sexta-feira, 24 de junho de 2011

Turismo científico é opção para Araçatuba

Foto: Tim Brooke
Quem como eu já mora nesta cidade há um bom tempo, deve estar familiarizado com as infrutíferas tentativas de transformar Araçatuba numa Estância Turística. Não tenho certeza, mas é bem provável que todas as administrações municipais que se sucederam nos últimos 25 anos tenham tentado conseguir esse status. Como sabemos, sem nenhum sucesso. 

Não é de fato fácil reconhecer em Araçatuba as características necessárias que a transformem em pólo de atração turística. Quem inicia sua visita desde nossa rodoviária não deve ter uma impressão positiva. E descobrir que esse mesmo prédio mal cuidado é a sede do governo municipal não ajuda muito.

Desde o ponto de vista urbanístico, não se observa um planejamento definido, nem um desejo real –salvo poucas e honrosas exceções nascidas fundamentalmente de iniciativas individuais - de criar espaços públicos que embelezem a cidade. Aqui, como na maioria das cidades do Brasil, priorizamos os espaços particulares - casas, condomínios, ranchos - em detrimento do espaço público, que em vez de ser de todos, parece ser de ninguém. Mas turistas visitam cidades, e não fazendas ou clubes particulares.

Em termos de belezas naturais, décadas de uma economia baseada na produção extensiva de gado seguido agora pela monocultura de cana de açúcar, transformaram nossa paisagem natural nisso que vemos no longo trecho da Rodovia Marechal Rondon, já desde Bauru. Um enorme oceano de pastagens e cana, com quase nada de mata nativa. Já a parte que nos toca do Rio Tietê é de difícil acesso e parece não representar atrativo diferencial suficiente para trazer turistas.

É difícil enxergar uma solução a curto prazo para resolver esses problemas. Transformar a cidade mediante um plano urbanístico que priorize os espaços públicos, embora necessário, pode levar décadas e recursos que não existem, além de uma mudança de mentalidade. Recuperar o meio ambiente já tão degradado é também uma medida necessária, mas na pouco crível hipótese que venha a ser implementada os resultados começariam a aparecer apenas em décadas.


Nesse contexto, a opção de turismo científico faz um enorme sentido. Algumas cidades do mundo fazem desse tipo de turismo temático um forte chamariz. Já mencionamos aqui o caso de Valencia, na Espanha (800.000 habitantes). A partir das últimas décadas do século 20 via sua economia decair e o número de habitantes diminuir. Entre as opções para reverter essa situação, as autoridades valencianas construíram a “Ciudad de las Artes y de las Ciencias”, um belíssimo conjunto arquitetônico onde, como o nome indica, o visitante passeia entre exposições científicas e artísticas de todos os tipos.

Ciudad de las Artes y de las Ciencias, em Valencia, Espanha,
projeto arquitetônico de  Santiago Calatrava e Félix Candela


Até 2003 (o complexo foi inaugurado em 1998) já tinham sido investidos 400 milhões de dólares. Mas o retorno foi extraordinário. Em quatro anos, só o museu de ciência tinha recebido sete milhões de visitantes! Além disso, a cidade capitalizara 500 milhões de dólares em investimentos desde que o centro fora projetado. Foram construídos mais de 30 hotéis, cinco mil apartamentos e um shopping center. Com isso, foram gerados em torno de 16 mil empregos diretos, além dos benefícios indiretos.

Todos esses números são de tirar o fôlego, e não temos a utópica pretensão de imaginar em Araçatuba algo dessa magnitude. Mas ilustra como esse tipo de projeto pode conciliar educação, cultura, turismo e dinamismo econômico. E não é exclusividade dos países ricos. Existem experiências semelhantes em México, Colômbia ou Uruguai, países com realidades sócio-econômicas semelhantes às nossas, e vários no Brasil. Em Porto Alegre, por exemplo, uma das principais atrações turísticas é o Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica. Em São Paulo, o Espaço Catavento faz parte de um roteiro de turismo científico que inclui planetários, aquários e centros ligados à USP, como a Estação Ciência. Brotas, aqui pertinho, também investe em um turismo semelhante, através do projeto CEU.

Aspecto interno do Museu de Ciências e Tecnologia da
Pontifícia Universidade Católica em Porto Alegre, RS 


Anos atrás pensamos em uma solução semelhante para nossa cidade, em parceria com a UNESP. O projeto arquitetônico, encomendado a um dos principais arquitetos museológicos de São Paulo, pode ser visto neste blog , junto com os outros centros citados neste artigo. 


