quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Criacionismo lidera “tuitaços”. Dá para acreditar nisso???

Mesmo de férias, este blog não pode deixar de registrar o que aconteceu na sexta-feira 13 de janeiro deste ano, quando a propaganda da lenda do criacionismo bíblico dominou o twitter. Na volta da coluna em fevereiro prometo desenvolver melhor o tema. Por enquanto, posto um artigo da Coluna Ciência que, mesmo de 2009, nunca esteve tão atual.




Ensino do criacionismo gera polêmica em São Paulo


O final de 2008 e início de 2009 estiveram marcados por um intenso debate, em razão de uma reportagem publicada no jornal Folha de São Paulo. Na sua coluna "Ciência em dia" (30/11), o jornalista Marcelo Leite noticiava que o Colégio Presbiteriano Mackenzie passara a ensinar criacionismo em suas aulas de ciências, através de apostilas traduzidas e adaptadas de material da Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI), com sede no Colorado, nos Estados Unidos.

Evolução seria ensinada apenas no ensino médio e, claro, no curso de graduação em Biologia, da própria Universidade Mackenzie. Poucos dias depois, após intensa discussão em jornais e blogs, o jornal O Estado de São Paulo aumentava a polêmica mostrando que o ensino do criacionismo na educação fundamental não se limitava ao Mackenzie, já que outros colégios (confessionais ou não) o estavam adotando (08/12, Escolas adotam criacionismo em aulas de ciências). Já no dia 13/12, ante a polêmica desatada, o Ministério da Educação (MEC) manifestou sua posição oficial, através da secretária para Educação Básica, Maria do Pilar: "(o criacionismo) pode e deve ser discutido nas aulas de religião, como visão teológica, nunca nas aulas de ciências".

Como os leitores já sabem, criacionismo é a doutrina baseada no Gênese bíblico, segundo a qual o mundo foi criado por Deus a partir do nada, e todos os seres vivos tiveram criação independente e se mantêm biologicamente imutáveis.

No ano que comemoramos o 150° aniversário da publicação da teoria da evolução de Darwin e Russel, um debate como este pode parecer descabido, já que não faz sentido preferir ideias criacionistas à explicação científica da evolução das espécies, justamente em aulas de ciência.

Em esta coluna já abordamos o assunto da evolução. A ciência, embora discuta acaloradamente sobre alguns mecanismos moleculares da evolução, sobre se ela acontece gradualmente ou aos saltos, e sobre outros detalhes, aceita como um fato a ideia central contida na teoria: o ambiente, através de seleção natural ou sexual, seleciona indivíduos com determinadas características que foram passadas pelos pais ao acaso, devido a mutações ou à enorme diversidade genética existente no DNA.

Esta aceitação não está baseada na adoração a Darwin, mas devido à enorme quantidade de evidências que ao longo deste século e meio foram se somando para corroborar a teoria. De fato, cada nova informação, cada avanço na genética, no estudo dos fósseis, na biologia molecular, no estudo do comportamento animal, foi reforçando e refinando a ideia original de Darwin.

Assim, a posição do MEC é correta. O conteúdo programático das disciplinas científicas do ensino fundamental, médio e superior, deve conter informações que provêm da ciência. Deve lidar com teorias científicas. Uma teoria para ser científica obedece certos princípios básicos. Um deles é o da falseabilidade (ou refutabilidade). Para que uma teoria seja refutável ou falseável, em princípio será possível fazer uma observação ou fazer uma experiência física que tente mostrar que essa teoria é falsa.

Ou seja, a teoria deve permitir que façamos experimentos que a reprovem. Para explicar a origem das espécies, a única teoria que cumpre esses requisitos é a de Darwin, aperfeiçoada ao longo destes 150 anos.

Não existe outra. Qualquer teoria criacionista, mesmo fantasiada de pseudociência como o Design Inteligente, não é científica já que não podemos planejar um experimento que negue a existência de um criador (ou designer). Não podemos provar cientificamente se Deus existe ou não. Não sendo ciência, o criacionismo não pode ocupar espaço nas aulas de ciência.

Claro está que podemos discutir ideias criacionistas nas aulas de religião, história, filosofia, sociologia, entre outras. Sabemos que fica difícil falar sobre história da arte sem citar a bíblia.

Da mesma forma não podemos analisar nosso passado e presente de guerras, perseguições e massacres sem analisar o poder das religiões sobre as diferentes culturas. Assim, a bíblia é importante para entender e interpretar vários acontecimentos da nossa história.

Mas que a explicação bíblica (ou de qualquer outra religião) seja importante não quer dizer que seja correta. Ou a Terra tem 10 mil anos como conta a bíblia ou tem milhões, como diz a ciência. A ciência sustenta suas conclusões em observações que independem das nossas crenças, como a datação de rochas e sedimentos. Os criacionistas sustentam suas afirmações na fé.

Não sei como está a situação em Araçatuba e região. Seria interessante que esta Folha fizesse uma reportagem sobre o assunto tanto nas escolas públicas como particulares, confessionais ou não. Mas é muito importante que as Secretarias de Educação, diretores de escola, professores e pais estejam atentos sobre o que está sendo ensinado aos seus filhos.

Aulas de ciência e laboratórios científicos não são lugares para divulgar religião. Quem assim o fizer estará deseducando e enganando, e com isto, comprometendo o potencial reflexivo e crítico dos nossos filhos.
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