sábado, 24 de setembro de 2011

A UNESP abre suas portas para a Semana da Ciência

Desde 2004 o Ministério de Ciência e Tecnologia (MC&T) realiza a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT). É um evento extremamente importante onde por sete dias tudo o que se relaciona com ciência, tecnologia, e inovação (CT&I) é exposto para a comunidade. Mas não se trata apenas de uma exposição, e sim de um espaço reservado à cultura científica.

Como consta no próprio site do MC&T “A finalidade principal da SNCT é mobilizar a população, em especial crianças e jovens, em torno de temas e atividades de ciência e tecnologia (C&T), valorizando a criatividade, a atitude científica e a inovação. Pretende mostrar também a importância da C&T para a vida de cada um e para o desenvolvimento do país.”

Ela possibilita, ainda, que a população brasileira conheça e discuta os resultados, a relevância e o impacto das pesquisas científicas e tecnológicas e suas aplicações.

Este ano já estamos na oitava semana. Ela será realizada de 17 a 23 de outubro e terá como tema principal “Mudanças climáticas, desastres naturais e prevenção de riscos”. Claro que embora seja esse o tema principal, todas as formas de divulgação científica sobre os mais diversos assuntos têm lugar na SNCT.

Desde 2004, o número de pessoas, universidades e municípios envolvidos na SNCT tem aumentado ano a ano. Em 2009, último ano onde encontramos dados finais já computados, foram realizadas cerca de 25.000 atividades em quase 500 municípios do Brasil. Desde megalópoles como São Paulo e Rio a cidades pequenas como Salto e Cerquilho aqui no Estado de São Paulo, e ainda menores em estados do Norte e Nordeste, têm se esforçado para transformar essa semana num evento não apenas de educação e conscientização científica, mas também num projeto turístico com o concomitante aumento da atividade econômica.

Infelizmente, como já comentamos em colunas anteriores, nos últimos dois anos fracassamos na tentativa de criar uma parceria entre a UNESP e a Prefeitura Municipal que permitisse que o evento saísse dos muros da universidade e invadisse praças, teatros, escolas, e contagiasse as outras universidades e todas aquelas empresas, indústrias e instituições locais que fazem da ciência e da tecnologia sua ferramenta cotidiana. A prometida contrapartida financeira do poder público municipal acabou não se concretizando, o que em anos anteriores nos levou à decisão de cancelar as atividades previstas para Araçatuba.

Entretanto, mesmo passando pela mesma situação agora, a UNESP decidiu fazer sua parte e abrir as portas para que por dois dias, aproximadamente 2.400 crianças e jovens de Araçatuba e região tenham a oportunidade de vivenciar o fascínio de se sentirem cientistas por um dia.

Entre outras atividades, nossos ilustres visitantes terão oportunidade de mergulhar e entender com olhos de pesquisador por que os ossos fraturam mas podem ser reparados, como as drogas agem no cérebro, o que acontece dentro desses tais de cromossomos e como alterações de DNA podem provocar doenças como a síndrome de Down e a hemofilia.

Tentarão desvendar a relação entre os morcegos e uma doença terrível, a raiva e se debruçarão também sobre a saúde do cão para entender as causas e consequências da Leishmaniose. Verão mediante um teatro de fantoches o que acontece quando perdemos um dente e participarão dos desafios que os cientistas enfrentam no processo de produção de alimentos.

Finalmente, terão a oportunidade de admirar estrelas e planetas de galáxias distantes numa exposição preparada pela CENARA - Centro de Astronomia da Região de Araçatuba.

Ao decidir abrir as portas á comunidade, nossa universidade não apenas cumpre sua obrigação de difundir a cultura da ciência. Nossa esperança é que este esforço motive outros setores da nossa sociedade para que no ano que vem tenhamos uma ampla participação de todos aqueles que lidam com C&T, e contemos com um apoio real e efetivo do Governo Municipal, digno do esforço necessário para oferecer educação científica de qualidade para os jovens munícipes.

É sempre bom lembrar que ciência não é algo que exista apenas nos laboratórios e sim uma ferramenta indispensável que a população tem que utilizar se não quiser ficar para trás no caminho do conhecimento, da inovação e do desenvolvimento sustentável.



