sábado, 12 de novembro de 2011

O tumor do Lula e o nosso

Normalmente, quando alguém atravessa uma situação dramática nossa reação é compartilhar sua dor e tristeza. Da mesma forma, quando um semelhante passa por uma situação constrangedora -ou mesmo feliz-, vivenciamos também algo da sua vergonha ou da sua alegria. 
Este tipo de reação solidária não surge apenas devido ao efeito de valores morais adquiridos durante nossa educação, mas trata-se de uma resposta natural decorrente da ativação de redes neuronais específicas. Já comentamos aqui sobre este sentimento que compartilhamos com outros primatas, a empatia.

Resumidamente, quando vemos alguém triste os mesmos neurônios responsáveis por esta observação podem estimular os circuitos associados com a tristeza, e sem que nada “triste” tenha nos acontecido passamos a sentir parte desse pesar. O importante é que este sentimento, que facilita nossa convivência em grupo, permite que nos coloquemos no lugar do outro evitando assim uma série de conflitos.

Quando disparou na imprensa que o ex-presidente Lula estava com câncer, o que menos se viu, pelo menos entre os que expressaram sua opinião em redes sociais, comentários em portais de notícias, etc., foi a empatia à qual me referi anteriormente. Em vez de uma mensagem solidária, muitos optaram por mandar Lula para aquele lugar, o SUS. Por algum motivo, o sentimento de empatia foi bloqueado. Por quê?

A alegação de muitos é que agiram assim para chamar a atenção sobre o “estado deplorável” em que se encontra nosso sistema público de saúde. É uma possibilidade que não pode ser descartada. Como chefe do governo, podemos racionalizar atribuindo-lhe responsabilidades que, de alguma forma, bloqueiem nossa resposta natural empática.

Mas há um problema com esta justificativa. Meses atrás a população praticamente elevou à qualidade de herói nacional o número dois na cadeia hierárquica do governo Lula, o vice-presidente José Alencar, pelo simples fato deste ter enfrentado com o que há de mais caro e sofisticado da medicina nacional e internacional suas várias recidivas de câncer. Obviamente ele também era governo. Corresponsável por todas as suas políticas. Mas nenhuma campanha foi sugerida para que o vice-presidente fosse tratado pelo SUS.

Meses depois, a então candidata Dilma Rousseff passou por situação semelhante e tampouco foi observado esse fervor pátrio para que ela enfrentasse as filas do nosso sistema público de saúde.

O sentimento empático também poderia ser bloqueado caso o destinatário fosse um crápula, um genocida, um sociopata, enfim, um elemento reconhecidamente nocivo ao grupo. Não parece ser este o caso do ex-presidente Lula. Podemos atribuir-lhe uma série de defeitos e virtudes, mas nada que se pareça com essa descrição.

Mas há um fato que merece nossa atenção. A empatia é um sentimento profundamente fixado em nosso cérebro mediante mecanismos de seleção natural. O altruísmo e outros valores morais que nos são tão caros também podem ser explicados pela necessidade de criar vínculos que tornem o grupo mais forte e coeso, fator essencial para sua sobrevivência.

Como já mencionamos em outras oportunidades, o Homo sapiens evoluiu a partir de pequenos grupos de caçadores/coletores. A sobrevivência individual dependia de um comportamento solidário e altruísta entre os membros do grupo, mas hostil com os membros de outros grupos. Será que a disparidade de tratamento que dispensamos a essas três figuras da vida pública está relacionada com estas mazelas evolutivas? Por ser rico, branco e católico praticante José Alencar merecia tudo que seu dinheiro pudesse pagar para combater sua doença? José Alencar e Dilma são de nosso grupo e Lula não?

Não sei até que ponto a falta de empatia demonstrada por muitos em relação a nosso ex-presidente esteja relacionada com este fato. Mas suspeito que pelas suas características autobiográficas ele desperte uma rejeição atávica em muita gente. Este sentimento pode ter atingido o ápice quando, através do instrumento democrático do voto, este sapo de outro poço foi galgado ao posto de líder máximo de nosso bando. Conviver olha lá, aceitar sua liderança já é outra história, não é mesmo?

