sábado, 14 de maio de 2011

O gene egoísta no dia das mães

Imagem: Biblioteca de Imagens da Natureza Recursos / Rex
O que leva o antílope a enfrentar um bando de leoas famintas? Por que tenta proteger os outros e não foge para salvar sua vida? Como explicar esse comportamento altruísta?

Estas questões intrigaram os biólogos por décadas. Simplesmente essa atitude não se encaixava na ideia da evolução darwiniana. Ao enfrentar os felinos as chances de morrer são bem maiores que as de sobreviver. Morrendo, o antílope não consegue repassar seus genes, objetivo fundamental de um organismo de acordo com a visão darwiniana. Por outra parte, caso existisse um gene para o altruísmo que levasse a essa atitude este acabaria também desaparecendo já que o animal é devorado. Se assim estivesse acontecendo não teriam sobrado animais altruístas e veríamos hoje apenas machos fujões, o que não é o caso.

Para tentar responder essa questão, o biólogo inglês Richard Dawkins (estrela da última FLIP) lançou na década de 1970 a teoria do gene egoísta. Para Dawkins –a ideia central foi inspirada na obra do biólogo George Williams- o conceito de evolução não deveria estar baseado no grupo nem no organismo, mas no gene, o segmento do cromossomo que contém a informação básica para produzir uma proteína, controlar uma caraterística física (como a cor dos olhos) ou mesmo ser parcialmente responsável por um comportamento.

O gene é uma estrutura replicadora. Um dos seus objetivos principais é criar cópias de si mesmo para que a informação que carrega se espalhe no maior número possível de indivíduos. Nossos corpos seriam apenas máquinas (que eles constroem) que tornam possível que as cópias sobrevivam e se espalhem.

No contexto da evolução baseada no gene proposta por Dawkins a própria definição de gene muda, não sendo mais uma simples partícula de DNA, mas todas as réplicas de um bit particular de DNA distribuídas através do planeta.

A ideia de evolução baseada no gene permitiu uma explicação coerente não apenas para entender o altruísmo do antílope que enfrenta o leão, mas também a tendência dos animais de criar estratégias que facilitem a reprodução e sobrevivência de animais aparentados (seleção de parentesco). Pela óptica dos genes, vale a pena sacrificar o organismo do antílope para assegurar que os descendentes deste (em maior número e mais jovens, carregando assim um maior número de cópias replicáveis do gene) sobrevivam. Da mesma forma, permitiria explicar a percepção que temos de que vale mais a pena se sacrificar por um irmão que por um primo (o irmão carrega 50% de nossos genes, o primo de primeiro grau apenas 12,5%).

A capacidade de sacrifício que pais e mães demonstram com sua prole, a ponto de dar a própria vida por ela, não passaria de uma consequência natural da pressão de nossa herança genética. Uma estratégia que os genes utilizam para assegurar maiores possibilidades de replicação. Nada que justifique tanta comemoração no segundo domingo de maio, ou no segundo de agosto.

Como toda teoria científica, a do gene egoísta tem também seus críticos. O próprio termo “egoísta” foi mal interpretado. Dawkins confessa que “gene imortal” teria sido mais apropriado. Genes não são egoístas nem generosos. Apenas são programados para replicar e competir. Eles competem até no interior das próprias células para que seja a informação que eles carregam a que apareça como caraterística do indivíduo (conflito intragenômico, como no caso da cor dos olhos).


Por outro lado, a ideia que nossos genes são egoístas poderia justificar atitudes humanas egoístas e intolerantes. Nada disso é correto. Como o próprio Dawkins afirma, conhecer a natureza de nossa carga evolutiva não justifica atitudes antissociais. Ao contrário das outras espécies, nossas ações e comportamentos são dominadas pelo extraordinário cérebro que possuímos. Somos a única espécie que conseguiu entender e criar argumentos morais para combater a falta de moral evolutiva.

Cada vez que fazemos sexo utilizando métodos contraceptivos estamos deliberadamente contrariando as ordens de nossos genes. Fazemos isso por que nosso cérebro permite avaliar os prós e contras de cada atitude e decidir qual a mais adequada para nós e para o grupo. Não há motivo para não fazer isso sempre.

Genes podem criar tendências comportamentais, mas nos humanos essas tendências podem e devem ser dominadas quando se tornam moralmente inaceitáveis.

Fonte: O gene egoísta; Dawkins, R. Companhia das Letras, 2007.



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