Informações sobre o Evento:
Semana de Ciência e Tecnologia de Araçatuba
Data: 18 e 19 de outubro de 2011
Locais: Campus da Faculdade de Odontologia de Araçatuba (UNESP, Rodovia Marechal Rondon), e Faculdade de Medicina Veterinária (UNESP, Rua Clóvis Pestana, 793).
Horários: das 8:00 às 12:00 e das 14:00 às 18:00. Observação astronômica no campus da FOA à partir da 18:00
Público: alunos do ensino fundamental e médio de Araçatuba e região (rede pública e particular). A participação das escolas é feita mediante agendamento pelo e-mail agendamento@semanact.com.br

As vagas são limitadas.
Todas as informações podem ser obtidas no site do evento: http://semanact.com.br/

sábado, 17 de setembro de 2011

Você está errado! (e eu também)


Ilusão óptica criada por Edward H. Adelson, 
Professor de Ciências da Visão do MIT (1995). 
O quadrado A é bem mais escuro que o B, certo?
Errado, os dois são da mesma cor. 
Se não acredita, veja ao final deste artigo.
Independente de tudo o que ainda falta por descobrir sobre o funcionamento do cérebro (e não é pouco), o que já sabemos nos aconselha a não confiar demais naquilo que acreditamos ver ou escutar. Não tenha certeza do que você lembra. Duvide dos sentimentos que sua memória gera. Tente apoiar-se em evidências minimamente objetivas antes de tirar uma conclusão.
Nosso cérebro nos engana. Constantemente. A ilusão óptica que ilustra este artigo é um exemplo entre muitos.


Uma das características do nosso cérebro é a de ser um processador subjetivo, o que em parte dificulta criar modelos computacionais satisfatórios. Ao contrário do que acontece com um computador, o resultado final da função cerebral é influenciado por tanta coisa que a entrada do mesmo conjunto de dados geralmente provoca respostas diferentes entre indivíduos, e às vezes no mesmo indivíduo ao longo do dia.

Já faz umas décadas os neurocientistas chegaram à desconcertante conclusão que o mundo percebido é diferente do mundo real. O alcance desta constatação é enorme e se baseia nas diferenças que hoje conhecemos entre os processos de sensação e percepção.

Em nosso corpo temos estruturas especializadas em captar informações do meio externo e interno. Elas estão na pele, vísceras, olhos, orelhas, língua, nariz... Cada uma está relacionada com um dos nossos sentidos. Essas estruturas, denominadas receptores, transformam energias como a luz que atinge nossos olhos, as ondas sonoras, a energia química contida naquilo que cheiramos ou comemos, a energia térmica que vem do sol ou do fogo e alcança nossa pele, a energia mecânica que vem de um beliscão, e muitas outras, na única linguagem que o cérebro entende: pequenas correntes elétricas.

Estas correntes, conhecidas como potencial de ação, chegam ao cérebro através de nervos de uma forma bastante conhecida e padronizada. Simplificando, chamamos esse processo de sensação.

Mas chegando ao cérebro começa outro processo que ainda estamos longe de entender: a transformação dessas pequenas correntes elétricas em conceitos como o vermelho da rosa, o azedo da maçã, o aroma que nos lembra uma pessoa ou situação, a dor de dente, e tantos outros que constituem parte importante da nossa vida consciente.

O que sabemos é que essa transformação (percepção para os neurocientistas) é uma experiência individual. Meu vermelho pode ser diferente do seu (aliás, eu não tenho como saber como é seu vermelho!), a mesma maçã tem gostos diferentes para mim e para você.

Ainda, chegando ao cérebro os potenciais de ação estimulam diferentes áreas, algumas relacionadas com a memória, emoções, etc. Como cada um tem memórias próprias e reage emocionalmente de forma muito individual, a imagem final que o cérebro constrói será o resultado da informação que chegou através dos nervos, mas modificada pelas informações individuais acumuladas. Somos conscientes apenas do resultado final e este dependerá da nossa história de vida, de experiências anteriores, do nosso conhecimento sobre o mundo.

Como se essa fonte de erro e variabilidade fosse pouca coisa, ainda temos o problema das falsas memórias. Boa parte dessas versões da realidade que nosso cérebro cria são, como sabemos, armazenadas na memória. Mas com o passar do tempo as lembranças desvanecem. Peças do quebra-cabeça vão desaparecendo e nosso cérebro as repõe com o que tem à mão. Quanto mais o tempo passa, mais distorcida vai ficando a informação inicial.