É evidente que sempre devem ser cobradas responsabilidades aos dirigentes, mas fazer isso justo num momento como esse, convenhamos, deve no mínimo nos fazer refletir sobre nossos reais motivos. Que tenhamos um passado evolutivo impiedoso não justifica, neste início de século 21, tamanha falta de sensibilidade.

9 comentários:

  1. o principal motivo disso Roelf com certeza é porque tem muita gente sendo maltratada no SUS e cansada de ver os privilégios da laia de corruptos do lula, que roubam o dinheiro que deveria ir para a saúde pública. Faltou sensibilidade e respeito ao lula, sobrou empáfia e agora está colhendo o que semeou.

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  2. ..."Nós não vemos os outros com clareza, e o que obscurece a nossa visão são os preconceitos que a pessoa supostamente objectiva se recusa a reconhecer. Uma pessoa objectiva diria que não é responsável pela guerra, mas uma pessoa que sabe psicologia sabe que cada um de nós é responsável porque cada um de nós tem sempre uma área de hostilidade, que depois é projectada para hostilidades colectivas mais vastas"...

    Anais Nin, in "Fala Uma Mulher

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  3. Bem no próximo ano teremos eleições municipais (elas servem de média para os partidos para próximas eleições, em outros cargos, através dos representates eleitos) e acredito que estes comentários que onde há uma ponte entre o câncer do ex-presidente e o Sistema Único de Saúde, sejam apenas uma manobra política influenciada por pessoas da mídia que participam de redes sociais. Neste ponto percebemos o quanto as pessoas são facilmente manipuláveis e duas provas disso são as pesquisas eleitorais feitas por jornais de grande circulação onde os gráficos são interpretados para o leitor a conforme a preferência de partidos apoiados pelo jornal, e a outra prova é deixar claro que o brasileiro não sabe ler gráfico (a prova do ENEM- Exame Nacional do Ensino Médio, avalia interpretação de gráfico!!!).
    Acredito que a empatia não seja neste caso um fator relevante ao grupo e sim a manipulação em massa, o que um professor dizia: " A bigbrodização", que sofremos desde a época da abertura do regime militar pelo presidente Figueiredo, se não me engano, onde no horário político gratuito apareciam as fotos e os números dos candidatos, porém, não as propostas(equivocado, não?), o que tornou o programa político fatigante levando aos poucos as pessoas a falta de interesse por política, pois o SUS se define como um conjunto de serviços e ações de saúde prestados por órgãos, federais, estaduais e municipais, logo se está ruim a culpa não é apenas do Lula e sim de uma infinidade de políticos eleitos e partidários. Ahh e lembrando o SUS existe desde 1988 e implantado em 1990, logo é muito tempo funcionando pra chegar só agora na conclusão de que os serviços estão ruins!

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  4. Podemos definir que a empatia é um dispositivo eletrônico construído por Deus e instalado no cérebro do ser humano que dispara a partir das mais variadas reações adversas. Eu por exemplo, acho que o eleitor deveria usar esta empatia com mais dureza, no sistema político da ditatura do Brasil. Se hoje temos uma saúde pública ruim é por que estamos colhendos os frutos de más administrações anteriores. Sim! Porque se começarmos a analisar com mais frieza e generalizar as coisas vamos ver que não é verdade. Temos bons exemplos de saúde pública no Brasil, mas que não podemos aceitar como suficiente. Se começarmos a analizar os estados do Brasil, vamos ver que há divisões. O nordeste, por exemplo, já foi muito pior, mas podemos ver uma melhora. A região centro-oeste temos as duas coisas. Boas e quase ruim. O sul digamos que está em evolução enquanto que o norte precisa de mais cuidados. Então, tudo que estamos vivendo hoje é fruto do passado. E não venha me dizer que não tínhamos pessoas competentes, porque não é verdade. Acontece que o nosso ex-presidente, o Senhor LULA, não tinha e não tem a mesma mentalidade das pessoas daquela época, apesar de ser praticamente da mesma geração.Todos nós sabemos que o LULA poderia ser melhor, mas devido a uma série de vários tipos de câncer existente no governo federal, o tratamento teve que ser homeopático e com o risco de não poder curar os doentes mais crônicos. Hoje ainda temos muitos tipos de câncer na política, mas todos tem possibilidade de cura e o remédio certo é aquele usado por todos nós. Que é o voto. Eu particularmente acredito que temos que investir em mais pessoas com este tipo de mentalidade, pois só assim vamos ver nossos filhos trabalhando e produzindo bons frutos. Seja no trabalho, política, religião e o mais importante que é a família. Ah! A família. Alicerce e casa ideal para a formação de todos estes valores citados acima.

