sábado, 19 de março de 2011

Premonição

Nada como uma manchete espetacular para alavancar a venda de revistas e jornais. No meio jornalístico, todos sabem disso e muitos usam e abusam dessa prática. Nesse caminho, a manchete da vez foi o enfático e categórico “premonição existe”, que li nas bancas esta semana.

Sabia que mais cedo ou mais tarde nossa imprensa iria repercutir um recente estudo realizado nos Estados Unidos que testava a capacidade de um grupo de estudantes em “prever o futuro”.

Os experimentos consistiram em solicitar a 1.100 estudantes que respondessem antecipadamente em qual parte da tela de um computador iria aparecer determinada imagem, ou pressentir se a próxima imagem teria teor erótico ou não.O índice de acerto em alguns experimentos foi de 53%, algo superior ao que seria esperado se o acerto fosse obra do acaso.

O estudo tinha sido muito bem analisado pelo ótimo jornalista Hélio Schwartsman em seu blog no jornal Folha de S.Paulo.

Suspeitei ingenuamente que a revista IstoÉ iria pelo mesmo caminho, mas o que eu li foi o costumeiro mal uso da ciência para vender alguma coisa, neste caso, exemplares.

A revista de fato comenta o artigo, mas sequer cita a avalanche de críticas que ele recebeu mesmo antes de ser publicado devido a sérios problemas metodológicos. Tampouco cita que a própria revista científica que publicará o artigo critica os autores pela forma como analisaram seus dados, fundamentalmente o tratamento estatístico (e, como veremos, a “premonição” está mais relacionada com a matemática que com o mundo sobrenatural). Nada disso. O trabalho científico serviu apenas como gancho para os já mais que conhecidos depoimentos de indivíduos que tiveram premonições, muitas das quais durante sonhos.

Particularmente, acho importante que estudos como esse sejam publicados em revistas científicas sérias. Isso permite que os experimentos possam ser repetidos de forma independente. Até agora, três tentativas de conseguir resultados semelhantes fracassaram.

Mas vamos ao principal. Podemos prever o futuro quando sonhamos? Todas as evidências científicas indicam que não. Claro que a ciência não pode provar que não podemos, mas pode explicar porque pessoas honestas acreditam ter previsto em sonhos eventos catastróficos pouco antes de eles acontecerem.

Como dissemos acima, a explicação pode estar mais perto da matemática que da neurociência. Assim, tomo emprestado um artigo dos especialistas sobre o assunto do jornal inglês The Guardian.

Vamos imaginar que seu José, de 75 anos, sonhou com o terremoto do Japão na noite que antecedeu o desastre. Provavelmente não sonhou com o Japão e sim apenas com um terremoto ou catástrofe parecida, mas ao acordar e ouvir a notícia seu cérebro já criou a ponte com o Japão e agora ele honestamente acredita que sonhou com o Japão. Mas isso é coisa de neurocientista, agora não importa. Qual a chance matemática dessa “premonição” ser obra do acaso?

Bom, primeiro temos que contar quantos sonhos teve José desde, digamos, seus 15 anos. São 60 anos, o que dá 21.900 noites de sonhos (365 x 60). Vamos assumir que terremotos como este último aconteçam uma vez em cada geração, assim a chance de José sonhar com o terremoto bem na noite anterior é de 1 para 21.900. Impressionante!! Isto não poderia ser coincidência então!

Mas agora vem o truque. No dia 10 de março, véspera do terremoto, o Brasil tinha aproximadamente duzentos milhões de habitantes, dos quais, digamos, 150.000.000 sonhando regularmente. Se a chance de José prever o terremoto é de 1:21.900, a quantidade de “Josés” que podem ter tido esse sonho numa população de 150.000.000 é de quase 6.850!!! Agora sim vemos que alguém ter sonhado com o terremoto é um evento bem provável e nada misterioso.

Isto, é claro, não tem nada de neurociência. É apenas uma lei da estatística chamada lei dos grandes números, que prevê que um acontecimento muito raro se torna provável quando damos muitas chances que ele aconteça. Por exemplo, a probabilidade de nosso José ganhar a mega-sena é ínfima, mas a chance de “alguém” ganhar a mega-sena é bem maior, já que são muitos os que apostam.

O exemplo sobre o terremoto pode ser aplicado a qualquer outra “premonição”, previsão ou coisa parecida.

Sei que minha explicação -facilmente comprovável- é bem menos charmosa que a possibilidade -impossível de ser comprovada- de uma mente indo e voltando do futuro. A vontade de acreditar nesta última hipótese é muito grande, por isso a revista deve ter vendido muito. Mas como diria o grande Carl Sagan, cada vez que confundimos desejos com fatos escorregamos para a pseudociência e a superstição.