Se um rosto desaparece da cena a ser lembrada nosso cérebro poderá colocar outro em seu lugar do estoque de rostos que tem armazenado. Quando a imagem ou lembrança fica incompleta, ele a refaz da forma mais coerente possível. Mas coerência e realidade são coisas diferentes.

Se ouvirmos repetidamente histórias sobre nossa infância, mesmo que inexistentes, criaremos uma imagem visual que poderá se transformar em uma memória tão real quanto qualquer outra.

Jean Piaget, o grande psicólogo e educador, contava que uma de suas lembranças infantis era ter sido sequestrado à idade de dois anos. Ele lembrava detalhes como o rosto machucado da enfermeira tentando se defender do sequestrador, do policial com sua capa branca e seu cassetete perseguindo o bandido. A história fora reforçada pelo relato da enfermeira e da família de Piaget, de forma que ele lembrava perfeitamente do ocorrido. Entretanto, o sequestro nunca aconteceu. Anos depois a enfermeira confessou ter inventado tudo.

Nesse campo das falsas memórias, algumas histórias são terríveis. Memórias podem ser implantadas coletivamente em campanhas publicitárias ou individualmente como no caso de Piaget. Pais foram acusados de abuso sexual por filhos que tiveram suas memórias manipuladas no divã de psicanalistas inescrupulosos. A descoberta posterior do erro não evitou o sofrimento de famílias inteiras.

Se a constatação que o mundo percebido -e lembrado- por nosso cérebro é diferente do mundo real pode ser perturbadora, ela permite que reavaliemos nossas certezas e, fundamentalmente, nossa predisposição negativa em relação aos outros. Mais que a religião, é o conhecimento do cérebro que a ciência oferece quem nos direciona para a tolerância. Saber que os sentimentos negativos que nutrimos podem ser decorrentes de uma série de distorções da informação que nosso cérebro processa pode nos dar chance de reparar uma injustiça e compreender as fraquezas dos nossos iguais. Ao mesmo tempo, nos autoriza a voltar atrás, mudar de opinião e, fundamentalmente, desconfiar bastante dos que afirmam estar certos de tudo.

Ou como diria Raul Seixas: “Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes. Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...”


Este artigo foi publicado originalmente em 2008, e levemente modificado para sua postagem neste blog.

*Se você ainda não acredita que os dois quadrados são da mesma cor, veja aqui



sábado, 10 de setembro de 2011

A esperança no sangue dos jovens

Novos neurônios no hipocampo de 

camundongos. Imagem: Chunmei Zhao,
Gage Lab, Salk Institute
Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro

Jorge Mautner



Quem diria que mais de 30 anos depois, a belíssima música de Jorge Mautner adquiriria também um viés científico. Não, não..., nenhum vampiro foi identificado pela ciência –fora os morcegos hematófagos- mas a utilidade do sangue dos meninos e meninas está na ordem do dia.

O experimento ao qual me refiro é tão interessante que vale a pena retroceder um pouco para compreender seus antecedentes.

Desde os tempos do grande neuroanatomista espanhol Ramón y Cajal - primeira década do século 20- tínhamos a convicção que os neurônios, as células do cérebro, não se reproduziam. Nascíamos com um número determinado e daí para frente nenhum outro nasceria.

Essa teoria começou ruir nos anos sessenta quando a equipe do neurocientista Joseph Altman comprovou a proliferação de novos neurônios no cérebro de ratos, processo denominado neurogênese adulta. Esses resultados, porém, ficaram algo esquecidos até a década de oitenta, quando a neurogênese foi confirmada no hipocampo, uma região do cérebro responsável pelo aprendizado e a memória.

A partir desse momento as pesquisas na área se intensificaram. Hoje sabemos que a neurogênese adulta não apenas existe como pode ser estimulada mediante exercício físico voluntário e convívio em ambientes intelectualmente estimulantes. Infelizmente, descobrimos também que ela diminui com a idade, e essa redução parece estar associada aos déficits de memória e raciocínio observados durante o envelhecimento e mais fortemente nas doenças neurodegenerativas como o mal de Alzheimer.