Um espaço como esse - parceria entre a UNESP, o poder público e a iniciativa privada- poderia dar a nosso município o atrativo diferencial para torná-lo pólo turístico regional, com o concomitante incentivo à atividade econômica. Além de um espaço difusor da cultura da ciência, peça fundamental para a construção das “Sociedades do Conhecimento”, poderia ser o local adequado para que a indústria da região exibisse seu compromisso com a ciência, a tecnologia e a inovação .

Aspecto externo do Museu Interativo de Ciências de Araçatuba,
 projeto arquitetônico idealizado pelo arquiteto paulistano
 Vasco Caldeira. O display multimídia externo exibe
 futuras exposições e os patrocinadores do Museu.



Aspecto externo do Museu Interativo de Ciências de Araçatuba,
 projeto arquitetônico do arquiteto Vasco Caldeira


Aspecto interno dos espaços expositivos do
Museu Interativo de Ciências de Araçatuba  (arquiteto Vasco Caldeira)










Planta do projeto para o Museu Interativo de Ciência de Araçatuba..
O espaço, de 1.200 metros quadrados abriga áreas expositivas,
 planetário, café e loja entre outros.



Planilha de custo (estimativo).

Enfim, trata-se de um projeto moderno, exequível e inovador, que em cinco anos seria capaz de estar já funcionando e transformando nossa realidade. Uma proposta concreta de educação e desenvolvimento científico e tecnológico. Um passo certo em direção ao progresso aliando educação, inovação e sustentabilidade. 

Como aconteceu 100 anos atrás, o trem da história pode passar por aqui. Resta esperar que encontremos os novos “Fundadores”.

sábado, 18 de junho de 2011

Mulheres têm mesmo obsessão pelo tamanho do pênis?

Priapo, deus grego da fertilidade,
 pesando seu pênis em ouro,
num afresco da Casa dei Vettii, em Pompeia.

Em tempos tão politicamente corretos como os atuais fazer esta pergunta pode parecer uma heresia, mas como nossas características físicas -e mesmo cognitivas- foram influenciadas pelos politicamente incorretos critérios da evolução darwiniana, a pergunta faz muito sentido, haja vista a quantidade de vezes que este assunto aparece na mídia virtual e escrita.

Para entender a complicada história do nosso pênis e tentar responder a pergunta inicial, devemos recuar 15 a 20 milhões de anos, quando surgiram os primeiros primatas da família Hominidae, que originaram os atuais gorilas, chimpanzés, orangotangos, bonobos e nossa própria espécie. As características que nos diferenciam são o resultado desses milhões de anos de evolução, onde não apenas a seleção natural mas também a seleção sexual foram nos fazendo de jeito que somos. O pênis, claro, não fugiu a este processo.

Se compararmos o pênis entre essas espécies de grandes primatas, observaremos algo curioso. O pênis do gorila é o menor de todos, atingindo em média três centímetros quando ereto, mesmo sendo o gorila o maior de todos os símios com seus mais de 200 quilogramas. Já o dos chimpanzés e bonobos atinge aproximadamente oito centímetros e o do homem 14 centímetros em ereção máxima, em média. Assim, o pênis humano é o maior em comprimento e largura entre os grandes primatas, tanto em termos absolutos como em termos relativos. 


Apesar da sua imponência, o pênis do gorila
 é o menor entre os grandes primatas.

Mas existem outras diferenças além do tamanho. Tanto gorilas quanto chimpanzés e bonobos têm um osso no interior do pênis (denominado báculo) de forma que a ereção é basicamente uma simples ação muscular. No homem, o báculo não existe e o mecanismo de ereção é bem mais complicado, dependendo de uma complexa interação psicológica, neurológica, vascular e endócrina que leva ao acúmulo de sangue e assim à turgidez e aumento de tamanho peniano (se tivéssemos báculo, provavelmente não existiria disfunção erétil nem Viagra!!).

Como isto ocorreu? Por que essas diferenças? Pelo que as pesquisas têm apontado, a resposta parece indicar que esta evolução foi direcionada pela escolha da fêmea, nos casos, claro, em que ela pôde escolher.

Entre os gorilas, por exemplo, as fêmeas têm pouquíssima escolha. O macho dominante, com seus músculos e caninos avantajados, expulsa os outros machos de forma que as fêmeas só podem copular com ele. Não há opção para elas nesse sistema de harém. 