Fontes: Feeling the Future: Experimental Evidence for Anomalous Retroactive Influences on Cognition and Affect; Bem, DJ, Journal of Personality and Social Psychology, 100, 407-425, 2011. Can dreams predict the future? Richard Wiseman; The Guardian;Tuesday 22 February 2011

5 comentários:

  1. Professor, o senhor poderia comentar sobre isso, por favor? É sobre o GRANDE Carl Sagan.
    Michael Persinger, o mesmo cientista citado por Carl Sagan em “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, validou a paranormalidade de dois psíquicos, Ingo Swann e Sean Harribance.
    a) The Neuropsychiatry of Paranormal Experiences. Journal of Neuropsychiatry & Clinical Neurosciences 13:515-524, November 2001 Michael A. Persinger , disponível em http://neuro.psychiatryonline.org/article.aspx?articleid=101550
    b) Persinger MA, Roll WG, Tiller SG, Koren SA, Cook CM. Remote viewing with the artist Ingo Swann: neuropsychological profile, electroencephalographic correlates, magnetic resonance imaging (MRI), and possible mechanisms. Percept Mot Skills. 2002 Jun; 94(3 Pt 1):927-49.
    c) Persinger M., The Harribance effect as pervasive out‐of‐body experience NeuroQuantology. December 2010, Vol 8, Issue 4, pages 444‐465
    O próprio Carl Sagan disse no mesmo livro:
    “No momento em que escrevo, acho que três alegações no campo da percepção extra-sensorial (ESP) merecem estudo sério: (1) que os seres humanos conseguem (mal) influir nos geradores de números aleatórios em computadores usando apenas o pensamento; (2) que as pessoas sob privação sensorial branda conseguem receber pensamentos ou imagens que foram nelas “projetados”; e (3) que as crianças pequenas às vezes relatam detalhes de uma vida anterior que se revelam precisos ao serem verificados, e que não poderiam ser conhecidos exceto pela reencarnação. Não apresento essas afirmações por achar provável que sejam válidas (não acho), mas como exemplos de afirmações que poderiam ser verdade. Elas têm, pelo menos, um fundamento experimental, embora ainda dúbio. Claro, eu posso estar errado.”
    Frase - A certeza da dúvida é que me parece ser a mais certa e honesta posição, quando nos aprofundamos sobre certos assuntos. - Eu -
    Obrigado.
    Augusto Ferreira

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    1. No mesmo livro, o grande Carl afirma: "Alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias.". Até agora elas não apareceram. Nenhum evento paranormal foi comprovado sob condições laboratoriais que pudessem ser validadas de forma independente. É quem propõe a existência do sobrenatural quem deve fornecer as provas. Eu não posso sair por aí inventando experimentos para provar que vacas não podem levitar. Isso cabe a quem afirmar que vacas levitam. Eu só posso dizer (como o Carl) que acho que essas afirmações não são válidas.
      Abç.

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    2. Professor, a parapsicologia tem sido estudada em diversas lugares. Da Europa aos Estados Unidos. Será que esse caras são uns "bocós" perdendo tempo ou estão querendo desvendar algo novo, inusitado e grandioso, desacreditado por muitos da comunidade científica?
      Segue link: http://hypescience.com/o-que-aconteceu-com-a-parapsicologia-academica/
      Valeu!
      Augusto Ferreira

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    3. A minha resposta é a mesma do Shermer, que consta no mesmo link que vc cita: “A parapsicologia está por aí há mais de um século. [Mesmo assim] não há protocolos de pesquisas que gerem hipóteses úteis para que outros laboratórios testem e desenvolvam um modelo, e eventualmente um paradigma que se torne um campo”. Não é preconceito, é conceito.

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    4. Professor, percebo que o paradigma materialista e reducionista dentro da comunidade científica atual é uma barreira para que pesquisas deste tipo possam avançar! Financiamento para assuntos ligados a genoma, TE, neurociência, nanobiologia e outras áreas correlatas, é bem mais fácil do que para assuntos transcendentais. No campo da física, existem trilhões de teorias e dinheiro corre solto! Mas, no que toca a espiritualidade/paranormalidade, há, sim, cara feia, preconceito e pouca grana.
      Existem diversos casos que apresentaram INDÍCIOS considerados fortes para os mais crentes e fracos para os mais descrentes, contudo, eles continuam lá. Casos como premonição, efeitos sobre matéria, telepatia, sensitividade e outros mais.
      Sei que aqui no Brasil tem um pessoal que estuda este tipo de coisa, mas se lá fora já é difícil, imagino aqui. Os tupiniquins que estão na esteira do conhecimento, exceto em um ou outro campo que estamos bem.
      O engraçado, professor, é dar a TE um ar de FATO CIENTÍFICO, visto que BOA parte dela partiu de inferências as quais não podem ser testadas em laboratório em condições controladas. Ou se são testadas, seus resultados são fortemente validados pela comunidade científica, mesmo havendo muita controvérsia!
      É... repito:
      Frase - A certeza da dúvida é que me parece ser a mais certa e honesta posição, quando nos aprofundamos sobre certos assuntos. - Eu -
      Obs: Continuo lendo, questionando e tirando minhas próprias conclusões, visto que informação e, por conseguinte, conhecimento, são bens públicos, livres para todos.
      Que bom que existe a INTERNET!
      Viva a ciência, não necessariamente, os cientistas!
      Nada contra o senhor, é claro! Hehehe!
      Valeu!
      Augusto Ferreira

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