quarta-feira, 20 de julho de 2011

Animais e pesquisa científica

Em 2007, por causa de uma trapalhada do então prefeito Cesar Maia, institutos científicos de Rio de Janeiro estiveram a ponto de paralisar seus experimentos utilizando animais de laboratório, jogando virtualmente no lixo todos os esforços que vinham sendo realizados para descobrir vacinas para a dengue, a aids, a malária, a leishmaniose e mais uma série de pesquisas que visavam o controle de várias doenças. Aparentemente, o prefeito assinara, sem ler, um projeto de lei que sob o nobre pretexto de proteger os animais incluía dispositivos que inviabilizavam a pesquisa científica. Avisado, voltou atrás e o erro foi corrigido. Meses depois, a Câmara Municipal de Florianópolis simplesmente proibiu a realização de pesquisas científicas utilizando animais.

Essa tendência proibicionista que praticamente tornava inviável a realização de pesquisas científicas no Brasil, foi contornada pela recente aprovação da “Lei Arouca” – em homenagem ao sanitarista e cientista Sergio Arouca - que regulamenta a experimentação com animais no Brasil.

A onda contra o uso de animais em laboratórios é muito forte, alimentada em muitos casos pelo mais puro e louvável desejo de proteger animais indefesos, mas construída com meias verdades, ignorância e em alguns casos má fé. Grupos antivivissecção têm conseguido passar a imagem do cientista como um sujeito insensível à dor dos animais que utiliza. Nada mais errôneo e mentiroso. Das atividades humanas que utilizam animais (alimentação, vestiário, trabalho, diversão, etc.) nenhuma têm tantos códigos de ética quanto a boa ciência. Nenhuma tem critérios tão rigorosos que visem que os animais sejam utilizados com sensibilidade e dignidade.

Grupos contrários ao uso de animais em pesquisas científicas geralmente utilizam alguns mitos para justificar seus pontos de vista. Vamos comentar apenas três dos mais citados.

1- O uso de animais em laboratórios poderia ser substituído por experimentos em tubos de ensaio (in vitro) ou utilizando softwares.
Errado. Experimentos in vitro utilizando cultura de células, já são usados rotineiramente pela ciência. Têm muito valor, mas não dão todas as respostas necessárias. O comportamento de células isoladas em um tubo de ensaio pode ser - e geralmente é - diferente que o das mesmas células funcionando em um organismo. Aqui as células sofrem a influência de bilhões de outras e das substâncias químicas que o organismo produz, além dos efeitos do meio ambiente. Uma célula do fígado, por exemplo, pode ter reações opostas ante uma droga dependendo se está isolada em um tubo de ensaio ou vivendo em seu lugar habitual, o fígado. Sobre os softwares, eles já vêm sendo utilizados em aula ou em algumas experiências biológicas simples. Mas estamos muito longe de criar um programa de computador capaz de reproduzir satisfatoriamente o comportamento de nosso organismo.

2- Animais de laboratório e seres humanos são muito diferentes. Muitas vezes uma doença humana não existe em animais. Assim, as drogas testadas podem ter efeitos diferentes.
Este é um argumento muito fraco. Melhor ilustrar com um exemplo. Imaginemos estar desenvolvendo uma droga contra a hepatite c. Assim, injetamos o vírus em um animal de laboratório para provocar a doença, e depois testamos a droga. Podemos descobrir então que o animal, ao contrário do humano, não desenvolve a doença. Isto quer dizer que não devemos pesquisar mais em animais? Não seria interessante averiguar por que esse animal consegue ser imune ao vírus? Qual a proteína que produz para inativá-lo? Será que podemos produzir essa mesma proteína em laboratório e depois injetar em humanos (ou outros animais) com hepatite c para curá-los? Como vemos, a diferença entre espécies pode ser tão útil para a ciência e para nossa saúde quanto sua semelhança!