Assim, um dos objetivos dos cientistas tem sido não apenas investigar formas de estimular a neurogênese hipocampal, mas também entender quais os fatores que a reduzem na velhice.

Alguns pesquisadores suspeitaram que os fatores associados com a diminuição da neurogênese poderiam estar não nos próprios neurônios, mas seriam trazidos ao cérebro pelo sangue circulante. Para testar essa possibilidade, o pesquisador Saul Villeda e seus colaboradores da Universidade de Stanford criaram inicialmente ratos “siameses” mediante um processo cirúrgico denominado parabiose (resumidamente, dois animais cirurgicamente conectados de forma a compartilhar o sistema circulatório, assim, o mesmo sangue circula pelos dois organismos). Neste caso, os pesquisadores criaram grupos experimentais unindo dois ratos jovens (J+J), dois velhos (V+V) ou um jovem com um velho (J+V).

Depois de cinco semanas de união artificial os animais foram sacrificados e mediante técnicas especiais foi contado o número de novos neurônios em cada um dos grupos. Os cientistas observaram que esse número não se modificou nos grupos J+J e V+V, mas nos animais do grupo J+V, o rato idoso teve um número maior de novos neurônios quando comparado com um rato da sua mesma idade “não siamês” (grupo controle). Possivelmente, alguma proteína circulante no sangue do rato jovem com o qual estava artificialmente conectado tinha alcançado seu cérebro e por mecanismos ainda desconhecidos, aumentado a neurogênese.

O inverso também foi observado. No cérebro do “siamês” jovem do grupo J+V, o número de novos neurônios foi bem menor que o contabilizado em ratos controle da mesma idade. Como no caso anterior, os pesquisadores suspeitaram que alguma substância produzida pelo rato idoso tinha alcançado o cérebro do jovem e induzido uma diminuição na neurogênese.

Os cientistas partiram então para descobrir quais poderiam ser essas substâncias. O que haveria no sangue do animal jovem que estimularia a produção de novos neurônios? E o que acontece quando o rato envelhece?

Mediante uma técnica denominada análise proteômica, compararam as proteínas dos ratos antes e depois do experimento, e identificaram seis que estavam em nível elevado tanto nos animais jovens do grupo J+V (aqueles que tiveram a neurogênese diminuída) como em animais idosos controles. Uma delas foi a CCL11, proteína pertencente a uma família conhecida como eotaxinas, com grande participação em nosso sistema imunológico.

Para confirmar as suspeitas sobre o papel da CCL11, os pesquisadores a injetaram em ratos jovens normais e observaram que, de fato, a neurogênese diminuía. E não apenas isso. A capacidade de aprender ou mesmo lembrar tarefas que tinham sido previamente aprendidas foi drasticamente comprometida.

A ideia agora é estudar detalhadamente essas proteínas e como elas funcionam no homem. Há um bom caminho antes de transformar esse conhecimento em um medicamento que alivie alguns dos males do envelhecimento e das doenças cerebrais, mas a CCL11 pode representar um grande atalho.


Fonte: Villeda, S et al (2011). The ageing systemic milieu negatively regulates neurogenesis and cognitive function. Nature, DOI: 10.1038/nature10357.

domingo, 4 de setembro de 2011

Interesses por trás da ciência farmacêutica

É inegável a enorme contribuição de ciência farmacêutica para proporcionar medicamentos que nos permitem viver mais e melhor. Vacinas, antibióticos, anti-inflamatórios, anestésicos, anti-hipertensivos, analgésicos..., a lista é enorme. Também é inegável que desenvolver esses medicamentos custa muito, muito dinheiro. O processo desde a seleção de uma simples molécula, passando por toda a fase de testes laboratoriais e clínicos, pode consumir entre cinco a dez anos e milhões de dólares. E ao final, pode ser tudo jogado fora quando os últimos testes dão errado.

Fazer frente a esse empreendimento econômico tem se mostrado um desafio intransponível para o poder público, mesmo nos países ricos. Assim, a tarefa foi delegada à indústria farmacêutica. O preço a pagar tem sido, salvo exceções, condicionar a procura de novos medicamentos ao potencial lucrativo dos mesmos. O enorme investimento realizado para disponibilizar uma nova droga deve vir acompanhado de um lucro não menos enorme. Com frequência, a indústria acaba submetendo a ciência farmacêutica ao jogo do mercado, onde os critérios éticos que deveriam nortear médicos e cientistas são muitas vezes deixados de lado.

