terça-feira, 3 de maio de 2011

Nas raízes da maldade

"Empatia: processo de identificação em que o indivíduo se coloca no lugar do outro e, com base em suas próprias suposições ou impressões, tenta compreender o comportamento do outro". (Dicionário Houaiss)

Na década de 1980, o grupo liderado pelo cientista italiano Giacomo Rizzolati estudava uma região do cérebro de macacos responsável pela realização de movimentos complexos como os necessários para pegar um objeto, onde uma grande quantidade de músculos deve ser contraída de forma sincronizada.

Para isso, registravam mediante o uso de eletrodos a atividade elétrica de neurônios de uma zona denominada córtex pré-motor. Conhecer a atividade e localização desses neurônios era passo fundamental na tentativa de entender como o cérebro controla nossos movimentos e dessa forma pensar na possibilidade dessa região comandar, por exemplo, membros artificiais.

Assim, cada vez que o animal era solicitado a segurar uma fruta, os neurônios que davam a ordem aos músculos aumentavam sua atividade elétrica e podiam ser identificados e mapeados. Surpreendentemente os pesquisadores observaram que alguns desses neurônios não apenas “disparavam” ao realizar o movimento, mas também ao ver o experimentador segurar a fruta.

Era a descoberta, quase que acidental, dos neurônios espelho, uma das mais importantes dos últimos 20 anos (curiosamente, o artigo foi enviado à prestigiosa revista Nature quem o rejeitou por “falta de interesse geral”).

Mas o que representa de fato essa descoberta? O que os cientistas perceberam é que alguns neurônios teriam a capacidade de desencadear reações tanto ao executar uma ação -situação esperada- ou apenas observando outro indivíduo executando-a.

Quando vemos alguém triste, por exemplo, os mesmos neurônios responsáveis por esta observação podem estimular os circuitos associados com a tristeza, e sem que nada “triste” tenha nos acontecido passamos a sentir parte da tristeza que o outro sente. Ao mesmo tempo, permitem antecipar o que alguém vai sentir caso tomemos determinada atitude que o atinja.

O fascinante da descoberta é que com ela percebemos que existe um sistema cerebral que nos possibilita sentir o que outra pessoa experimenta emocionalmente ao atravessar determinada situação. Enfim, permitem que nos coloquemos no lugar do outro.

A descoberta dos neurônios espelho e dos circuitos a eles associados possibilitou formular novas hipóteses para responder coisas simples, como por que o bocejo parece ser algo contagioso, e coisas mais complexas, como por que nos envergonhamos ao ver alguém cometer uma gafe, ou por que sentimos tanta tristeza ao presenciar a dor de um pai desconhecido que perdeu seu filho.

As implicações da existência desse sistema empático são enormes e é difícil entender por qual motivo até agora não nos empenhamos como grupo em incentivar seu funcionamento, da mesma forma que o fazemos com a leitura, a linguagem, a memória e outras capacidades cerebrais.

Atualmente, pesquisadores do comportamento humano relacionam o nível de “maldade” de um indivíduo a deficiências ou subdesenvolvimento -por falta de treino- desse sistema neural de empatia. Fazer o mal estaria em parte relacionado com a dificuldade de antecipar e tornar nosso o sofrimento da vítima da nossa “maldade”. O mal que podemos infringir pelo não uso de nossa capacidade empática é muito variável. Desde pequenas crueldades que frequentemente somos capazes de praticar, passando pelo bullying, e chegando aos extremos de sadismo que se observa em assassinos seriais.

Neste sentido, estudos de imagem cerebral indicam que alguns psicopatas e outros pacientes com desordens de personalidade exibem alterações nos sistemas neurais associados com a empatia, como corpo amigdaloide, córtex cingulado anterior e estriado ventral. Esses pacientes apresentam uma impossibilidade patológica de sentir empatia e a capacidade de recuperar esse sentimento parece ser pequena. Mas no restante da população, desenvolver maiores níveis de empatia poderia ser conseguido mediante a educação que damos às crianças, da mesma forma que as educamos -e nos educamos- em tantos outros aspectos.

Como menciona Simon Baron-Cohen, diretor do Centro de Pesquisas sobre Autismo da Universidade de Cambridge, milhões de anos de evolução proporcionaram um sistema cerebral que permite a todos antecipar e resolver problemas interpessoais, conflitos internacionais, dificuldades com uma amizade, disputas familiares e problemas com os vizinhos.

Ao contrário da indústria de armas, que consome trilhões de dólares, ou dos sistemas de justiça e prisional, que precisam de milhões para se manter funcionando -sistemas geralmente utilizados para resolver esses problemas-, a empatia é de graça. E ao contrário da religião, empatia, por definição, não oprime ninguém.

Fonte: Zero Degrees of Empathy: a New Theory of Human Cruelty. Simon Baron-Cohen; Ed. Allen Lane, 2011.

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