma forma que a gravidade, a origem das espécies – incluindo a origem do homem-, possui explicações místicas e uma explicação científica. As primeiras nascem das dezenas de lendas cosmogônicas que cada religião ao longo da história do homem foi criando, suspeito que de uma forma não muito diferente ao processo mental que me levou a criar a história de Athot. A explicação científica - a teoria da evolução – foi fruto das observações de Darwin e Wallace, testada e aprimorada ao longo de 150 anos de muita pesquisa e trabalho árduo de milhares de cientistas.

Mesmo que a teoria de Athot não fosse minha, mesmo que ela fizesse parte dos mitos de criação de alguma religião, quero acreditar que nenhuma pessoa sensata daria a ela a mesma validade que a teoria gravitacional newtoniana. Salvo em algumas teocracias fieis a Athot, a explicação religiosa para a queda dos objetos jamais competiria com a explicação científica.

Mas ao contrário da gravidade, muitos querem que a explicação mística sobre a origem das espécies tenha a mesma relevância que a explicação científica, e oferecê-la como alternativa em nosso sistema de ensino. 


"O Plano de Deus Para os Ambientes", figura extraída da coleção "Crescer em Sabedoria", apostila elaborada pela Associação Internacional das Escolas Cristãs e usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1 em algumas escolas confessionais do país. 
Claro, muitos dirão, estou comparando uma teoria maluca inventada por mim em alguns minutos de ócio com o Gênesis bíblico. Respeito a crítica, mas discordo. Ensinar a alunos já tão pobremente preparados para enfrentar a Sociedade do Conhecimento que a Terra tem 10.000 anos e não bilhões, que dinossauros e humanos conviveram, que um deus lá no céu em seis dias criou tudo o que existe, que Noé teve seu primeiro filho com 500 anos e morreu com 950, não me parece muito mais sensato que o desejado retorno de Dundgovi ao fantástico reino de Khann.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A dor e a Santa

Monge caminhando sobre o fogo na cerimônia
 xintoísta Hiwatari Matsuri, no Japão. 
Em um estudo publicado na revista científica Pain, pesquisadores da Universidade de Oxford verificaram que indivíduos católicos sentiam menos dor -ante um choque elétrico experimental- quando lhes era apresentada previamente uma imagem da Virgem Maria.

Até aí, o estudo não representaria muita novidade. Mais de uma vez assistimos devotos em transe religioso caminhar sobre brasas sem aparentemente sentir dor. A ciência já descobriu também que em situações de estresse agudo, como durante uma briga ou acidente, nosso cérebro é capaz de liberar no organismo substâncias químicas com grande capacidade analgésica, por isso denominadas endorfinas (morfinas internas). Mas até agora não existiam pistas concretas que explicassem por que, um sistema de crenças como a religião seria capaz de modular ou mesmo inibir a percepção de dor.

A particularidade do trabalho, liderado pela pesquisadora Katja Wiech, foi que pela primeira vez foi registrada a atividade cerebral dos voluntários do experimento.

No estudo, eram aplicados pequenos choques elétricos na mão de 12 indivíduos católicos praticantes e 12 ateus ou agnósticos enquanto se registrava sua atividade cerebral através de equipamento de ressonância magnética funcional (fMRI). Como era de se esperar, ante o choque elétrico áreas cerebrais relacionadas com o processamento da dor ficavam com maior atividade nos 24 voluntários.

Depois eram apresentadas imagens ora do rosto da Virgem Maria, ora de um rosto semelhante, mas sem conotação religiosa (ver fotos) imediatamente antes e durante o choque. Ante a imagem não religiosa, os resultados não se alteravam. 


Imagens apresentadas aos voluntários do estudo. À esquerda, imagem da Virgem Maria extraída da obra "Vergine annunciate" de Sassoferrato, e à direita a imagem não religiosa "Dama con l'ermellino" de Leonardo da Vinci.

 Todos os voluntários referiam o mesmo nível de dor e as áreas cerebrais ativadas eram as mesmas. Já quando era mostrada a imagem da Virgem Maria, enquanto o grupo de ateus/agnósticos não apresentava alterações, o grupo formado por católicos descreveu um nível de dor menos intenso e apresentou ativação cerebral diferente.

Neste grupo de voluntários, áreas do córtex pré-frontal ventrolateral direito ficaram também ativadas. 
Estas áreas cerebrais estão relacionadas com processos onde devemos alterar o significado emocional de objetos ou ações. Por exemplo, quando experimentamos uma fruta de gosto desagradável, depois de um tempo associamos a imagem da fruta a aspectos negativos. Só de ver a fruta novamente chegamos a sentir certa repugnância. 

