domingo, 20 de novembro de 2011

Amputados não esperam por milagres

Um dos desafios da ciência para as próximas décadas será regenerar membros e órgãos amputados ou lesados. Não apenas mãos, braços e pernas, mas rins, coração, etc. 
Curiosamente o tema, além do aspecto científico é um prato cheio para atiçar o debate religioso.
Para quem quiser ler e refletir sobre este assunto recomendo o site www.whydoesgodhateamputees.com (literalmente, porquedeusodeiaamputados.com). 
Para o autor, se Deus intervém operando milagres para remover tumores malignos, fazer cego enxergar, o mar se abrir, morto ressuscitar e tantos outros, não haveria motivos lógicos -nem biológicos- para Ele não promover a regeneração de membros perdidos. 
Mas, como todos sabemos, não importa quantas pessoas peçam, nem quanto elas rezem, nem quão sinceros e devotos eles sejam; não importa que o amputado seja absolutamente merecedor da graça, o milagre não acontecerá.
E também não importam as palavras da bíblia “E tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis.”, “Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.”.

Ainda de acordo com o autor, três possibilidades justificariam este fato incontestável,

a) Deus não existe;

b) Deus existe, mas regenerar uma simples falange de um único dedo está fora do Seu alcance;

c) Deus existe, tem esse poder, mas simplesmente se nega a atender pedidos de amputados e seus familiares.

Também não me ocorre outra possibilidade. Se o leitor pensar em alguma, fique à vontade para aumentar a lista.

Polêmicas à parte, o que a ciência tenta entender é por que os mamíferos adultos perdemos a capacidade de regenerar órgãos e membros. Ela ainda existe em animais mais simples. Estrelas-do-mar regeneram braços, alguns tipos de salamandras, como os axolotes, podem regenerar órgãos e membros amputados. 


Estrela-do-mar regenerando tentáculos perdidos


O axolote (Ambystoma mexicanum) é capaz de
regenerar 
membros e órgãos danificados.


A planária, um verme parecido com a lesma, tem a incrível capacidade de, se dividida em dois, desenvolver duas novas metades absolutamente funcionais criando assim dois indivíduos. 

Planárias, vermes platelmintos da classe dos turbelários,
apresentam uma enorme capacidade de regeneração.
Seccionadas longitudinalmente, são capazes de regenerar
a outra metade, criando dois novos indivíduos


Mesmo os humanos, em períodos fetais, temos ainda alguma capacidade de regenerar membros. Mas em algum momento da evolução dos mamíferos, cicatrizar uma ferida aberta (evitando assim infecções fatais) passou a ser mais importante que regenerar um membro amputado. Os cientistas observaram que quando perdemos um dedo, por exemplo, os eventos que levam a cicatrizar rapidamente, inibem os processos que poderiam permitir a regeneração.

Esta corrida da ciência tem, como já ocorreu no passado, a pressão da guerra e seus milhares de amputados e conta também com o inesperado. Alguns avanços surgiram quase por acaso. É o que aconteceu com um grupo de pesquisadores que estudava o tratamento para o lúpus, uma doença autoimune que acomete milhões de seres humanos.

Para os estudos, criaram um camundongo geneticamente modificado, denominado MRL, capaz de desenvolver a doença. Com isso esperavam compreender seus mecanismos genéticos e tentar novos tratamentos. Para identificar os animais, eram feitos furos nas orelhas. Furo na orelha esquerda, animal MRL; sem furo, camundongo normal.

Dias depois, quando foram realizar experimentos, observaram que todos os animais estavam sem furo. Acreditando tratar-se de um equívoco por parte de algum membro da equipe, repetiram tudo, e para surpresa geral, em poucos dias os camundongos MRL tinham regenerado a orelha, sem marcas nem cicatrizes. 

Regeneração das orelhas em camundongos MRL.
Comparar com os camundongos normais na coluna à esquerda
 (Ellen Heber-Katz e cols.).


Os pesquisadores perceberam então que ao alterar o DNA do animal tinham mexido na sequencia de genes relacionada com os processos regenerativos. De alguma forma, tinham desbloqueado essa capacidade perdida em mamíferos.

O camundongo MRL não apenas regenerava a orelha, mas partes completas do coração quando artificialmente danificado, e até falanges inteiras de dedos amputados. Atualmente os cientistas tentam identificar qual a sequencia de genes envolvidos no processo, por que eles estão bloqueados, e que acontece na área da amputação quando eles são ativados novamente.

Além do camundongo MRL, outro grupo de mamíferos que parece guardar o segredo da regeneração é o dos cervos. Anualmente repetem um ciclo de formação, amadurecimento, e queda dos seus espetaculares chifres. Como essa formação tem semelhanças com a formação dos nossos ossos, os cientistas querem saber quais as substâncias químicas que promovem esse crescimento e por que o processo pode se repetir com tamanha velocidade a cada ano.

A formação anual de novos chifres em cervídeos pode
dar pistas sobre os processos de regeneração de ossos humanos.

 Tanto no caso dos camundongos MRL como nos cervos, a ação de células tronco parece jogar um papel fundamental. Os cientistas acreditam que se as pesquisas continuarem no 
ritmo atual, em dez anos partes de dedos e órgãos internos poderão ser substituídos em humanos, e daqui a 50 anos formar um novo pulmão, rim, ou braço poderá fazer parte da rotina médica.

Não deixa de ser irônico verificar que a manipulação genética, a mesma que criou os camundongos MRL, tenha sido colocada pelo Papa Ratzinger entre os novos pecados capitais. Vai lá saber o site citado no início deste artigo está certo, e Deus tem realmente algo contra os amputados.

Fontes: 
The scarless heart and the MRL mouse. Ellen Heber-Katz e cols., Phil. Trans. R. Soc. Lond. B (2004) 359, 785–793. 
Deer antlers: a zoological curiosity or the key to understanding organ regeneration in mammals? J.S. Price e cols., J. Anat., (2005) 207:603-18

Um comentário:

  1. O que seria uma doença não "carmática" (cármica?)? Para o argumento da reencarnação, seriam todas cármicas, assim como também o "silêncio do Universo", como disse Cecília Meireles. Reencarnacionistas diriam que essa invisibilidade do Eterno também faz parte do carma, no caso, de quase todos nós, que não ouvimos claramente uma "espiritualidade superior". Assim, teríamos, entre outras, as opções: Interpretar esse silêncio como carma ou como prova da inexistência do carma. Não tenho uma convicção religiosa e é mesmo um rigor racionalista que me faz considerar todas as possibilidades. No final das contas, o que importa é a ética. O que fazer dessa vida? Cármica ou não, o que urge e o que emerge é "o tempo presente, os homens presentes, a vida presente", como disse Drummond.

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