segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A dor e a Santa

Monge caminhando sobre o fogo na cerimônia
 xintoísta Hiwatari Matsuri, no Japão. 
Em um estudo publicado na revista científica Pain, pesquisadores da Universidade de Oxford verificaram que indivíduos católicos sentiam menos dor -ante um choque elétrico experimental- quando lhes era apresentada previamente uma imagem da Virgem Maria.

Até aí, o estudo não representaria muita novidade. Mais de uma vez assistimos devotos em transe religioso caminhar sobre brasas sem aparentemente sentir dor. A ciência já descobriu também que em situações de estresse agudo, como durante uma briga ou acidente, nosso cérebro é capaz de liberar no organismo substâncias químicas com grande capacidade analgésica, por isso denominadas endorfinas (morfinas internas). Mas até agora não existiam pistas concretas que explicassem por que, um sistema de crenças como a religião seria capaz de modular ou mesmo inibir a percepção de dor.

A particularidade do trabalho, liderado pela pesquisadora Katja Wiech, foi que pela primeira vez foi registrada a atividade cerebral dos voluntários do experimento.

No estudo, eram aplicados pequenos choques elétricos na mão de 12 indivíduos católicos praticantes e 12 ateus ou agnósticos enquanto se registrava sua atividade cerebral através de equipamento de ressonância magnética funcional (fMRI). Como era de se esperar, ante o choque elétrico áreas cerebrais relacionadas com o processamento da dor ficavam com maior atividade nos 24 voluntários.

Depois eram apresentadas imagens ora do rosto da Virgem Maria, ora de um rosto semelhante, mas sem conotação religiosa (ver fotos) imediatamente antes e durante o choque. Ante a imagem não religiosa, os resultados não se alteravam. 


Imagens apresentadas aos voluntários do estudo. À esquerda, imagem da Virgem Maria extraída da obra "Vergine annunciate" de Sassoferrato, e à direita a imagem não religiosa "Dama con l'ermellino" de Leonardo da Vinci.

 Todos os voluntários referiam o mesmo nível de dor e as áreas cerebrais ativadas eram as mesmas. Já quando era mostrada a imagem da Virgem Maria, enquanto o grupo de ateus/agnósticos não apresentava alterações, o grupo formado por católicos descreveu um nível de dor menos intenso e apresentou ativação cerebral diferente.

Neste grupo de voluntários, áreas do córtex pré-frontal ventrolateral direito ficaram também ativadas. 
Estas áreas cerebrais estão relacionadas com processos onde devemos alterar o significado emocional de objetos ou ações. Por exemplo, quando experimentamos uma fruta de gosto desagradável, depois de um tempo associamos a imagem da fruta a aspectos negativos. Só de ver a fruta novamente chegamos a sentir certa repugnância. 

Mas se posteriormente comemos a fruta e verificamos que o gosto mudou e desta vez nos agrada (talvez a anterior estivesse estragada ou verde), somos capazes de alterar nosso ponto de vista e agora a imagem da fruta não provoca repugnância e sim apetite. Pacientes com lesão no córtex pré-frontal ventral, além de outras alterações comportamentais, não conseguem fazer essa mudança e continuam persistindo em condutas que não são mais as corretas ou úteis para resolver determinada situação.

Para os autores do estudo, a ativação desta área cerebral em indivíduos religiosos poderia iniciar uma série de eventos que, como durante as situações de estresse agudo, levaria a uma liberação massiva de endorfinas e com isso a uma diminuição na percepção da dor.

Mas a hipótese na qual eles mais apostam -e que não exclui a anterior- é que nos indivíduos religiosos (pelo menos em alguns) a prévia visualização da imagem levaria a uma reavaliação do valor emocional da experiência dolorosa.

Em outras palavras, como conseqüência de um profundo estado de devoção induzido pela imagem da Virgem Maria, a dor dos católicos não estaria mais associada ao sofrimento e passaria assim a ser perfeitamente suportável e, em casos extremos, apreciada como uma benção. Estudo anterior já demonstrara que a região ventrolateral do córtex pré-frontal direito parece ser uma região fundamental na analgesia provocada pelo efeito placebo.

À direita, região ventrolateral do córtex pré-frontal direito ativada como consequência do efeito placebo.
 Esta região é a mesma que apresentou maior atividade no fenômeno de analgesia "religiosa".

 Claro está que muita pesquisa será ainda necessária para reforçar essa hipótese, mas caso seja válida estaremos dando um grande passo para compreender a base biológica por trás da aparente insensibilidade à dor durante algumas experiências religiosas.

Isto poderia permitir que o mesmo processo biológico desencadeado pela fé pudesse ser desencadeado tanto por fármacos que viessem a ativar essas áreas cerebrais, como através de terapias psicológicas baseadas na indução de estados mentais semelhantes a aqueles produzidos pela religião, só que em indivíduos sem esse tipo de crenças.

Fontes: 
An fMRI study measuring analgesia enhanced by religion as a belief system. Katja Wiech e cols., Pain (2008), doi:10.1016/ j.pain.2008.07.030
The neural correlates of placebo effects: A disruption account. Lieberman, M. D. e cols. NeuroImage, 22, 447-455.(2004).

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