Por se tratar agora de uma atividade comercial, pesquisadores e universidades acabam se submetendo a confusas regras legais de forma que os resultados das pesquisas em vez de pertencerem à sociedade, pertencem, devido a cláusulas contratuais, à empresa financiadora, que divulga o que bem entende.

Um caso que ilustra esse fato ocorreu anos atrás nos Estados Unidos com um peso-pesado da indústria farmacêutica. O laboratório testava uma droga para combater a incontinência urinária. Entretanto, os testes pararam já que entre os efeitos colaterais a droga provocava tendências suicidas nos usuários. O problema é que o princípio ativo desse medicamento era o mesmo utilizado em um antidepressivo que o próprio laboratório comercializava, consumido por milhares de pessoas. Como o medicamento contra a incontinência não tinha chegado a ser comercializado, o laboratório teve o direito jurídico de omitir essa informação (mortes por suicídio durante os testes) por tratar-se de segredos comerciais previstos em lei. Já o antidepressivo, com o mesmo princípio ativo, continuou a ser vendido normalmente.

Hoje em dia, os laboratórios são obrigados a informar às autoridades apenas o início de testes. Já os resultados finais são apenas comunicados se o produto vai ser comercializado. Com isso, informações preciosas que poderiam salvar vidas são omitidas das autoridades e da comunidade científica por estarem protegidas por “trade secrets” (segredos comerciais).

No caso do nosso relato, a informação sobre o potencial suicida da droga veio à tona porque um dos pesquisadores envolvidos no projeto ficou com a consciência pesada e denunciou (anonimamente) esses fatos a um jornalista especializado. Chama a atenção que entre tantos pesquisadores envolvidos, apenas um foi capaz de tomar essa atitude.

Médicos se atualizam sobre os novos medicamentos geralmente através de duas fontes. Uma delas são os vendedores das próprias companhias farmacêuticas que visitam frequentemente os consultórios distribuindo informações sobre novos produtos, junto com uma série de brindes e bugigangas. Claro está que nesse caso os médicos desconfiam que o vendedor realçará os aspectos positivos do produto e tenderá a omitir os negativos. 

Outra fonte são as revistas médicas especializadas. Esta é considerada uma fonte confiável por boa parte dos médicos. O que poucos sabem é que as próprias revistas são mantidas por dinheiro proveniente da indústria farmacêutica, que paga pelos espaços publicitários nelas contidos. Para se ter uma idéia dessa influência, vale lembrar o caso do médico Mike Wilkes. Ele decidiu checar a veracidade das informações veiculadas nos anúncios sobre medicamentos publicados em uma prestigiosa revista médico-científica. Chegou à conclusão que boa parte das informações desses anúncios estava incorreta. Propaganda enganosa mesmo. A própria revista aceitou publicar as conclusões de Wilkes. Como represália, os anunciantes (empresas farmacêuticas) decidiram boicotar a revista, privando-a assim da sua principal fonte de ingressos. Os anúncios -e o dinheiro- voltaram apenas após terem sido demitidos todos os editores (médicos e cientistas) que tinham autorizado a publicação do artigo.

Esses e vários outros fatos nos mostram que, se por um lado a atividade da indústria farmacêutica é indispensável, regras mais rígidas destinadas a proteger a sociedade deveriam ser implementadas. No Reino Unido, um projeto de lei ainda em análise obriga essas empresas a divulgar publicamente resultados de todos os testes clínicos de novas drogas, sem importar se o experimento deu certo ou errado, se o medicamento vai ser comercializado ou não. É um bom início. Da nossa parte, é sempre bom lembrar que universidades públicas e centros de pesquisa, seus departamentos, laboratórios e docentes, devem estar inexoravelmente a serviço da sociedade, mesmo que esta não possa financiar passagens ou diárias de hotel para freqüentar congressos.

Fonte: Pharmaceutical advertisements in leading medical journals: experts' assessments. M S. Wilkes e cols., Ann. Intern. Med., 116:912-9, 1992; The Firing of Dr Lundberg, JAMA, 281:1789-1795, 1999.
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