Mas se posteriormente comemos a fruta e verificamos que o gosto mudou e desta vez nos agrada (talvez a anterior estivesse estragada ou verde), somos capazes de alterar nosso ponto de vista e agora a imagem da fruta não provoca repugnância e sim apetite. Pacientes com lesão no córtex pré-frontal ventral, além de outras alterações comportamentais, não conseguem fazer essa mudança e continuam persistindo em condutas que não são mais as corretas ou úteis para resolver determinada situação.

Para os autores do estudo, a ativação desta área cerebral em indivíduos religiosos poderia iniciar uma série de eventos que, como durante as situações de estresse agudo, levaria a uma liberação massiva de endorfinas e com isso a uma diminuição na percepção da dor.

Mas a hipótese na qual eles mais apostam -e que não exclui a anterior- é que nos indivíduos religiosos (pelo menos em alguns) a prévia visualização da imagem levaria a uma reavaliação do valor emocional da experiência dolorosa.

Em outras palavras, como conseqüência de um profundo estado de devoção induzido pela imagem da Virgem Maria, a dor dos católicos não estaria mais associada ao sofrimento e passaria assim a ser perfeitamente suportável e, em casos extremos, apreciada como uma benção. Estudo anterior já demonstrara que a região ventrolateral do córtex pré-frontal direito parece ser uma região fundamental na analgesia provocada pelo efeito placebo.

À direita, região ventrolateral do córtex pré-frontal direito ativada como consequência do efeito placebo.
 Esta região é a mesma que apresentou maior atividade no fenômeno de analgesia "religiosa".

 Claro está que muita pesquisa será ainda necessária para reforçar essa hipótese, mas caso seja válida estaremos dando um grande passo para compreender a base biológica por trás da aparente insensibilidade à dor durante algumas experiências religiosas.

Isto poderia permitir que o mesmo processo biológico desencadeado pela fé pudesse ser desencadeado tanto por fármacos que viessem a ativar essas áreas cerebrais, como através de terapias psicológicas baseadas na indução de estados mentais semelhantes a aqueles produzidos pela religião, só que em indivíduos sem esse tipo de crenças.

Fontes: 
An fMRI study measuring analgesia enhanced by religion as a belief system. Katja Wiech e cols., Pain (2008), doi:10.1016/ j.pain.2008.07.030
The neural correlates of placebo effects: A disruption account. Lieberman, M. D. e cols. NeuroImage, 22, 447-455.(2004).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Criacionismo lidera “tuitaços”. Dá para acreditar nisso???

Mesmo de férias, este blog não pode deixar de registrar o que aconteceu na sexta-feira 13 de janeiro deste ano, quando a propaganda da lenda do criacionismo bíblico dominou o twitter. Na volta da coluna em fevereiro prometo desenvolver melhor o tema. Por enquanto, posto um artigo da Coluna Ciência que, mesmo de 2009, nunca esteve tão atual.




Ensino do criacionismo gera polêmica em São Paulo


O final de 2008 e início de 2009 estiveram marcados por um intenso debate, em razão de uma reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo. Na sua coluna "Ciência em dia" (30/11), o jornalista Marcelo Leite noticiava que o Colégio Presbiteriano Mackenzie passara a ensinar criacionismo em suas aulas de ciências, através de apostilas traduzidas e adaptadas de material da Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI), com sede no Colorado, nos Estados Unidos.

Evolução seria ensinada apenas no ensino médio e, claro, no curso de graduação em Biologia, da própria Universidade Mackenzie. Poucos dias depois, após intensa discussão em jornais e blogs, o jornal O Estado de São Paulo aumentava a polêmica mostrando que o ensino do criacionismo na educação fundamental não se limitava ao Mackenzie, já que outros colégios (confessionais ou não) o estavam adotando (08/12, Escolas adotam criacionismo em aulas de ciências). Já no dia 13/12, ante a polêmica desatada, o Ministério da Educação (MEC) manifestou sua posição oficial, através da secretária para Educação Básica, Maria do Pilar: "(o criacionismo) pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências".

Como os leitores já sabem, criacionismo é a doutrina baseada no Gênese bíblico, segundo a qual o mundo foi criado por Deus a partir do nada, e todos os seres vivos tiveram criação independente e se mantêm biologicamente imutáveis.

