sábado, 31 de março de 2012

A inútil busca pela felicidade eterna

Felicidade virou objeto de consumo. Ambicionamos ser constantemente felizes como mostram os anúncios de televisão onde são todos jovens, bonitos, extrovertidos e sempre sorridentes. Nossa realidade, claro, é bem diferente. A juventude desaparece inexoravelmente, pouquíssimos somos bonitos, nem todos são extrovertidos e isso de estar felizes sempre pode ser sintoma de uma doença denominada mania.

Embora a experiência individual de felicidade seja um fenômeno complexo, vários de seus componentes como o prazer, conforto, satisfação, amparo, realização, etc., são o resultado secundário da ação de quatro substâncias químicas que nosso cérebro produz: endorfinas, dopamina, ocitocina e serotonina. Sua produção e liberação em áreas cerebrais específicas é um processo extremamente preciso e complexo, fruto de milhões de anos de evolução. Ao nos dar prazer, elas nos motivam para empreender ações e comportamentos que são fundamentais para nossa sobrevivência e para a reprodução. Como prêmio de salvar nossa própria pele e espalhar nossos genes, o cérebro recompensa com emoções positivas e orgasmos.

Nossos momentos mais felizes coincidem quando o nível de um desses quatros neurotransmissores –ou mais de um deles- está em seu pico mais alto. Nosso cérebro capta então que esse nível está elevado, confere se a ação primária do neurotransmissor foi desempenhada e imediatamente começa a remover o excesso dessas substâncias (recaptação). Ao fazer isto, a sensação de felicidade desaparece.

O problema é que esta descida natural de nosso estado anímico não condiz com a imagem de felicidade eterna à qual acreditamos ter direito. A volta ao estado normal é então confundida com “in-felicidade”, que confundimos por sua vez com tristeza e finalmente a associamos –para alegria da indústria farmacêutica- a uma profunda depressão.



Figura 1 - Microfotografia de dois neurônios corados com um marcador fluorescente. O quadrado branco indica o local onde o neurônio A entra em contato com o neurônio B. As setas vermelhas sinalizam o caminho da informação (de A para B). O local de contato entre os neurônios (sinapse) dentro do quadrado está ampliada (e esquematizada) na figura abaixo. 






Figura 2 - Esquema da sinapse indicada na figura 1. No neurônio A (denominado pré-sináptico porque está antes da sinapse no sentido do caminho da informação) encontramos organelas como as mitocôndrias (1), que fornecem energia à célula, e vesículas (2) contendo algum dos neurotransmissores citados no texto (neste caso, serotonina). No momento oportuno (7), as vesículas são liberadas na fenda sináptica (4) e acoplam com os receptores localizados no neurônio pós-sináptico (5) iniciando uma série de ações. O excesso de serotonina é recaptado pelo neurônio A (8). Medicamentos como o Prozac inibem esta recaptação (8), permitindo que a serotonina permaneça mais tempo na fenda sináptica, prolongando seus efeitos.


Obviamente, depressão tem pouco ou nada a ver com isso. Depressão é uma doença que só pode ser diagnosticada eficientemente por um psiquiatra, e dos bons. Os altos e baixos de nosso humor fazem parte de um processo natural de equilíbrio de neurotransmissores associado com os problemas normais do dia a dia.

Um exemplo típico deste processo é o da endorfina. Como o nome indica -morfina interna- sua função principal em todos os mamíferos é eliminar a dor e gerar um estado de euforia. Por causa dessas propriedades, ela é liberada em situações onde ficar paralisado por causa da dor pode ser a pior das soluções. Imaginemos estar em meio a uma briga feroz (podemos também imaginar o antílope lutando para escapar das garras do leão). Se a dor provocada por uma ferida nos paralisa é bem provável que nosso oponente aproveite esse momento para dar o golpe definitivo. É nessa hora que a endorfina entra em ação. Pela sua ação a dor é suprimida e ao mesmo tempo sentimos a força necessária para continuar a luta ou, se for o caso, fugir. Mas assim que estamos a salvo não faz mais sentido continuar com um cérebro encharcado de endorfina. Precisamos sentir a dor das feridas para dar a elas uma atenção prioritária. Claro que os efeitos eufóricos também acabam. Essa não é mesmo a hora de estar feliz.



Nesta hora a gazela não pode parar para cuidar suas feridas.
A endorfina inibe a dor e dá forças para continuar a corrida.


Uma história parecida nos contam os outros neurotransmissores. Os níveis de dopamina, por exemplo, sobem e ativam nosso sistema de recompensa quando empreendemos ações que nos levam a saciar nossas necessidades básicas, como alimentação e sexo. Depois que foram atendidas seu nível decai. Caso contrário sentiríamos o bem-estar gerado pelo sistema de recompensa mesmo quando não fazemos nada para suprir nossas necessidades. 
Não teríamos a motivação necessária para iniciar tarefas relacionadas com nossa sobrevivência individual e da nossa espécie, o que seria um péssimo negócio (curiosamente, as drogas pesadas agem justamente nesse sistema cerebral de recompensa, substituindo nossos desejos naturais de nos alimentar, saciar nossa sede e procriar pelo único objetivo de consumir a droga).