Já no matriarcal e pacífico grupo dos bonobos, as fêmeas dão as cartas. Sabiamente, quando o nível de agressividade começa a aumentar, elas incentivam práticas sexuais homo e heterossexuais de forma que a paz volta rapidamente. Pelo que conhecemos, entre nossos ancestrais Homo tivemos um sistema matriarcal semelhante, de forma que as fêmeas tiveram a opção de escolher o macho. Considerando que entre os Homo erectus (este erectus não tem nada a ver como o pênis) e sapiens primitivos que nos precederam a prática das preliminares provavelmente não estava estabelecida, apresentar um belo falo poderia ser um atrativo importante para a fêmea em termos do prazer que ele poderia proporcionar. Alguns autores afirmam que o bipedalismo total observado apenas no homem, pode em parte estar relacionado com a possibilidade de exibir melhor seu pênis. 

Já em relação ao tamanho dos testículos, são os bonobos os que os têm proporcionalmente maiores e, mais uma vez, os gorilas os menores, estando os humanos numa posição intermediária. Os biólogos acreditam, pelas evidências disponíveis, que grupos de animais onde uma fêmea copula com vários machos –como nos bonobos- a competição entre machos não ocorre dentro do grupo, e sim dentro da vagina. Produzir muitos espermatozóides e ejaculações volumosas pode ser uma vantagem competitiva na hora de fecundar o único óvulo. No caso dos gorilas o sêmen do líder não compete com outros, assim testículos grandes e ejaculações volumosas seriam um gasto de energia desnecessário. Já com os bonobos –e outros mamíferos- ocorre o contrário.


Bonobo relaxando.

Cada vez fica mais claro para os especialistas que a seleção sexual, geralmente baseada na escolha da fêmea, foi bem mais importante do que o próprio Darwin pensara. A psicologia evolutiva, uma fantástica e apaixonante área do conhecimento, começa a nos mostrar que este tipo de seleção não apenas moldou nossos aspectos físicos como nossa sofisticada capacidade intelectual.

Em relação à pergunta inicial, provavelmente nem todas as mulheres têm obsessão pelo tamanho do pênis, e parece óbvio que na cultura atual o tamanho do pênis não é fator fundamental na escolha do parceiro. Todos sabemos que outros fatores jogam papel mais destacado. Mesmo assim as mulheres não podem deixar de pensar nisso já que esse assunto está profundamente arraigado em sua história evolutiva. A cultura pode ter dado uma suavizada, mas o apelo inicial ainda está lá no cérebro.


Onde ler mais:

-Jahme C., Penis size: An evolutionary perspective; The Guardian (Science), 07/05/2010.
-Dixson, A. (2003) Sexual selection by cryptic female choice and the evolution of primate sexuality. Evolutionary Anthropology; 11 (S1): 195-199.
-de Waal, F. B. M., (1995) Bonobo sex and society, the behavior of a close relative challenges assumptions about male supremacy in human evolution. Scientific American, March 1995, 82-88

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Experiências fora do corpo

As chamadas “experiências fora do corpo” (EFCs) vêm intrigando a humanidade há séculos. EFCs podem ser definidas como experiências subjetivas nas quais uma pessoa aparentemente consciente vê seu corpo e o ambiente desde uma posição afastada do seu corpo físico, como se estivesse flutuando. Uma experiência semelhante é a autoscopia, onde sem “sair” do nosso corpo, vemos uma projeção dele separada do corpo real. Essas experiências costumam ser descritas por indivíduos atravessando situações traumáticas como acidentes de carro ou durante cirurgias, mas foram também relatadas durante acidentes vasculares cerebrais, epilepsia, uso de drogas, paralisia do sono, entre outras.

Desde o ponto de vista místico/religioso a explicação é simples. Nosso espírito, uma entidade independente do corpo físico, nessas ocasiões simplesmente se separa, ou desencarna parcialmente, ou ocorre uma “projeção astral”, etc.

Já para a ciência, que não tem nenhuma evidência que justifique a existência de espírito, alma, ou consciência independente do cérebro, as EFCs são uma ótima oportunidade para fazer perguntas e entender um pouco mais sobre o funcionamento cerebral. Além do mais, EFCs podem fazer parte de doenças neurológicas e psiquiátricas, o que torna uma necessidade entender por que o cérebro cria esses estados.