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  5. Exatamente isso. Quem se manifestou foi a classe-média paulista, que odeia o Lula mesmo com os brasileiros podendo viajar mais que nunca. Como disse a capa de alguma revista (que não a VEJA): "O Brasil que se considera informado mais uma vez mostra sua ignorância"

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  6. Acho que o câncer deveria limpar a política: chaves, Dilma e o molusco

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  7. É inacreditavel que neste mundo exista gente (?) como o Sr. Apocrifo acima, que nao tem nem coragem de mostrar a cara, quanto mais de ter um minimo de civilidade. O cancer é uma doenca terrivel, ninguem tem o direito de desejar a ninguem. Gostaria que alguem desejasse que o Sr. tivesse? O problema é que pessoas como o Sr. estao confundindo liberdade de expressao com direito a faltar com o respeito e a ofender a dignidade das pessoas. Alias, o "molusco" ao qual o Sr. se referiu foi o presidente mais popular e por que nao dizer, mais querido na historia deste pais, goste o Sr. ou nao.

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  8. Queridos, permitam-me descordar. Não acredito que a classe média paulista odeia o Lula, não levo a questão por aí. Estou certa que o fato só ratifica a ideia de que os sensatos são silenciosos, ao contrário dos insensatos - eles fazem mais barulho, são mais inconsequente. Todavia, não falam por uma classe...eles são poucos, mas barulhentos. Aydênia

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  9. Infelizmente quando digo que o brasileiro é facilmente manipulável acabo me deparando com mais um exemplo. Percebam, se os insensatos são os que "fazem barulho" logo quem faz manifestação aqui no Brasil é insensato? Ou seja manifestações sindicais, a geração de 30, passeatas contra a ditadura, diretas já, impeachment do Collor, além dos protestos que tivemos no ano passado contra o governo nos feriados do dia do trabalhador, Nossa Senhora da Aparecida etc, então é coisa de gente insensata???
    Entretanto é notável que uma parcela alienada da população que comenta sobre o governo em redes sociais está, mesmo que calcada em um clichê de que: " políticos são corruptos", tendo alguma consciência política, pelo menos sabem que algo está errado, portanto eles não são insensatos!!! O grande problema neste caso é que qualquer pessoa esclarecida pode acabar manipulando a opinião desse povo a seu favor, difundindo qualquer tipo de ideia contra ou a favor do governo. A questão não é até agora além de não haver aqui nesta coluna qualquer argumento sustentável de que "a sensatez" seja realmente a responsável pela consciência política de alguém, o que tem muito é indolência e analfabetismo funcional !!!! E qualquer pessoa que saiba ler no mínimo deveria de saber pelo menos a história de seu país, afinal é parte de sua identidade como pessoa, não é só carregar um RG (registro geral) para dizer que tem uma identidade, é necessário ter em mente do que é ser nativo de sua terra, para você pelo menos desenvolver e saber argumentar de forma decente seja em uma rede social seja em um blog como este, pois do contrário cairá na parcela alienada da qual me referi que é facilmente manipulável.

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