sábado, 9 de julho de 2011

Ela fala demais?

Quando temos a oportunidade de observar um grupo de primatas não humanos em seu habitat natural, seja ao vivo ou pela TV, não é difícil encontrar o macho líder descansando isolado, e a uma prudente distância fêmeas e filhotes em franca atividade. A ideia que a imagem passa é que os machos, ao contrário das fêmeas, não são lá muito sociáveis. E a ideia está correta.

Estudiosos da evolução dos grandes símios – gorilas, chimpanzés, orangotangos, bonobos e humanos - afirmam que dois padrões seletivos agiram distintamente sobre machos e fêmeas dos nossos ancestrais Hominidae nos últimos 15 milhões de anos.

Por um lado, a seleção sexual –direcionada pela fêmea- moldou boa parte do comportamento e anatomia dos machos, incluindo aqui as redes cerebrais. Entre não primatas, a espetacular –e pouco útil- cauda do pavão é o exemplo mais óbvio dessa seleção guiada pela fêmea, mas a necessidade do homem se destacar e ser engraçadinho faz parte da mesma competição intra-sexo que objetiva conquistar a parceira e garantir assim sua descendência.


Pavo cristatus (pavão real) e sua exuberante cauda,
produto da seleção sexual.


Dessa forma a evolução forçou o macho a ser competitivo o que redundou, por exemplo, em massa muscular e caninos avantajados e um domínio maior sobre seu corpo e seus movimentos. Isso o tornou um lutador mais eficaz, porém não favoreceu aspectos relacionados com a sociabilidade.

Por outro lado as fêmeas passaram por um processo onde a seleção social foi predominante. Este tipo de pressão seletiva é justificado pela necessidade delas compartilharem informações relacionadas com a localização de recursos naturais, presença de predadores, contato com os filhotes, etc. Nesse contexto, fêmeas mais comunicativas e cooperativas seriam capazes de garantir a sobrevivência dos seus descendentes de uma forma mais eficiente que fêmeas menos comunicativas e cooperativas.

O que os pesquisadores estão agora observando é que essas diferentes forças seletivas produziram efeitos mensuráveis na anatomia cerebral de machos e fêmeas. Estruturas cerebrais relacionadas com a agressividade, controle motor, controle da massa muscular e das funções autonômicas parecem ser comparativamente maiores em machos, enquanto que estruturas relacionadas com habilidades cognitivas que favoreçam a comunicação e a sociabilidade parecem estar mais desenvolvidas nas fêmeas.


Seleção sexual explica a agressividade e o desenvolvimento
 físico deste
Theropithecus gelada (Babuíno gelada)
 Crédito da imagem
frankfocus.com


A esta altura é bem provável que a pergunta do título deste artigo - que poderia muito bem ser “por que os homens não gostam de conversar?”- comece a encontrar uma resposta. Não que seja a única, claro, nem talvez a mais importante, mas forte o suficiente para explicar algumas das nossas tendências mais arraigadas.

Com esta bagagem evolutiva diferenciada que carregamos e compartilhamos com os demais símios é natural que surjam alguns conflitos, e com alguns agravantes. Ao contrário do gorila alfa que pode se dar ao luxo de copular e depois ficar na dele sem nenhuma obrigação de socializar -e também ao contrário das gorilas que podem abandonar seu mal-humorado parceiro e se dedicar a afazeres mais agradáveis- em nossa cultura estabelecemos um relacionamento monogâmico que obriga macho e fêmea ao convívio constante. O conflito está então desenhado.

Da mesma forma que observamos em nossos primos primatas, quando reunidas, as fêmeas da nossa espécie sentem um prazer recíproco em conversar profusamente, pular entre os mais variados assuntos, detalhar eventos diários, mesmo que corriqueiros. A circuitaria cerebral estabelecida ao longo de milhões de anos de evolução ativa os sistemas de recompensa durante essas atividades, que resultam assim prazerosas. Mas quando essa loquacidade toda é dirigida ao macho, com seus circuitos neuronais não muito bem dotados para a socialização, a coisa complica. Após alguns anos de convívio, ele pode sentir mais prazer na companhia de colegas do mesmo sexo e até almeja em sua parceira características comportamentais masculinas. Claro que a recíproca é verdadeira. A possibilidade de reencontrar suas amigas e “pôr a conversa em dia” acaba sendo mais prazerosa que compartilhar o mesmo espaço com um homem não muito interessado em prolongar conversas e entender suas necessidades biológicas de comunicação.

A compreensão da nossa carga evolutiva e do peso que ela representa em nossas ações e atitudes pode nos dar uma perspectiva mais compreensiva sobre nossas limitações e impulsos, e fundamentalmente sobre as de nossa(o) parceira(o). Pode também permitir que nos policiemos de forma a escapar das suas armadilhas e efeitos mais nocivos (mesmo por que, nossa sociedade é bem mais complexa que a dos outros primatas).

Se isso vai ser suficiente para criar uma relação duradoura é outra história. Não existe nenhuma garantia que a invenção do “até que a morte nos separe” tenha sido uma boa invenção.



Fontes: 

1. Lindenfors et al (2007) Primate brain architecture and selection in relation to sex. BMC Biology; 5: 20.
2. Dunbar, R I M (2007) Male and female brain evolution is subject to contrasting selection pressures in primates. BMC Biology; 5: 21.
3. Jahme, C. My boyfriend thinks I talk too much. The Guardian, 26 Jul 2010.





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