No ano que comemoramos o 150° aniversário da publicação da teoria da evolução de Darwin e Russel, um debate como este pode parecer descabido, já que não faz sentido preferir ideias criacionistas à explicação científica da evolução das espécies, justamente em aulas de ciência.

Em esta coluna já abordamos o assunto da evolução. A ciência, embora discuta acaloradamente sobre alguns mecanismos moleculares da evolução, sobre se ela acontece gradualmente ou aos saltos, e sobre outros detalhes, aceita como um fato a ideia central contida na teoria: o ambiente, através de seleção natural ou sexual, seleciona indivíduos com determinadas características que foram passadas pelos pais ao acaso, devido a mutações ou à enorme diversidade genética existente no DNA.

Esta aceitação não está baseada na adoração a Darwin, mas devido à enorme quantidade de evidências que ao longo deste século e meio foram se somando para corroborar a teoria. De fato, cada nova informação, cada avanço na genética, no estudo dos fósseis, na biologia molecular, no estudo do comportamento animal, foi reforçando e refinando a ideia original de Darwin.

Assim, a posição do MEC é correta. O conteúdo programático das disciplinas científicas do ensino fundamental, médio e superior, deve conter informações que provêm da ciência. Deve lidar com teorias científicas. Uma teoria para ser científica obedece certos princípios básicos. Um deles é o da falseabilidade (ou refutabilidade). Para que uma teoria seja refutável ou falseável, em princípio será possível fazer uma observação ou fazer uma experiência física que tente mostrar que essa teoria é falsa.

Ou seja, a teoria deve permitir que façamos experimentos que a reprovem. Para explicar a origem das espécies, a única teoria que cumpre esses requisitos é a de Darwin, aperfeiçoada ao longo destes 150 anos.

Não existe outra. Qualquer teoria criacionista, mesmo fantasiada de pseudociência como o Design Inteligente, não é científica já que não podemos planejar um experimento que negue a existência de um criador (ou designer). Não podemos provar cientificamente se Deus existe ou não. Não sendo ciência, o criacionismo não pode ocupar espaço nas aulas de ciência.

Claro está que podemos discutir ideias criacionistas nas aulas de religião, história, filosofia, sociologia, entre outras. Sabemos que fica difícil falar sobre história da arte sem citar a bíblia.

Da mesma forma não podemos analisar nosso passado e presente de guerras, perseguições e massacres sem analisar o poder das religiões sobre as diferentes culturas. Assim, a bíblia é importante para entender e interpretar vários acontecimentos da nossa história.

Mas que a explicação bíblica (ou de qualquer outra religião) seja importante não quer dizer que seja correta. Ou a Terra tem 10 mil anos como conta a bíblia ou tem milhões, como diz a ciência. A ciência sustenta suas conclusões em observações que independem das nossas crenças, como a datação de rochas e sedimentos. Os criacionistas sustentam suas afirmações na fé.

Não sei como está a situação em Araçatuba e região. Seria interessante que esta Folha fizesse uma reportagem sobre o assunto tanto nas escolas públicas como particulares, confessionais ou não. Mas é muito importante que as Secretarias de Educação, diretores de escola, professores e pais estejam atentos sobre o que está sendo ensinado aos seus filhos.

Aulas de ciência e laboratórios científicos não são lugares para divulgar religião. Quem assim o fizer estará deseducando e enganando, e com isto, comprometendo o potencial reflexivo e crítico dos nossos filhos.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O natal dos ateus

Lá na minha terra natal, bem ao sul, o natal não se chama natal. Oficialmente é o dia da família. Sendo o dia da família a comilança, a troca de presentes e as reuniões familiares fazem bastante sentido. Não existe semana santa e sim semana de turismo; 12 de outubro não é o aniversário de nenhuma santa e sim o dia das Américas em homenagem à chegada de Cristóvão Colombo e suas caravelas, e seis de janeiro - dia dos reis magos por aqui - é apenas o dia das crianças.

Lá o conceito de laicidade é levado a sério já faz muitas décadas e faz parte da política do estado desde 1919 com apoio de todos os partidos e de toda a sociedade. Em 1907 já tinha sido suprimida toda referência a Deus ou aos Evangelhos no juramento dos parlamentares e no mesmo ano era oficializado o divórcio por vontade única da mulher. Um acordo como o que o Lula assinou com o Vaticano, oficializando o ensino religioso nas escolas públicas seria inadmissível. Legalmente inadmissível desde 1877.