Recentemente, pesquisadores europeus conseguiram o que parecia ser coisa de ficção científica, reproduzir EFCs em laboratório.

No início, isto ocorreu quase acidentalmente quando um grupo de neurocirurgiões tentava localizar focos epilépticos no cérebro de uma das pacientes. Para isto, estimulavam eletricamente áreas específicas do córtex cerebral. Estimulando uma região chamada giro angular
, um dos pesquisadores observou que sua paciente movia a cabeça para a direita. Intrigado, perguntou por que fazia isso e ela respondeu que tinha a estranha impressão que outra pessoa estava deitada embaixo dela. Essa pessoa não se mexia, nem falava, parecia ser um jovem que queria lhe impedir alguma coisa. Mudando a posição da paciente (agora sentada segurando seus joelhos) e estimulando novamente o giro angular, esta sentia a presença desagradável dessa imagem também sentada atrás dela, segurando-a. Quando tentou ler uma carta, a sombria figura tentava arrebatá-la das suas mãos, “Ele não quer que eu leia”, explicava a paciente ao médico.


Pelo fato da presença imitar a postura e posição da paciente, o pesquisador concluiu que o estímulo elétrico artificial se somava ao estímulo vindo dos olhos, articulações, etc., formando duas imagens do corpo, uma criada pela estimulação normal dos nossos sentidos no giro angular, e outra criada pela estimulação artificial na mesma região cerebral. Mas por algum motivo, a jovem não conseguia perceber que essa segunda imagem era um dublê do seu próprio corpo.


Já outra paciente ao ser estimulada na mesma região cerebral comentou alarmada “Estou no teto. Estou olhando minhas pernas penduradas lá embaixo. Que está acontecendo?”. A cada novo estímulo, a jovem começava a flutuar.

Os cientistas perceberam então que estavam estimulando uma área cerebral responsável pela formação de nossa imagem corporal. Para formá-la, essa região recebe informações sobre nosso corpo que chegam a partir dos órgãos dos sentidos. A imagem que vêem nossos olhos, a informação que vem do toque das nossas mãos, do cheiro, informações sobre nossa posição e movimentos captadas por músculos e articulações. Tudo de forma sincronizada. Quando tudo funciona bem temos a imagem normal do nosso corpo. Mas quando nosso cérebro recebe informações desencontradas, como no caso da estimulação elétrica artificial, se confunde.


Em lilás, o giro angular, uma das regiões do cérebro
 responsáveis pela formação da imagem do nosso corpo.



Em virtude desses resultados, os pesquisadores começam a acreditar que os relatos de EFCs obedeçam à estimulação anômala nesta área cerebral (giro angular). Isto poderia ocorrer devido a traumatismos e hemorragias (como decorrência de acidentes de carro), sob a ação de drogas que afetem o cérebro (anestésicos, entorpecentes, etc.), ao despertar (quando nosso cérebro recomeça a atividade), etc.

Como conseqüência destes novos descobrimentos os pesquisadores, mediante técnicas de realidade virtual, estão conseguindo agora projetar o “eu” de voluntários sadios em imagens virtuais dos seus próprios corpos. As implicações destes experimentos são inimagináveis. É possível que em breve possamos entrar realmente em personagens virtuais, como as que “vivem” no jogo Second Life. Sentir em nosso corpo real o que acontece a esses personagens no computador. Mas também, pelo mesmo princípio, um cirurgião poderá se projetar em sua imagem virtual localizada em outro hospital, em outro continente.

Assim, e bem ante do que se pensava, a neurociência começa a dar passos desconcertantes em direção a um dos grandes mistérios da humanidade: nossa consciência.

Fonte: 
Arzy, S., Seeck, M., Ortigue, S., Spinelli, L., Blanke, O., 2006. Induction of an illusory shadow person: Stimulation of a site on the brain's left hemisphere prompts the creepy feeling that somebody is close byNature, 443(21), pp.287.

sábado, 11 de junho de 2011

Sinal amarelo

Coma carne com moderação!
Fotografia: joefoxfoodanddrink/Alamy
Nesta última quinzena não pararam de acender os sinais amarelos. Perigo por todos os lados. O primeiro veio através da Organização Mundial da Saúde (OMS) e seu aviso sobre a possibilidade de telefones celulares provocarem tumores no cérebro. O segundo foi dado pelo Fundo Mundial para Pesquisa sobre o Câncer (World Cancer Research Fund , WCRF), uma das organizações internacionais mais importantes na área de prevenção do câncer, anunciando a forte correlação entre o consumo de carne vermelha e o surgimento de câncer de intestino. Finalmente, até as bactérias Escherichia coli, geralmente tão bem comportadas em nosso intestino, começaram a matar gente na Europa.