Neste quarteto, a ação da ocitocina é fundamental para estabelecer laços de confiança e afeto duradouros. Durante a amamentação ocitocina é liberada no cérebro da mãe e do filhote, reforçando os laços familiares, o comportamento materno e gerando a agradável sensação de amparo. Também liberamos ocitocina ao receber uma massagem e durante o orgasmo o que cria laços entre parceiros sexuais. Quanto mais sofisticado o cérebro do mamífero, mais complexas são as alianças sociais. Um cérebro constantemente encharcado de ocitocina nos levaria a confiar e estabelecer laços afetivos com todos indistintamente. Pode parecer até bonito, mas nas duras condições de sobrevivência impostas em milhões de anos pela seleção natural, isto seria inviável.

A compreensão destes mecanismos nos permite lidar de forma mais tranquila com nossos estados anímicos. Analisar nossos sentimentos de fundo, reconhecer se existem causas reais quando eles são negativos, relacioná-los com processos químicos normais de nosso cérebro -processos que compartilhamos com todos os mamíferos-, pode ser um passo importante para iniciar novos comportamentos recompensadores. Mas cuidado com essa necessidade constante de colocar a toda hora novas e mais difíceis metas para provocar picos dopaminérgicos. Não force a barra. Muitas vezes a melhor coisa a fazer é, simplesmente, não fazer absolutamente nada.




Leitura recomendada

Towards a functional neuroanatomy of pleasure and happinessKringelbach MLBerridge KCTrends Cogn Sci. 2009 Nov;13(11):479-87. Epub 2009 Sep 24.

Meet Your Happy Chemicals: Dopamine, Endorphin, Oxytocin, Serotonin.  Breuning, LG, 2012. 



6 comentários:

  1. Parabéns pelo texto!! Gostei muito. Não conheço nada sobre o assunto, mas achei muito interessante e de fácil entendimento!
    Com o passar dos anos, será que estamos fazendo mais uso da endorfina?
    Abraço!

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  2. Obrigado Jonas. Esse quarteto é incrível mesmo, e toma conta de nosso cérebro mamífero. Felizmente (ou não) nosso córtex cerebral geralmente tem a última palavra e pode dar uma maneirada nessa ditadura instintiva. Acho que fazemos uso de endorfinas constantemente. Nosso sistema de modulação da dor está sempre trabalhando para que cheguem a nossa consciência níveis de nocicepção adequados. Mas muitas vezes esse sistema desregula. Aí podem aparecer quadros de dor crônica não relacionada com a existência de lesão. Grande área de pesquisa essa.
    Abç!

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  3. Estava fazendo um trabalho relacionado ao sistema de recompensa e parei aqui, e adorei. Sensacional, isto é assunto que todas pessoas deveriam ter conhecimento. Talvez uma reportagem no ''Fantástico'' a respeito seria incrivel. Seria... pq acho que a imprensa nao quer alertar seus consumidores deste processo natural do ser humano. Mais uma vez parabéns

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  4. Amei o artigo, claro e empolgante. Adoro ler sobre esse tema. As informações foram esclarecedoras. Uma dúvida: tenho um baixo limiar de dor.Isso tem alguma relação com a pouca produção desse quarteto em meu cérebro, em especial a endorfina?
    Késia - psicóloga

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    1. Obrigado Késia. A dor é uma percepção, assim, uma experiência pessoal e subjetiva. Teu limiar à dor pode variar muito dependendo do contexto tb. Se vc tá preocupada com a origem da dor, vaio doer mais, se não menos. Se está ansiosa, idem. E sim, a liberação de endorfinas pode influenciar, lembrando que essa liberação pode ir variando de um momento para outro. Em estresse (uma briga, por exemplo) o nível de endorfina aumenta para não ficarmos paralisados pela dor caso sejamos feridos. Obrigado pela visita! (Olha este artigo http://ciencia.folhadaregiao.com.br/2012/02/dor-e-santa.html )

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  5. Meu caro Roelf, o ser humano rejeita a dor e quer, sempre que possível, ter prazer.. As circunstâncias da vida lhe trazem dor, ausência de dor e prazer.. Tudo depende de como se observa os fatos. Essa percepção é que precisa ser trabalhada. As questões químicas são consequência. Enganar nosso cérebro não afasta a origem daquilo que nos causa dor e nem aproxima aquilo que nos dá prazer. Sabedoria É QUE É TUDO, meu caro!
    Obs: Quando se fala de ser humano, não se deve fechar o assunto com apenas uma teoria... Fala-se de multidisciplinas, ou seja, existem diversos assuntos e fatores que devem ser levados em consideração, haja vista que a seleção natural não revela o COMPLEXO mecanismo que o cérebro humano está mergulhado. Podem até tentar...
    Valeu!
    Augusto Ferreira

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