Isto nunca impediu as atividades religiosas, apenas as levou à esfera privada. Fui católico até a adolescência e minha infância em terras uruguaias foi feita sim de “navidades”, com missa do galo e presépio. As lembranças são mesmo muito boas.

O natal é importante para todos nós, mesmo para os ateus que, como eu, se criaram em meio a tradições cristãs. Não acredito num Jesus ressuscitado, mas levo a sério a mensagem que o natal carrega: paz na Terra aos homens de boa vontade. Assim, o espírito do natal transcende a fé e não deveria ser patrimônio de nenhuma religião. Todos devemos contribuir para a construção de um mundo mais fraterno, justo e tolerante. Não apenas no natal, mas sempre.

Neste espírito universal de confraternização as visões excludentes não deveriam ter lugar. Frases como “Só Jesus salva” ou como a que li dias atrás nesta Folha “Sem a passagem de Jesus a raça humana seguiria em progressiva decadência” servem mais para afastar as pessoas que uni-las em um mesmo ideal solidário. De acordo com as estatísticas, o nascimento, vida e mensagem de Jesus são irrelevantes ou mesmo desconhecidas para aproximadamente 70% da população mundial. Esses não se salvam? São eles produto da “progressiva decadência”? Como reagiriam os cristãos a frases como “Só Oxum salva” ou “Sem a passagem de Maomé a raça humana seguiria em progressiva decadência”? Provavelmente ficariam ofendidos. Então, para que ofender os outros? Prever e sentir o que os outros sentiriam caso fizéssemos ou disséssemos alguma coisa é um mecanismo natural, base da empatia, que devemos sempre exercitar. Ateus e crentes.

Sempre pensei em um texto que nestas festas permitisse uma reflexão sobre a necessidade de aproximar as pessoas em vez de afastá-las. Que respeitasse todos os credos, diferenças e opções. E sempre me vem à cabeça um decálogo compilado por Richard Dawkins com o intuito de substituir a dureza draconiana dos mandamentos bíblicos. Já o publiquei anteriormente, mas vale a pena trazê-lo de volta:

1- Não faça aos outros o que não quer que façam com você;

2- Em todas as coisas, faça de tudo para não provocar o mal;

3- Trate os outros seres humanos, as outras criaturas e o mundo em geral com amor, honestidade, fidelidade e respeito;

4- Não ignore o mal nem evite administrar a justiça, mas sempre esteja disposto a perdoar erros que tenham sido reconhecidos por livre e espontânea vontade e lamentados com honestidade;

5- Viva a vida com um sentimento de alegria e deslumbramento;

6- Sempre tente aprender algo de novo;

7- Ponha todas as coisas à prova; sempre compare suas ideias com os fatos, e esteja disposto a descartar mesmo a crença mais cara se ela não se adequar a eles;

8- Jamais se autocensure ou fuja da dissidência; sempre respeite o direito dos outros de discordar de você;

9- Crie opiniões independentes com base em seu próprio raciocínio e em sua experiência; não se permita ser dirigido pelos outros;

10- Questione tudo.

Este decálogo parece reunir o melhor do pensamento religioso junto com a visão humanista e questionadora que a cultura da ciência proporciona. Ninguém precisa abrir mão da sua fé para adotá-lo, nem impô-lo aos demais. E dentro do mesmo espírito de respeito e tolerância, cada um de nós pode acrescentar alguma coisa que nos resulte importante.

Para finalizar, a saúde da humanidade e do planeta onde ela vive depende da compreensão de sermos um único clã de sete bilhões, navegando num pálido e insignificante ponto azul num canto qualquer de um universo incompreensivelmente vasto. Temos que nos ajudar. Ninguém virá nos salvar a não ser nós mesmos.

Bom natal, ou bom dia da família, tanto faz, um abraço fraterno e até 2012!





Fonte: El fenómeno de la laicidad como elemento identitario. El caso uruguayo. Néstor da Costa.
Civitas - Revista de Ciências Sociais, Vol. 11, No 2 (2011), http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/civitas/article/view/9645

sábado, 10 de dezembro de 2011

O corpo ficou pequeno

Não é apenas o grande negócio do futebol quem aguarda com expectativa o início da próxima copa do mundo. A comunidade científica também.