Mas, apesar de tantos alarmes, nada de novo. Parafraseando García Márquez, boa parte das notícias é quase que a “Crônica de uma morte anunciada”. Anunciada inclusive nesta coluna.

Sobre os telefones celulares, na edição de 16/08/2008 (Usar telefone celular aumenta risco de câncer?) já alertávamos:

“... Mas o fato que disparou o alarme foi um anúncio feito em julho deste ano pelo Diretor do Instituto do Câncer da Universidade de Pittsburgh (um dos mais importantes dos Estados Unidos), Dr. Ronald Herberman. O cientista, através de um comunicado interno enviado aos mais de 3000 funcionários do instituto, recomendou que a utilização de telefones celulares deveria ser reduzida em virtude do risco de câncer. Em seu informe o Dr. Herberman admite que as evidências ainda são insuficientes, mas afirma estar convencido que já existe a necessária informação que autorizaria emitir esse tipo de aviso. ...“ 


Não há muita diferença entre esse anúncio e o feito agora. A própria OMS ainda não publicou o estudo que lhe permitiria fazer esta comunicação, apenas um press release. Telefone celular aumenta o risco de câncer no cérebro? Não sabíamos em 2008 e não sabemos agora. Mas não custa tomar alguns cuidados, entre os quais evitar a utilização de telefone celular em lugares públicos -como ônibus- para não expor seus "vizinhos" à radiação que você provoca; não manter o celular perto do seu corpo durante a noite; restringir as chamada ao mínimo possível; tentar não utilizar o celular onde o sinal seja fraco ou quando estejamos nos movimentando em grande velocidade -como no carro, ônibus, trem- já que para encontrar sinal, o telefone usa mais (e emite mais) energia; usar alternadamente o telefone ora na orelha esquerda, ora na direita, para não concentrar a energia emitida em apenas uma parte do cérebro.

Sobre o perigo das bactérias, em fevereiro de 2009 comentávamos sobre o surto epidêmico da bactéria Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA, o perigo nos espera no mar, 21/02/2009). Agora parece ser uma cepa mutante de Escherichia coli, muito agressiva e resistente aos antibióticos a responsável pelo estrago. Por trás desses ataques bacterianos, geralmente encontramos nossa imprudência e irresponsabilidade, como já alertávamos em 2009:

“... Cada vez que utilizamos mal um antibiótico, seja por que ele não era necessário (doenças virais, como gripe e dengue, por exemplo, não respondem aos antibióticos), ou por que paramos de usá-lo antes da hora, ou por que o ingerimos sem saber nos alimentos como carne, leite, etc., estamos através de processos da seleção natural darwiniana selecionando, para nossa desgraça, as bactérias mais aptas...” 


Neste caso tivemos uma pequena mudança. A atual legislação sobre antibióticos é mais restritiva e estes agora só podem ser vendidos com receita médica. Mas suspeito que na indústria agropecuária continuamos a utilizar antibióticos sem o devido controle.

No terceiro sinal, em um relatório de mais de 850 páginas analisando 263 trabalhos científicos publicados até hoje sobre o assunto, cientistas do WCRF concluíram que existem evidências convincentes que indicam que o consumo de carnes vermelhas (boi, porco, cordeiro, carneiro) e carne processada como bacon, salsichas, linguiças, presunto, carne seca, e carnes usadas em enlatados, pizzas congeladas e em recheio de massas congeladas, está associado ao aumento de risco de contrair câncer de intestino.

Segundo um dos responsáveis pelo relatório, o professor Alan Jackson da Universidade de Southampton (Reino Unido), trata-se do estudo mais amplo e atualizado sobre o assunto já publicado. De acordo com o relatório, carne processada deveria ser simplesmente evitada e o consumo de carne vermelha reduzido a no máximo 500 g por semana.

