sábado, 2 de abril de 2011

O fim da religião

Imagine que não existam países
Não é algo difícil de fazer
Nada pelo qual matar ou morrer
Nem tampouco religião
Imagine todas as pessoas
vivendo a vida em paz


(John Lennon)


Será que o sonho de John Lennon de uma sociedade sem religiões está mais próximo do que ele previa? Pelos resultados de um estudo apresentado durante encontro da Sociedade Americana de Física nos Estados Unidos, a resposta parece ser afirmativa.

Da sala de imprensa do congresso, o texto já bastante resumido foi para as grandes agências de notícias, as quais soltaram manchetes do tipo "Estudo indica que religião pode ser extinta em 9 países ricos", ou "Estudo indica que religião pode acabar em 9 países ricos" e por aí vai.

Mas será que mais uma vez um grupo de cientistas ateus desandou a falar horrores da religião? Não, nada disso.

No estudo não há nenhuma discussão filosófica sobre o valor (ou falta dele) da religião. O estudo é matemática pura. Tanto é assim que o trabalho foi realizado por uma equipe de matemáticos e físicos que utilizam termos tão complicados como "statistical mechanics nonlinear dynamics".

Trata-se da aplicação de métodos matemáticos que permitem avaliar o comportamento de grupos sociais utilizando dados do passado -fundamentalmente obtidos através de censos populacionais- para realizar uma previsão a meio e longo prazo. O método pode ser usado para analisar uma gama de fenômenos físicos e sociais onde grande quantidade de fatores acabam interferindo no resultado final.

O modelo parte do pressuposto que estar conectado a grupos que com um maior número -ou um número crescente- de membros é mais atrativo e socialmente vantajoso, e associar-se a esses grupos gera uma ideia de utilidade social. Um exemplo típico é a utilização de determinados idiomas locais. Geralmente estes tendem a ser abandonados por idiomas utilizados por um número maior de pessoas.

No caso do presente estudo, ele baseou-se em dados obtidos em censos em nove países: Austrália, Áustria, Canadá, República Checa, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça. Nesses países, todos democracias modernas e seculares, o número de pessoas que se declaram sem filiação religiosa tem aumentado ano a ano chegando a 40% na Holanda e 60% na República Checa.

Baseados nessa tendência e aplicando o modelo matemático descrito detalhadamente no estudo original, os autores chegaram à conclusão que as religiões nesses países desaparecerão em poucas décadas.

Alegria de uns, tristeza de outros. Mas sempre é bom analisar esse tipo de estudo -e qualquer outro- com uma boa dose de ceticismo científico. Primeiro, as manchetes com que o estudo foi divulgado fazem questão de citar que esses dados correspondem a "países ricos". Esta classificação já pode influenciar nossa análise desde uma perspectiva moral. Riqueza é associada por alguns com atitudes consumistas, gente mais interessada em bens materiais, sem se importar com a pobreza do mundo, etc.

Nesse contexto, o fim de religiosidade seria consequência desse egoísmo existencial.

Mas cabe também uma análise diferente, e para mim mais adequada. O que caracteriza quase todos esses países é que eles têm um sistema educacional acima da média internacional. Esse fato pode ser facilmente constatado mediante análise dos resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos).

É válido pensar que em sociedades com um sistema educacional que incentive o questionamento e o pensamento crítico -base das sociedades do conhecimento- , a possibilidade de aderir a dogmas baseados na fé seja bem menor que em sociedades que incentivem a doutrinação das crianças.

Como já comentamos nesta coluna, o que a criança absorve dos adultos nos primeiros anos da sua vida acaba moldando sua existência futura.

Outro fato a levar em consideração é a existências de fluxos migratórios. A República Checa, que registra o maior número de pessoas que se declaram não religiosas, apresenta um fluxo migratório muito pequeno. Migrantes levam consigo seus padrões culturais, incluindo aqui seus valores religiosos.

O conflito que isto gera já é bastante evidente em países europeus, onde a tradição secular tenta resistir de forma algumas vezes discutível, como no episódio da proibição dos véus islâmicos na França. Seja como for, ainda não está claro como estes fluxos migratórios podem alterar a tendência para o fim da religião observada nesses países.

Finalmente, que os amantes do pensamento crítico não fiquem muito empolgados. O fim da religião não é o fim do "pensamento mágico". Os gurus da Nova Era, os enganadores da lei da atração, os vendedores de cristais, pulseiras terapêuticas e curas quânticas não se valem necessariamente da religião, e sim da ingenuidade da fé, essa desculpa que damos quando queremos aceitar algo para o qual não existe evidência nenhuma. Essa continua viva, com ou sem religião.

