sábado, 8 de outubro de 2011

Ateus são mais inteligentes?

Ao longo dos seus mais de 50 anos de atividade científica, o pesquisador britânico Richard Lynn se transformou em um dos maiores especialistas no estudo da inteligência humana. Ao mesmo tempo, sua obra, estampada em pelo menos quatro best sellers e centenas de trabalhos científicos, o converteu provavelmente num dos cientistas mais detestados.

Quando um dos seus estudos sugeriu que homens são mais inteligentes que mulheres foi recepcionado em sua casa com o que ele chamou “uma salva de ovos”. Algo parecido ocorreu quando estabeleceu uma lista com as raças mais inteligentes, com os orientais no topo e os pigmeus do Congo na última posição. Para ele a polêmica é normal. Como costuma dizer, “Faz parte do ofício de um cientista revelar o que as pessoas não estão prontas para receber”.

Boa parte dos trabalhos de Lynn está baseada em estudos que, por um lado, medem a inteligência de grupos populacionais mediante testes de QI. Depois correlaciona esses dados com características como sexo ou raça.

Em seu mais recente –e não menos polêmico- trabalho, Lynn correlacionou níveis de QI e religiosidade em 137 países. A tabela completa pode ser lida aqui. Resumindo, em média, as populações com maiores índices de QI (próximos a 100) correspondem a países com maior porcentagem de ateus (República Checa com 61% de ateus, Dinamarca com 48%; França, 44%; Bélgica, 43%; Holanda 42%; Reino Unido, 41.5%) e vice-versa, em países onde os índices médios de QI são mais baixos (entre 60 e 80), a população de ateus é muito pequena ou praticamente inexistente. Para Lynn, isso acontece porque a inteligência aprimorada leva ao questionamento da religião. Mas cuidado, como o próprio Lynn enfatiza, não é porque se é religioso que se é menos inteligente. O que se observa apenas é uma tendência de encontrar QI mais alto em pessoas não-religiosas.

Para aqueles que estudam essas questões a partir do que conhecemos sobre o funcionamento cerebral, a pergunta que fica é: circuitos cerebrais que nos transformam em pessoas religiosas de alguma forma são responsáveis também por um QI menor? Só temos uma resposta: não existem evidências conclusivas que nos permitam apoiar essa hipótese. Assim, quando aceitamos esse argumento temos que verificar se nossos preconceitos não estão se sobrepondo à nossa análise crítica.

Mas o que justifica então que países com populações com QI maior sejam os que congregam o maior número de ateus?

De acordo com alguns pesquisadores, o que parece acontecer é que “países ateus” são em média mais inteligentes que “países religiosos” não por causa dos circuitos cerebrais dos seus cidadãos, e sim porque estes se beneficiam de outros aspectos que os países ricos oferecem.

Fica evidente ao analisar a tabela de Lynn que, salvo exceções, os países com populações com menor QI são também países pobres. Assim, um QI mais baixo pode estar relacionado com outros fatores que são característicos de países subdesenvolvidos: populações menos urbanizadas, um sistema educacional de baixa qualidade, pouco acesso à informação através da mídia eletrônica, maior exposição a doenças nutricionais e infecciosas que afetam o desenvolvimento cerebral, ambientes contaminados pela falta de controle sobre emissão de poluentes, o que acaba também afetando o cérebro, etc.

Por outro lado, países ricos geralmente disponibilizam um sistema de bem-estar social que deixa suas populações mais seguras quanto ao futuro. Historicamente, as religiões sempre ofereceram uma proteção divina para enfrentar uma natureza incompreensível e muitas vezes hostil. Com o maior conhecimento e domínio sobre os agentes naturais que a ciência e a educação moderna disponibilizam, aliados a uma maior segurança material, a necessidade de se aferrar a explicações fantasiosas baseadas mais em dogmas que em raciocínio lógico acaba perdendo espaço, e com ela, as próprias religiões.