Se as coisas correrem como o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis prevê, o pontapé inicial será dado por dois adolescentes tetraplégicos vestindo um exoesqueleto, uma veste robótica controlada por seus próprios pensamentos. O projeto é para lá de ambicioso, mas Nicolelis e outros cientistas já percorreram um bom caminho numa linha de investigação que mais se assemelha a uma história de ficção científica: liberar o cérebro (e a mente que ele produz) das barreiras do nosso corpo carnal. Nessa mesma linha, mas com uma abordagem diferente, pesquisadores já tinham produzido “experiências fora do corpo” (EFCs) em laboratório, estimulando áreas específicas do córtex cerebral.

A ideia, por trás disso tudo, é que nosso corpo, embora seja uma construção evolutiva extraordinária, muitas vezes nos falha. Traumatismos e doenças podem mutilá-lo ou diminuir drasticamente sua capacidade. Envelhece inexoravelmente e bem mais rápido que o que nosso cérebro desejaria. Não nos permite estar em dois lugares ao mesmo tempo, e para transportá-lo gastamos tempo, energia e dinheiro. Não é assim tão rápido nem tão forte quanto algumas vezes desejaríamos que fosse. Mas por enquanto ele á a melhor interface mediante a qual nosso cérebro interage com o meio externo. E mais, pelo que descobrimos até agora, nossa atividade mental - pensamentos, sentimentos, percepções, lembranças, emoções, desejos, etc.-, tal como a conhecemos só é possível com uma constante interação cérebro-corpo.

Mas seja para aliviar o sofrimento daqueles que têm uma mente enclausurada em um corpo que não mais responde, seja para ampliar as fronteiras do conhecimento, grupos de pesquisadores decidiram que já está mais do que na hora desse limite ser desafiado.

Como nossa consciência pode abandonar o corpo físico e realizar esses fenômenos? Como ela movimenta um braço mecânico? Como produz uma EFC? Não estaria a ciência comprovando a existência de uma alma ou espírito imaterial? A volta do velho dualismo cartesiano? Não. Não há nada de sobrenatural nestas tentativas. Vejamos, por exemplo, a abordagem de Nicolelis.

Quando acidentalmente perdemos um membro ou, o que costuma ser pior, quando ocorre uma lesão na medula espinal que deixa o paciente para ou tetraplégico, a ordem que parte do cérebro para movimentar o corpo não atinge o alvo, seja porque o alvo não mais existe como no caso da amputação, seja porque os fios (nervos) que conectam o cérebro aos músculos foram seccionados (lesão medular). Mas a ordem para movimentar o braço ainda está sendo emitida por uma parte específica do córtex cerebral. A ideia então é captar esse estímulo (um potencial elétrico da ordem de milivolts), amplificá-lo e transformá-lo numa corrente elétrica capaz de movimentar uma peça mecânica. Esta peça pode estar acoplada a um exoesqueleto que envolve o corpo do paciente, mas pode estar a milhares de quilômetros de distância. 



A ideia em si é simples, porém os detalhes na sua execução e a quantidade de desafios biológicos e técnicos que devem ser enfrentados são tantos que, comparativamente, o resultado final da copa do mundo é algo absolutamente insignificante. 

Movimentar esse exoesqueleto é, entretanto, apenas parte do desafio. Quando seccionamos a medula ou amputamos um braço não apenas os nervos que levam ordens desde o cérebro para os músculos são seccionados. Os que levam sensações desde a pele para o cérebro também. Assim, a única forma de o paciente sentir o braço robótico como seu é conseguindo que a sensação de toque e movimento do membro artificial chegue ao cérebro como antes acontecia com o membro natural. Recuperar esta segunda via é bem mais complicado, mas o grupo de Nicolelis já conseguiu resultados promissores em macacos.

Sobre as EFCs já comentamos anteriormente. Desde 2006 o grupo liderado pelo pesquisador Olaf Blanke – entre outros – vem idealizando formas de provocar a projeção do “eu” ou “self” além dos limites do corpo físico. Inicialmente isto foi conseguido estimulando uma região cerebral, o giro angular, responsável pela formação de nossa imagem corporal. Posteriormente criando uma dissociação entre a informação visual e a informação tátil de partes específicas do corpo, utilizando realidade virtual. Mediante esses truques tecnológicos o cérebro é “enganado” e forma nossa imagem corporal fora do nosso corpo real. Para os pesquisadores, o próximo passo é incorporar o “self projetado” em avatares localizados em ambientes virtuais. Um ambiente onde os limites de tempo e espaço não existem. 


Se tudo isto for conseguido, em breve teremos que rever os conceitos que definem o que somos e o que nos torna humanos. Enquanto isso, vamos torcer para que Miguel Nicolelis e sua equipe tenham êxito. Milhares de pacientes aguardam com esperança.