domingo, 14 de agosto de 2011

Nossa moralidade é uma reação química?

Imaginemos estas três situações:

1- Ana acompanha sua amiga Flora num passeio pelo seu local de trabalho. Finalmente dirigem-se à sala do café, onde Ana se serve de uma xícara. Flora também aceita e pede para colocar duas colheres de açúcar. Ao lado do café há um pote com um pó branco -que é açúcar- mas com um rótulo dizendo VENENO. Ana lê o rótulo e mesmo pensando ser veneno coloca duas colheres na xícara de Flora. Cada uma bebe seu café. Nada acontece com Flora.

Ante esta situação quase todos julgaremos que Ana cometeu uma ação moralmente condenável, mesmo nada tendo acontecido a Flora.

2- Numa segunda situação a única coisa que muda é que Ana sabe que no pote tem açúcar. Coloca duas colheres na xícara de Flora. E, claro, nada acontece com Flora.

Agora quase todos julgaremos que Ana não cometeu nenhum ato moralmente condenável.

3- Nesta última situação, no açucareiro não há rótulo nenhum e o açúcar foi trocado por veneno. Ana pensa que é açúcar e serve o café a Flora e esta, claro, morre.

Neste caso, o julgamento que fazemos de Ana é benevolente. A quantidade de culpa que lhe atribuímos é bem menor que no primeiro caso, mesmo tendo agora Ana matado Flora.

Ao analisar este “experimento moral” nos deparamos com um tipo de estudo que ao longo da história tinha sido abordado apenas por religiosos e filósofos. Pensou-se (e ainda alguns pensam) que julgamentos morais, por serem atividades superiores -hipoteticamente relacionadas com nossa mente, alma ou espírito imaterial- teriam pouco a ver com esse órgão gelatinoso que é o cérebro.

Nas últimas décadas entretanto, a neurociência começou a analisar o que acontece no cérebro das pessoas quando elas estão realizando esse tipo de análise. O desenvolvimento de exames sofisticados como a ressonância magnética funcional, que nos permite ver o cérebro funcionando ao analisar quais áreas estão mais ativas durante determinada tarefa, deu um impulso enorme a este campo do conhecimento.

Um dos mais espetaculares desses estudos foi realizado pelo grupo liderado pela cientista Rebecca Saxe (assista o vídeo anexado no fim desta postagem). Os pesquisadores analisaram quais áreas cerebrais são utilizadas quando fazemos julgamentos morais como no caso descrito no início deste artigo. Os autores observaram que cada vez que os voluntários se detinham a analisar a intenção de Ana (por exemplo), era ativada uma pequena região cerebral localizada um pouco acima da orelha direita, denominada junção temporoparietal.

Após localizar a área, a pergunta do grupo foi se seria possível de alguma forma alterar o funcionamento dessa região para verificar se o julgamento moral é modificado.

Uma forma não invasiva de fazer isso é utilizando um aparelho denominado Estimulador Magnético Transcraniano (TMS em inglês). O aparelho nada mais é que um ímã extremamente poderoso que quando ativado e aplicado sobre a cabeça, bem acima da área que queremos estimular, gera um campo magnético que atravessa o crânio e atinge o cérebro perturbando a atividade dos neurônios.

No caso deste experimento, a junção temporoparietal foi estimulada mediante o uso do TMS imediatamente antes de se realizar o julgamento moral. Os resultados foram surpreendentes. Na situação 2, onde não culpávamos a Ana por nada, a situação não mudou. Na situação 1, onde a culpávamos porque, mesmo nada tendo acontecido a Flora, ela deu o açúcar pensando ser veneno, os voluntários estimulados pelo TMS atribuíram uma culpa bem menor que na situação controle (sem estimulação TMS), e na situação 3, onde Ana mata a Flora acidentalmente a culpa atribuída a Ana foi bem maior que no caso controle.

A estimulação provocou uma alteração na análise da culpabilidade. Quando estimulados pelo TMS os voluntários deram mais atenção ao resultado final da ação (se Flora morria ou não) que à intenção de Ana, já que a capacidade de analisar o que Ana estava pensando foi comprometida.

Os resultados deste experimento permitem confirmar que nosso cérebro é extremamente bem equipado para fazer julgamentos morais. Estes julgamentos são fundamentalmente baseados na possibilidade de analisar a intenção do “ator” e não apenas a ação ou os resultados da ação propriamente dita. Nosso cérebro faz isso avaliando o que os outros estão pensando. Se as redes neuronais funcionarem bem, o julgamento será o mais apropriado, mas se as redes neuronais forem de alguma forma perturbadas, o julgamento que fazemos dos outros pode ser comprometido.

O estudo joga luz em situações clínicas como alguns casos de autismo, onde o indivíduo não consegue interpretar as reais intenções e sentimentos do seu interlocutor.

Num contexto mais amplo, a possibilidade de conceitos aparentemente absolutos como o mal e o bem, certo e errado, terem uma base tão bioquímica a ponto de serem alterados por um ímã, nos leva a pensar que muitos tratados de filosofia -e alguns de psicologia- deveriam ser urgentemente atualizados.