Tantos perigos podem nos deixar bastante atordoados. A percepção é que são tantas as coisas que nos ameaçam que praticamente não podemos fazer nada que nos dê prazer. Mas não é bem assim. É necessário sempre analisar essas informações com bom senso. Há riscos que podemos evitar, outros não. A poluição do ar e o cigarro são cancerígenos. Para os paulistanos é impossível não aspirar o ar poluído da cidade, mas é possível parar de fumar. Para alguns, deixar de usar o telefone celular é algo hoje em dia bem difícil, mas impedir que as crianças estejam todo o dia com o celular na orelha é possível.

O importante é que estejamos sempre bem informados. O que fazer com essa informação dependerá em última instância da nossa responsabilidade e bom senso.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Paralisia do sono: curtindo uma noite de terror

O Pesadelo, obra do pintor alemão Henry Fuseli (1741-1825)
 retrata a Paralisia do Sono como uma visita demoníaca. 
Será que estou sonhando? Vejo e sinto meu corpo paralisado. Tento mover a cabeça em vão. Acelero a respiração para ver se consigo sair deste estado entre sonho e realidade, mas não adianta. Até a respiração fica difícil. Pela porta entreaberta uma sombra se aproxima. É algo grande, escuro..., um urso...? O medo aumenta... Tenho que acordar rápido... Se eu pudesse pelo menos mexer a cabeça, as mãos... A sombra está agora sobre mim, sinto seu peso sufocante sobre meu peito. Encaro aterrorizado seus olhos e apenas vejo uma massa gelatinosa e disforme. Meu braços começam a formigar. Finalmente mexo a cabeça e começo a tomar consciência do meu corpo. Tento empurrar o urso mas ele já desapareceu. Agora percebo através da porta entreaberta não uma sombra, e sim minha malha de moletom jogada no chão.

O relato acima é real, e relatos semelhantes, embora possam parecer bizarros, são bem mais comuns do que a gente pensa. Aproximadamente 40% da população já passou por uma experiência “fora do normal” durante seus sonhos, e 5% tiveram experiências semelhantes à descrita acima, incluindo a forte sensação de presença de alguma figura sobrenatural, dificuldade de respirar devido a uma pressão sobre o peito, medo intenso e alucinações.

A ciência tem estudado esses estados associados com os sonhos desde a década de 1950, a partir dos estudos pioneiros de William Dement e Nathaniel Kleitman. Hoje temos uma teoria testável cientificamente para explicar estes e outros fenômenos como o sonambulismo, os “sonhos lúcidos”, e outras curiosidades.

Durante o sono normal, nosso cérebro e nosso corpo passam por cinco fases. Podemos medir a atividade elétrica de cada fase usando equipamentos especiais. A fase inicial, de sonolência, se caracteriza pela existência de ondas alfa. Depois, já dormindo, atravessamos três fases onde as ondas cerebrais ficam cada vez mais lentas e longas. Nestas fases, é possível experimentar alguns sonhos, mas não são muito complexos. Finalmente, chegamos à fase do sono mais profundo denominado sono REM (de rapid eye movement ou movimentos oculares rápidos) onde acontecem os sonhos mais “cinematográficos”. Curiosamente, nesta fase as ondas cerebrais voltam a se assemelhar às que temos quando estamos acordados, motivo pelo qual também foi denominado sono paradoxal. Como o nome indica, nesta fase nossos olhos mexem rapidamente, já o resto de nossos músculos fica paralisado (exceto o diafragma que mantêm a respiração).

O ciclo completo dura uns 90 a 100 minutos e vai se repetindo durante a noite, com uma diminuição dos ciclos de sono de ondas lentas e um aumento das fases de sono REM.

Entretanto, nem sempre as coisas funcionam bem. Por vezes, os sistemas cerebrais que desconectam os músculos de nosso corpo durante o sono REM falham. Quando isso acontece, fazemos os movimentos relacionados com os sonhos que estamos tendo. Em casos extremos, vivenciamos a tal ponto nossos sonhos que levantamos e passamos a agir de acordo com eles. Provavelmente é o que acontece durante o sonambulismo, onde por precaução é necessário às vezes amarrar o paciente à cama para evitar acidentes.

Durante a paralisia do sono acontece o contrário. Quem falha são os sistemas cerebrais que desconectam o estado de vigília e nos levam à inconsciência característica do sono. Isto pode ocorrer em dois momentos, quando começamos a dormir e a atonia muscular acontece antes de “cair no sono” (alucinação hipnogógica), ou quando estamos acordando e a consciência volta quando nosso corpo ainda está em atonia REM (alucinação hipnopômpica).