Quanto aos estudos de Lynn, o maior problema é que boa parte de suas conclusões nos leva a becos sem saída. Concluir que determinado sexo ou raça tem QI menor pode ter um grande potencial para gerar polêmica, mas um potencial praticamente nulo para encontrar soluções que venham a aliviar o sofrimento humano, uma das razões de utilizar a ciência para gerar conhecimento. Por outra parte, não podemos esquecer que a medida do QI é capaz de analisar apenas uma fração daquilo que denominamos inteligência.

Se há algo que fica claro a partir desses estudos é que a religião tende a declinar quando a prosperidade aumenta. Se isto é por causa dos circuitos cerebrais ou porque não temos mais medo de trovão, é algo que neurociência cognitiva ainda está longe de responder.



Fontes: Average intelligence predicts atheism rates across 137 nations. Richard Lynn e cols., Intelligence 37:11–15 (2009).
Barber, N. (2005). Educational and ecological correlates of IQ: A cross-national investigation. Intelligence, 33, 273-284.



20 comentários:

  1. Como sempre (e isso está longe de ser associado a algum aspecto negativo), um tema polêmico que poucos conseguem publicar/discutir sem criar situações aversivas. Você faz parte desses poucos (e bons) divulgadores científicos Professor!

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  2. Em primeiro lugar, gente verdadeiramente inteligente não fica discutindo se uma categoria de pessoas é mais inteligente que outra, a inteligência é um atributo pessoal, não de grupos. Em segundo lugar, é muito simplista e reducionista essa divisão, como se uma pessoa esclarecida, intelectualmente favorecida e desenvolvida não pudesse ser crente (colocar isso como pressuposto é criar um dogma, além de ser maniqueísmo). Em terceiro lugar, isso muito mais parece necessidade de auto-afirmação de uma categoria. É sectarismo demais. Por último é desonesta esse tipo de pesquisa visto que os 'universo' de crentes é muito mais heterogêneo, diverso e plural que o grupo de ateísta (tendem a formar um clubinho de 'notáveis'). Eu me considero uma pessoa inteligente, tenho 24 anos, 'passei de primeira' aos 18 anos na UFRGS, num dos cursos mais concorridos, aos 20 passei num concurso público federal dos mais concorridos, e durante minha vida escolar aí em Araçatuba sempre estive entre os primeiros. Nada disso me faz crer superior que ninguém. Não preciso de auto afirmação. Também não preciso de auto-afirmação na minha fé religiosa. Não me acho melhor que ninguém de outra crença e da "crença que nega a crença". Também não me considero menor.

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  3. Obrigado Caio. Sem entrar no mérito da tua opinião, vale a pena registrar que o trabalho de Lynn se refere apenas a testes objetivos de QI e, como está colocado no texto, estes representam apenas uma fração de algo muito complexo denominado "inteligência". Recomendo fortemente a leitura completa do artigo (caso você não o tenha feito ainda). É só clicar no "aqui" na frase " A tabela completa pode ser lida aqui."
    Uma boa noite!

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  4. Uai, também nao entendi as colocaçõs do Caio, mlhor dizendo, até entendi mas nao vejo o porquê .

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  5. Ateus mais inteligentes??? Pode até ser, mas diante deste fato, deve-se tomar certos cuidados antes de julgá-los, pois se isso for realmente aprovado, muitos ateus ajudarão a pagar essa conta.

    http://noticias.gospelmais.com.br/parque-gospel-menos-milhoes-construido-acre-26413.html

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  6. (Do link postado por Aline)
    "O Governo do Estado do Acre anunciou a criação de um Parque Gospel, que será construído com verbas conseguidas pelo Deputado Federal Henrique Afonso (PV-AC)."

    Aline, isso é de doer!! Tanto em ateus como em religiosos minimamente esclarecidos.
    Abç

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  7. Nem fale, nessas horas, para me conformar tenho que concordar com a galera do site "Jovem Nerd" quando eles dizem: "o Acre não existe!", logo tudo não passa de mentira! eheheh!!!

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  8. Só li fatos. O questinamento é o que nos proporciona o desenvolvimento intelectual, mas as pessoas preferem se acomodar em histórias que são passadas de geração à geração e acabam se sentindo mais seguras e não têm a humildade de reconhecer que não sabem nada a respeito da origem do universo!