Fonte: A mathematical model of social group competition with application to the growth of religious non-affiliation. Abrams, D.M e cols., http://arxiv.org/abs/1012.1375.

4 comentários:

  1. A fé no ateísmo é tão grande quanto no Deus, criador, pelos religiosos. O acreditar no acaso das coisas, coincidências e sorte é algo tão difícil e complicado quanto a existência de um ser supremo que tudo criou. A pergunta que me faço é: Será que as pessoas serão mais fraternas, terão mais empatia, compaixão, sem as mensagens desses "gurus". Sem lideranças. Será que as "ovelhas" acharão o caminho de volta ou se perderão por aí?
    Ah! Peraí! Não somos ovelhas!
    Tá bom! Nós sabemos o que é melhor para nós mesmos e para todos os que estão a nossa volta.
    .
    Uma questão: A intelectualidade é mais importante do que a sabedoria? Para muitos, acredito que sim... E por aí vai...
    .
    "Mataram" Deus, o Cristo e todos os outros. A única deusa a ser reverenciada é a mãe Ciência, que TUDO revela e explica.
    Valeu!
    Augusto Ferreira

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    Respostas
    1. O que é intelecto, e o que é sabedoria?
      Da mesma forma que se pode ter fé numa ilusão, pode-se ter fé no Ateísmo, já que este se for considerado uma idéia, também é uma ilusão.
      Agora, fé na ciência, só quando ainda é uma teoria, porque quando resulta um teorema, a fé é irrelevante.

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    2. Meu caro, ao meu ver, o intelecto está no campo da capacidade de transformar informações acessíveis, quer pelo que lemos, vemos, ouvímos ou sentimos, em alguma coisa útil, prática e com capacidade de ser utilizada, de resolver problemas. Esta vinculada a vida cotidiana, mas também a situações não previsíveis. Sabedoria é quando conseguimos decriptar o mundo, as coisas, as ocasiões, situações a nossa volta, e decidimos o que é melhor a fazer ou deixar de fazer. A sabedoria estaria num campo do intelecto cuja racionalidade ou senso comum muitas vezes passam longe. É o olhar e compreender ao invés de olhar e interpretar. Sobre a interpretação, ela utiliza como "material" os fatos, casos e acontecimentos, quer seja na vida pessoal do observador ou de outrem, e requer a utilização de parâmetros conhecidos, além da capacidade de análise, associação e resposta/julgamento do indivíduo que passa pela experiência ou a observa. O indivíduo, se intelectualizado, é capaz de maravilhas nos campos das ciências exatas, bem como as ligadas às áreas científicas. No entanto, àquelas relacionadas ao comportamento humano, às relações entre humanos e humanos e meio-ambiente, há que se ter algo a mais. Há que se compreender o que é a vida, não de maneira científica (análise biológica), mas sim por meio da percepção da grandeza que é essa experiência e oportunidade tão remota e incrível. Essa percepção se daria de forma não necessariamente lógica ou racional, mas, certamente, com uma "certa" racionalidade.
      Obs: repeti porque pareceu que a resposta não foi para voçê.
      Valeu!
      Abraço.
      Augusto Ferreira

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  2. Meu caro, ao meu ver, o intelecto está no campo da capacidade de transformar informações acessíveis, quer pelo que lemos, vemos, ouvímos ou sentimos, em alguma coisa útil, prática e com capacidade de ser utilizada, de resolver problemas. Esta vinculada a vida cotidiana, mas também a situações não previsíveis. Sabedoria é quando conseguimos decriptar o mundo, as coisas, as ocasiões, situações a nossa volta, e decidimos o que é melhor a fazer ou deixar de fazer. A sabedoria estaria num campo do intelecto cuja racionalidade ou senso comum muitas vezes passam longe. É o olhar e compreender ao invés de olhar e interpretar. Sobre a interpretação, ela utiliza como "material" os fatos, casos e acontecimentos, quer seja na vida pessoal do observador ou de outrem, e requer a utilização de parâmetros conhecidos, além da capacidade de análise, associação e resposta/julgamento do indivíduo que passa pela experiência ou a observa. O indivíduo, se intelectualizado, é capaz de maravilhas nos campos das ciências exatas, bem como as ligadas às áreas científicas. No entanto, àquelas relacionadas ao comportamento humano, às relações entre humanos e humanos e meio-ambiente, há que se ter algo a mais. Há que se compreender o que é a vida, não de maneira científica (análise biológica), mas sim por meio da percepção da grandeza que é essa experiência e oportunidade tão remota e incrível. Essa percepção se daria de forma não necessariamente lógica ou racional, mas, certamente, com uma "certa" racionalidade.
    Valeu!
    Abraço.
    Augusto Ferreira

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