sexta-feira, 19 de agosto de 2011

E o macaco disse “Não!”

Cesar, protagonista do filme Rise of the Planet of the Apes
No final de agosto teremos a chance de assistir o novo filme da série “O Planeta dos Macacos”. Quem é um pouco mais velho deve lembrar o primeiro da série, estrelado por Charlton Heston, sucesso enorme e um clássico no gênero de ficção científica. Nesta última sequência, "Planeta dos macacos - O início", a trama se desenvolve nos dias atuais. Will, o protagonista humano, é um cientista que experimenta com sucesso uma droga capaz de combater o mal de Alzheimer. A droga é testada em chimpanzés, mas o problema é que estes acabam atingindo níveis de inteligência humana e aí a coisa começa a complicar.

Como filme, é bastante divertido, embora os efeitos especiais não cheguem a ser tão convincentes assim. A carga de fantasia é grande, mas não compromete o resultado final, mesmo porque sendo um filme de ficção científica esses exageros são sempre toleráveis e esperados.

Separar o que é ficção do que é ciência está ficando cada dia mais difícil. Bons escritores de ficção científica utilizam informações que vêm da ciência e boas doses de imaginação fazendo assim uma projeção no futuro. Por vezes, como no caso de Isaac Asimov, Julio Verne e outros, algumas das previsões acabam se tornando realidade.

Agora, o eixo do filme gira ao redor da possibilidade de, mediante manipulação laboratorial, animais (macacos) passarem a ter características cognitivas que reconhecemos como humanas. Entre elas, a linguagem, uma capacidade que Cesar –o macaco protagonista- adquire em determinado momento do filme.

Mas cientificamente falando, estamos muito longe disso? Aparentemente nem tanto quanto eu imaginava até uns dias atrás.

No final de julho deste ano, a Academia Britânica de Ciências Médicas (The Academy of Medicas Sciences, AMS) lançou um relatório recomendando a criação de um comitê para analisar os aspectos éticos de pesquisas científicas envolvendo a introdução de material humano (genes ou células) em animais. Esses procedimentos já são rotineiramente utilizados pela ciência com objetivos muito bem delimitados.

Só para citar alguns exemplos:

-Genes humanos relacionados com várias alterações como síndrome de Down, osteoporose, doenças do coração e câncer, vêm sendo implantados no DNA de camundongos, criando assim animais experimentais que exibem alguns traços dessas alterações, o que permite desenvolver abordagens de cura.

-Genes humanos responsáveis pela produção de um elemento fundamental na coagulação sanguínea (fator IX) são incorporados no DNA de cabras que assim passam a produzir essa proteína em grandes quantidades no leite, de onde ela é posteriormente extraída, purificada e oferecida a pacientes que dela necessitam.

-Células tumorais humanas são introduzidas em camundongos para estudar como os tumores se desenvolvem e espalham.

-Células-tronco humanas são implantadas no cérebro de ratos para estudar a capacidade de reparação cerebral após um acidente vascular cerebral, traumatismo, etc.

Essas pesquisas não têm restrições, mas segundo a AMS determinados experimentos deveriam ser rigorosamente analisados ou mesmo proibidos.

Nesta lista entrariam:

a) Experimentos que venham a criar em animais, mediante manipulação genética, características percebidas apenas como humanas, como forma da face ou membros, textura da pele, entre outras.

b) Fertilização de óvulos animais por esperma humano, e vice-versa.

c) Modificação da estrutura cerebral animal de forma que venha a permitir funções cognitivas humanas, incluindo a linguagem e a fala.

Se alguém notou uma semelhança entre esta última possibilidade e o enredo do filme "Planeta dos macacos - O início", não terá sido uma coincidência. Uma coisa é implantar células-tronco humanas em cérebros de camundongos. Mas nos Estados Unidos ainda é permitida a experimentação invasiva em grandes primatas, como os chimpanzés. Eventualmente, para pesquisar a cura de algumas das doenças degenerativas do cérebro (mais coincidências?), algum grupo de pesquisadores poderia tentar implantar células-tronco humanas no córtex cerebral de chimpanzés. Teoricamente, existiria a possibilidade que essas células criassem redes neurais semelhantes às que em humanos são responsáveis pelo pensamento abstrato, linguagem, planejamento...

Seis milhões de anos atrás, a partir de um ancestral comum, chimpanzés e humanos seguiram linhagens evolutivas diferentes. Mesmo assim, compartilhamos aproximadamente 99,4% de nossos genes. Os 0,6% que nos diferenciam parecem corresponder a estruturas de DNA responsáveis pelo desenvolvimento da região do cérebro que mais nos torna humanos, o córtex cerebral
. Na prática, isso representa a enorme diferença nas capacidades mentais que diferenciam as duas espécies. Teme-se que células-tronco humanas implantadas no córtex cerebral desses símios permitam que eles pulem a distância que evolutivamente nos separa.
Quem sabe ainda estamos longe disso. A AMS deve ter suas razões para dar o aviso.

Se o aviso vai surtir efeito, eu duvido.





Para entender mais sobre as diferenças no DNA que nos separam dos chimpanzés, assistam esse ótimo documentário. Recomendo assistir os oito capítulos desta série da BBC, O que Darwin nunca soube (What Darwin didn't know)



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