3- Não é ético sacrificar animais para proteger nossa saúde ou a dos nossos filhos. Os testes deveriam ser feitos em humanos. A ciência não pode responder questões éticas. Isto cabe aos indivíduos e às sociedades. O que a ciência pode dizer é que se não é ético sacrificar animais para proteger nossa saúde também não é ético sacrificá-los para comer. Também não seria ético matar os ratos que entram em nosso quintal ou cozinha, já que o fazemos também por uma questão de saúde. O mesmo se aplica aos insetos, pragas da agricultura, etc. Sobre a experimentação em humanos, merece um artigo à parte. Mas podemos adiantar que ela já é feita. E em larga escala. Somos as cobaias finais de todos os testes clínicos de drogas, terapias, cirurgias experimentais, etc. Uma vacina só é liberada se foi testada em centenas ou até milhares de seres humanos. Mas voltaremos a este assunto da experimentação humana outro dia.

Para finalizar, a pergunta que a sociedade deve responder não é se a utilização de animais é necessária para a pesquisa científica. Sobre esta questão não há dúvidas. Os animais ainda são insubstituíveis em muitos experimentos, seja no campo da hipertensão arterial, do câncer, das patologias cerebrais (como as doenças de Parkinson e Alzheimer, retardamento mental), doenças parasitárias e infecciosas, na descoberta de novas vacinas ( hepatite, dengue, meningite, aids, malária, doença de Chagas, leishmaniose, etc.), na descoberta de novos medicamentos, antibióticos, antivirais, remédios para o controle da dor e da asma, para o tratamento de úlceras, da ansiedade e distúrbios do sono, antiinflamatórios e analgésicos, sedativos, antidepressivos, diuréticos, hormônios anticoncepcionais, quimioterápicos, antidiabéticos (insulina) e não sei quantas coisas mais.

A pergunta correta é, devemos utilizar animais para evitar o sofrimento e a morte de humanos (e outros animais)? Como pai que viu seu filho acidentado sobreviver, aliviar a dor, e ficar sem seqüelas graças aos enormes avanços da ciência e da medicina, a minha resposta é sim. Seria uma enorme hipocrisia da minha parte dizer o contrário.



Atuatlização

Este artigo foi originalmente publicado em novembro de 2007 na Coluna Ciência do jornal Folha da Região, e reproduzido posteriormente (com ou sem a autorização do autor) em alguns espaços na internet. De lá para cá, com a aprovação da Lei Arouca, as instituições que usam ou criam animais para fins científicos devem organizar suas Comissões de Ética no Uso de Animais (Ceua), formadas por pesquisadores e integrantes da sociedade de proteção aos animais, que têm como função examinar se os experimentos estão de acordo com a lei. 

Por outra parte, o CONCEA (Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal) exige que a Instituição ofereça curso de boas práticas para a utilização de animais aos estudantes que vão utilizar animais em aulas ou pesquisas. De acordo com Marcelo Morales, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho e coordenador do CONCEA, não oferecer este curso é inconcebível. Em suas próprias palavras “Que ninguém toque em animais sem ter estudado boas práticas com animais. Este é o respeito que nos devemos ter”.

7 comentários:

  1. Bons contra-argumentos, mas só a ideia.

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  2. Muito bom este artigo!! Argumentos bons o suficiente para provar que é obvio que animais ainda são a melhor opção para se fazer experimentos em laboratórios em prol do avanço da ciência e, consequentemente, da saúde da humanidade.

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  3. eu acho isso um absurdo, poís os animais não tem culpa para sofrerem absurdos por nós...
    Animais são que nem seres humanos você deichariam fazer isso com seu filho por exemplo?

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    1. Se o seu filho estiver sofrendo com uma doença incurável e surgir uma nova droga que possa ser a cura, garanto, não tem pai que negue! Mesmo sabendo que não há garantias totais de cura.

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  4. O que poderia ser feito é substituir animais de grande porte pelo de pequeno porte, um grande exemplo é o peixe "zebra" que pode muito bem simular todas as condições de um cachorro por exemplo. Outra opção que está sendo muito questionada ultimamente são os ratos.

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