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  9. QI de Côco ou de Cocô?31 de outubro de 2011 23:01

    Lá na minha terra também tem um cientista que, após 51 anos de longas pesquisas, descobriu que as folhas do coqueiros podem em muito contribuir para geração de furacões no planeta Júpiter...

    Seria o tal efeito borboleta? Efeito coqueiro?

    Limitar a inteligência ao obsoleto e retrô "QI" é realmente pouco inteligente ou extremamente conservador, gerando, deste modo, deturpações circunstanciais como tendências supostamente verdadeiras...

    Será que naquelas bandas do ateus mais ateus também o índice de suicidas sejam porque eles são ateus ou por causa das folhas do coqueiros daqui do Ceará?

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  10. Quem sabe a leitura crítica do artigo completo ajude a nosso amigo QI de Côco... a encontrar uma resposta ou, quem sabe, formular perguntas que possam ser respondidas :-) http://files.meetup.com/411954/Intelligence.pdf

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  11. Roelf, a ciência tem explicações para nossos sentimentos?
    Porque vezes estamos e vezes estamos felizes?

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  12. Anônimo, a ciência tem mais perguntas que explicações. Mas o sentimento é o "sentir", a percepção das emoções. Estas têm um componente físico (as alterações do nosso corpo quando nos emocionamos), cognitivo (o que pensamos sobre essas emoções), o o que de fato estamos sentindo.Os sentimentos estão relacionados com esses componentes.
    Nosso sentimento de fundo (o porquê às vezes estamos tristes ou felizes sem um motivo aparente) pode estar relacionado ao equilíbrio químico de nosso cérebro. O legal tb é tentar descobrir a causa desse sentimento de fundo e trabalhar nela.

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  13. Estudo interessante, Miguel. Todavia, utiliza meio simplista - QI_avaliação unidimensional - o que impossibilita uma conclusão. Ainda assim, valeu pelo conhecimento desse artigo. Bom Natal. Dênia

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  14. É muito fácil obter essa resposta, basta perguntar a Deus. É lógico que nunca receberemos a resposta Dele. O motivo é bem óbvio, mas os teístas fingem não perceber.

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  15. Acho que talvez seja necessário ressaltar um ponto muito importante para os religiosos: segundo o texto, religiosos tendem a serem menos inteligentes, ou seja, só por que possuí uma religião, não necessariamente será mais burro, assim como nós ateus, não somos mais inteligentes por que somos ateus, somos ateus por que somos mais inteligentes. Em geral sim, mas não podemos dizer que 100% dos ateus são mais inteligentes, isso é um fato.

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  16. Pois é. Inteligência é pra poucos, assim como ateismo também.
    Quando eu era criança acreditava na cobrinha falante, mas minha mente desenvolveu o bastante para continuar acreditando nessa idiotice.

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  17. Conheço pessoas inteligentíssimas que acreditam em Deus! E também conheço pessoas desprovidas de conhecimentos mundanos que não passam de ignorantes e são ateus! Não é uma questão de "inteligência" e sim de ponto de vista. As pessoas que se limitam apenas no "ver" e no "provar" não terão -nada mais- do que vidas futuras limitadas ao saber do Homem(esse que vemos hoje, está mais preocupado em provar algo para o mundo, do que para sí mesmo).

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  18. Para quem não tem lido sobre ateísmo, evolucionismo e cientificismo parece até uma pesquisa normal. Contudo, é perceptível um proselitismo implícito. A mensagem que se quer dar é a seguinte: Ateus são mais inteligentes. Venha ser ateu também! Vem! (qualquer semelhança com o anuncio da Caixa Econômica Federal é mera coincidência! Hehehe).
    Confirmar crenças criando pesquisas simplistas, dando a ela publicidade, para que leigos e pessoas menos providas de INTELIGÊNCIA interpretem a captem a mensagem acima, não é algo legal. Cientistas não deveriam fazer isso! É o lado "RUIM" da ciência que deve ser banido.
    Ceticismo sim! Crentes não!
    Obs: "Nota de rodapé" em pesquisas é sac@#$@#$@!
    Valeu!
    Augusto Ferreira

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