 Ficamos assim num estado de semi-inconsciência. Nossos olhos entreabertos capturam imagens que, quando chegam ao cérebro, se confundem com imagens que o cérebro inventa (a malha de moletom que se transforma no urso no relato acima). Ficamos conscientes da nossa total paralisia muscular o que causa medo e ansiedade. Dos vários músculos que participam da respiração quando estamos acordados, só o diafragma está funcionando 100%, com o que sentimos dificuldade respiratória. Durante esses episódios, uma parte do cérebro denominada corpo amigdaloide, responsável pela sensação de medo, é mais ativada o que aumenta a sensação de terror.

Claro que uma situação tão bizarra como esta paralisia do sono tem ao longo do tempo originado várias explicações místicas e paranormais. Algumas religiões associam esses eventos à “separação” do espírito do corpo. De fato, resulta fascinante estudar como a paralisia do sono foi compreendida pelas diversas culturas ao longo da nossa história. Durante a Idade Média na Europa, acreditava-se na visita de bruxas e demônios eróticos. Mesmo hoje, algumas sociedades interpretam estas experiências em termos sobrenaturais, adaptando-as ao seu próprio folclore. Os nativos da ilha canadense Newfoundland acreditam no “Old Hag” (literalmente, velha bruxa), que durante o sono senta em nosso peito (daí a dificuldade em respirar) e envia pesadelos. Os japoneses citam o kanashibari, onde uma entidade espiritual nos amarra com arames. Em Islândia, a paralisia do sono é denominada “Mara”, uma espécie de demônio que ao igual que a Old Hag senta no peito e tenta sufocar a vítima. Em tempos mais recentes, a paralisia do sono foi também associada a abduções por seres extraterrestres. 

Alguns fatores parecem nos predispor a ter esse tipo de distúrbio do sono, como dormir em posição supina (de barriga para cima), estresse, álcool, alterações bruscas em nosso ritmo de vida... Felizmente esses episódios, algo mais comuns na juventude, costumam diminuir de intensidade com o tempo, mas em uma pequena parcela da população sua incidência continua alta e a paralisia do sono se transforma em doença com um intenso sofrimento para quem a padece, casos em que o tratamento por uma equipe de especialistas se faz necessário.



Onde ler mais
 Cheyne, J. A. Sleep paralysis and the structure of waking-nightmare hallucinations. Dreaming, 2003, 13: 163–179.
Terror in the night, Julia Santomauro and Christopher C. French, The Psychologist, 22:672-675, 2009 (link para o artigo aqui: http://www.thepsychologist.org.uk/archive/archive_home.cfm?volumeID=22&editionID=178&ArticleID=1545)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O dia em que Elliot deixou de sentir

Uma das mais influentes e provocativas teorias que tenta explicar como nosso cérebro toma decisões – a teoria do marcador somático- foi proposta nos anos 90 pelo neurocientista português Antônio Damásio. Já falamos sobre ela nesta coluna. Dizer que é o cérebro quem tomas as decisões já é em si uma provocação. Se é essa massa gelatinosa quem decide, onde está nosso livre arbítrio? De fato, para a enorme maioria dos neurocientistas que estudam cognição e comportamento, o livre arbítrio é mais uma invenção de nosso cérebro. Mas essa é outra história. 


Damásio ficara fascinado com o caso de Phineas Gage, aquele trabalhador das estradas de ferro dos Estados Unidos que em 1848 teve seu crânio atravessado por uma barra metálica de um metro e meio de comprimento e sobreviveu para contar a história. Os relatos sobre a vida de Phineas posteriores ao acidente mostram que embora ele parecesse uma pessoa normal sua capacidade de tomar a decisão correta em cada situação tinha sido destruída junto com seus lobos frontais
Mas de Phineas só tinha sobrado o crânio e embora fosse possível reconstruir o trajeto da barra, Damásio não poderia ter certeza quanto do cérebro o acidente havia destruído. E aí entra Elliot e sua peculiar história. 


Elliot era um jovem com seus trinta e poucos anos. Bem sucedido profissionalmente, inteligente, e de fácil relacionamento. Já na sua lua de mel começara a sentir fortes dores de cabeça. Como estas aumentaram decidiu consultar o médico e os exames confirmaram a existência de um meningeoma, um tumor benigno que se forma nas membranas que envolvem o cérebro. O tumor crescera já do tamanho de uma pequena laranja e embora benigno comprimia a parte do cérebro que fica sobre as órbitas. Aquela mesma região que tinha sido destruída pela barra de ferro em Phineas Gage. Caso não operasse, a compressão do cérebro acabaria provocando a morte.