Fonte: Young L. E cols. (2010) Disruption of the right temporoparietal junction with transcranial magnetic stimulation reduces the role of beliefs in moral judgments. Proc Natl Acad Sci USA, doi: 10.1073/pnas.0914826107

13 comentários:

  1. Roelf, se somos somente reacoes quimicas, a palavra "culpado" sumira de nossos dicionarios e processos penais, devendo ser substituida por algo semelhante a "desorganizados neurotransmissoramente", a menos que se possa comprovar que alguem arbitrou em desacordo com a propria capacidade de neurotransmissao. Por outro lado, se a ciencia avancar a ponto de poder "consertar" essas incapacidades de julgamento da dor alheia, do prejuizo ao outro, chegaremos ao mundo idealizado como perfeito.

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  2. Pois é Cecilia, de fato, e discussão está indo por aí. O próprio conceito de culpabilidade está sendo já questionado! A neurofilosofia e a neuroética já estão começando a estudar esses assuntos. Existe até uma discussão se seria ético estudar preventivamente o cérebro das pessoas para determinar a existência de circuitos que predisponham ao crime. Admirável (?) mundo novo!!!

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  3. Nossa é verdade, a despolarização das membranas é feita por íons dotados de carga, e a força magnética atua sobre uma carga alterando sua trajetória original.
    Conceitos de física que nós aprendemos no colegial e não damos a mínima atenção.

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  4. Por isso, Roelf, nunca acreditei no conserto de um ser humano. Para isso sera preciso modifica-lo tanto hormonalmente como neurologicamente. E como alguem nao tem culpa por ter nascido sem um membro, tambem nao tem culpa por ter nascido "malvado". O que nao impede que esse pobre coitado seja danoso para a maioria "saudavel". Nessa nova sociedade tudo sera repensado. Aldous Huxley, com o Admiravel mundo novo, meu livro favorito da adolescencia, acontece hoje pelo mundo. Mas, do seu ponto de estudos adiante, ele ja esta ultrapassado. Abraco.

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  5. Cecília, eu tenho esperanças. Na verdade nosso cérebro evoluiu para sermos animais grupais. Comportamentos que levem à desestruturação do grupo geralmente não são adaptativos. A empatia (http://ciencia.folhadaregiao.com.br/search/label/empatia), por exemplo, é uma aposta evolutiva interessante. Sociopatias são altamente danosas ao grupo, e é natural que este as combata.
    Abç

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  6. Mundo perfeito???!!! E quem irá julgar o que é ou não maldade? O governo será? Toda forma de controle tende a um totalitarismo, afinal os nossos genes são egoístas!

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  7. Um meio termo para a discussão, muito bom o comentário (gosto dos textos desse cara):
    http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/968168-e-os-humanos-direitos.shtml

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  8. Aline, para variar, o texto do Hélio Schwartsman é sempre preciso. Tento nunca perder uma coluna dele.
    Abç

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  9. Professor, se Deus criou o Universo, ele criou também as leis físicas e, consequentemente, biológicas. Portanto, filosoficamente, se a alma "conduz" o corpo biológico, logo ela interage com ele, então considerar que o corpo biológico do ser possa afetar ou de alguma forma interagir com ela não parece ser tão problemático, não é? Na verdade, parece-me bem razoável.

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  10. Anônimo, o grande problema está nas tuas cinco primeiras palavras. A coluna se refere a estudos científicos, e vc coloca algo que não é científico. É como dizer, se Thor ou Zeus ou a fada do dente criaram o universo, então eles criaram também as leis da física e ...

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  11. Professor, sou o Augusto.
    Acredito que este estudo nada acrescentou sobre a questão moral do indivíduo, mas somente de quem vê o ato como moral ou imoral. O julgamento é a posteiori.
    Gostaria de saber sobre o ato em si e não sobre o que os outros pensaram a respeito.
    Primeiro, o que vale é o que Ana pensou a respeito quando se decidiu por A, B ou C. Digo no que concerne ao estudo do SER HUMANO. E, segundo, o ser humano, ao se decidir sobre determinada situação, realiza diversas análises ao mesmo tempo, ou seja, leva em conta o que ele vê como certo e errado, o que isso pode provocar e como as pessoas irão observar o que fez.
    A problemática, para mim, está no começo e não no fim! O que fez Ana decidir-se por A, B ou C?
    Será que existe algo nesse sentido? Sobre o aspecto da decisão e não do julgamento?
    Obrigado!

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  12. Augusto, o que o estudo da Rebeca Saxe mostra é que decisões morais podem ser alteradas interferindo pontualmente em áreas específicas do cérebro. Já sabíamos que estimulando o cérebro eletricamente podíamos produzir movimentos, provocar alucinações, evocar lembranças... Mas agora conseguimos alterar esse tipo de qualidade cognitiva que muitos acreditavam estarem além do corpo físico. Sobre o processo de tomada decisão recomendo o livro de antônio damásio. Eu escrevi um pouco sobre isso aqui http://ciencia.folhadaregiao.com.br/2011/05/o-curioso-caso-de-phineas-gage.html e aqui http://ciencia.folhadaregiao.com.br/2011/06/o-dia-em-que-elliot-deixou-de-sentir.html

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