A cirurgia para remoção do tumor foi bem sucedida, mas boa parte do córtex cerebral próximo ao tumor foi danificada. Testes realizados após a cirurgia não revelaram nenhum problema com Elliot. Inteligência acima da média, ótima memória, linguagem fluente. Mas a partir da cirurgia sua vida se transformou em um verdadeiro caos. Antes extremamente prático na hora de lidar com seu trabalho, agora ficava horas concentrado em detalhes irrelevantes. Decisões simples como marcar um encontro com um cliente terminavam com a desistência deste último ante tantos prós e contras que Elliot encontrava para cada possibilidade de horário e local. Escolher entre uma caneta azul ou vermelha podia demandar horas nas quais as diversas possibilidades de usar azul ou vermelho eram pormenorizadamente analisadas. Decidir tinha se tornado uma missão quase impossível. 



Em vermelho, córtex pré-frontal ventromedial, região que participa no processo de tomada de decisão, danificada  após a cirurgia em Elliot.


Não é de estranhar que em pouco tempo, apesar da sua inteligência, Elliot perdera o emprego. Contrariando a opinião de todos seus amigos e familiares entrou em negócios de altíssimo risco, com péssimos resultados. Abandonado pela esposa casou e divorciou mais duas vezes. Mas o golpe final veio quando a Previdência Social se negou renovar seu auxílio invalidez. Não parecia haver de fato nada de “inválido” em Elliot, tudo pelo contrário.

Foi nesse momento que Damásio foi chamado. 
Embora os testes realizados até esse momento não tivessem indicado nenhuma anormalidade, Damásio notou ao entrevistar Elliot que este reagia aos seus problemas como se fossem de uma pessoa à qual ele não dava a menor importância. “Eu não enxerguei sequer um toque de emoção em várias horas de conversa com ele: nenhuma tristeza, nenhuma impaciência, nenhuma frustração com minhas perguntas incessantes e repetitivas.” 

Resposta de pacientes com lesão no córtex pré-frontal. O gráfico mostra alterações na condutância elétrica da pele, que se altera quando experimentamos emoções. Observar que em indivíduos normais (linha contínua) há picos cada vez que eles observam imagens fortes como a do indivíduo ferido (E) e a resposta diminui ao ver imagens neutras (N) como a paisagem da figura. Já em pacientes com lesão no córtex pré-frontal (linha tracejada), a resposta não se altera, indicando falta de resposta emocional (Gazzaniga e cols., 2002).
Ao ser confrontado com imagens perturbadoras como corpos mutilados, tabus sexuais, imagens de violência explícita - o que em pessoas normais provoca alterações físicas de origem emocional como mudança da freqüência cardíaca e respiratória e aumento da transpiração- Elliot permanecia sem evidenciar alteração nenhuma. “Elliot não deixava de perceber sua falta de emoção. Ele dizia ter consciência que as fotos eram perturbadoras e que, antes da cirurgia, teria uma resposta emocional, mas agora não tinha nenhuma.” 

Para Damásio ficava claro que a lesão no cérebro tinha danificado o centro que fornece o valor emocional do mundo que nos rodeia. É essa informação emocional que ao longo de nossa vida vai “grudando” às decisões boas e ruins que tomamos. Quando estamos para decidir entre diversas opções e uma dessas decisões já tomadas –e marcadas- reaparece, sua “marca” emocional nos leva a afastá-la ou encorajá-la, muitas vezes de forma não consciente. Assim, a decisão mais “racional” e correta só é possível quando razão e emoção trabalham juntas. A razão é guiada pela avaliação emocional da consequência de um ato. 

Para Damásio, a dualidade cartesiana mente/corpo, razão/emoção desaparece. A mente é o resultado do funcionamento cerebral. É uma adaptação evolutiva que surge para melhorar nossas chances em satisfazer necessidades físicas e psicológicas. 


O “Penso, logo existo” de Descartes parece estar dando lugar ao “Existo, logo penso” da moderna neurociência.


Onde ler mais:
Neurociência Cognitiva, Gazzaniga e cols., 2002, Editora Artmed
O Erro de Descartes, Antônio Damásio, Companhia das Letras, 1996.

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