sábado, 3 de março de 2012

Uma anomalia chamada seios

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Chamar os seios de anomalia pode parecer uma afronta. Seios exercem um enorme fascínio sobre os homens, ao menos sobre os heterossexuais. Mas, por quê? E mais, por que as mulheres têm seios e não apenas mamas?

Para começar a entender o motivo pelo qual muitos cientistas acham que os seios são uma anomalia evolutiva, vale a pena analisar o que acontece com os outros animais.

A existência de mamas é, obviamente, uma caraterística de todos os mamíferos. Em todos, elas têm a função de produzir leite para alimentar a prole. Assim, sua estrutura é basicamente composta de tecido glandular. Esse tecido aumenta de tamanho apenas próximo e durante o período de lactação. Quando a fêmea deixa de amamentar ele regride de forma que suas mamas ficam aproximadamente do mesmo tamanho que as do macho. Isto pode ser visto em praticamente todos os mamíferos, incluindo aqui os grandes primatas não humanos (gorilas, bonobos, chimpanzés e orangotangos). Menos em nossa espécie.





O tórax desta gorila fêmea adulta pouco se diferencia em relação ao macho.


As mamas de nossas fêmeas possuem, além do tecido glandular, quantidades abundantes de tecido adiposo e tecido conjuntivo. Ao contrário dos outros mamíferos, o crescimento dos seios começa na puberdade, sem nenhuma relação com a amamentação. Embora durante a amamentação aumentem de tamanho, finalizado esse período continuam bem maiores que as mamas do macho. Não há nenhuma relação confirmada entre o tamanho das mamas e a quantidade ou qualidade do leite produzido. Seios grandes indicam fundamentalmente seios com um maior conteúdo de gordura. Mulheres anoréxicas ou maratonistas profissionais, onde há uma queda acentuada na quantidade geral de gordura pelo corpo têm uma redução acentuada do tamanho e consistência dos seios. Mulheres que fazem regime severo sabem disso.



O desenho mostra o aspecto interno da mama de uma mulher adulta.
Comparar a quantidade de tecido glandular (produtor de leite) na cor roxa em relação
ao tecido adiposo (amarelo) e conjuntivo (bege).


Tudo indica então que as mamas adquiriram em nossa espécie outra função além daquela básica de amamentar os filhotes. Qual seria? De acordo com estudos evolutivos, mamas sempre volumosas são um ornamento selecionado por processos de seleção sexual, algo análogo à vistosa cauda do pavão. Daí nossa atração atávica.

A evolução desse traço parece ter sido bem recente, originando-se provavelmente depois que alguns hominídeos adquiriram uma postura ereta, o que aconteceu há uns 4,2 milhões de anos AEC. Com o bipedalismo, o pênis, clitóris, mamas, cintura e quadril ficaram expostos e tornaram-se alvos potenciais da seleção sexual. O mesmo aconteceu com a agora volumosa região glútea. Já vimos que este processo afetou também a evolução do pênis, cujo tamanho relativamente avantajado parece ter sido resultado da seleção da fêmea. Da mesma forma, é bem provável que machos tenham determinado mediante processos seletivos a morfologia externa dessas estruturas em suas parceiras.

Mas por que seios sempre volumosos poderiam representar uma vantagem evolutiva? Ao que parece, durante o pleistoceno -período geológico onde os humanos evoluímos- seios volumosos poderiam servir como sinalizadores de juventude, saúde geral e inteligência, características que tornariam a fêmea desejável desde o ponto de vista reprodutivo. De fato, seios grandes dão boas dicas da idade. A ação da gravidade e as repetidas gestações exercem um efeito já bem conhecido por todos: os seios “caem”. Assim, seios empinados seriam um claro sinal de juventude que não passaria inadvertido pelos machos.

Seios volumosos também dariam importantes pistas sobre o estado de saúde da fêmea e sua capacidade de enfrentar as adversidades do ambiente. E isto parece não estar relacionado com o tamanho dos seios, e sim com sua simetria. A bilateralidade das estruturas do nosso corpo, como braços, dedos, seios e estruturas da face está determinada em nossos genes. A ordem genética é criar estruturas bilaterais idênticas. Mas fatores ambientais como nutrição, doença, contaminação do ambiente, estresse, etc., acabam interferindo nesse processo provocando assimetrias (em biologia, isto é denominado assimetria flutuante). Estruturas assimétricas indicam que a ação dos genes não foi suficientemente robusta a ponto de contornar esses fatores. Ao contrário, altos níveis de simetria (simetria absoluta é muito raro) é sinal de uma boa capacidade do indivíduo resistir às ameaças ambientais.

A escolha de indivíduos com elevados níveis de simetria foi comprovada em testes de atração facial. Quando confrontados a fotografias, tanto homens quanto mulheres acham mais atraentes faces simétricas. Por outra parte, mulheres com seios simétricos têm maior índice de fertilidade.

Finalmente, seios volumosos (e quadril largo) também seriam um sinal de acúmulo de gordura. Nas duras condições das savanas africanas do pleistoceno, este acúmulo indicaria, em parte, uma maior possibilidade das fêmeas enfrentarem períodos com pouca oferta alimentar e ao mesmo tempo uma habilidade comparativamente maior para conseguir alimentos, todas características vantajosas desde o ponto de vista da sobrevivência.

O aumento comparativo do tamanho das mamas nas fêmeas humanas veio acompanhado de outras caraterísticas. Houve um deslocamento do tecido adiposo no abdome feminino. Gorilas e chimpanzés fêmeas acumulam gordura na cintura e no quadril, de forma semelhante ao que acontece em machos humanos. Já a silhueta de fêmeas humanas jovens e férteis apresenta forma de ampulheta, com uma cintura fina e medidas maiores na região do quadril e seios. Esta silhueta permitiria mesmo a distância e em condições de pouca luminosidade –o que deveria ser comum nas savanas africanas por onde nossos ancestrais viveram por centenas de milhares de anos- que fêmeas férteis fossem facilmente distinguidas de machos e mesmo de fêmeas idosas, onde a silhueta já não guarda essas proporções.





Ao longo da história, várias culturas em diversas regiões do planeta reverenciaram
 a silhueta feminina em forma de ampulheta. Nesta estátua, a deusa hindu Parvati
 tem essa forma exagerada, provavelmente enfatizando sua fertilidade.


Silhueta apropriada, nádegas arredondadas, seios simétricos e empinados sinalizam fêmeas jovens, férteis e saudáveis, aptas assim para gerar descendentes bem adaptados . Um material em tanto sobre o qual toda a seleção guiada pelo sexo pudesse agir durante centenas de milhares de anos e provocasse ainda nos politicamente corretos dias de hoje algumas situações constrangedoras, como a do filme abaixo.




Fontes:


Moller, AP, Soler, M and Thornhill R (1995) Breast asymmetry, sexual selection, and human reproductive success. Ethology and Sociobiology. 16 (3): 207-219
Zaidel, DW e cols., (2005) Appearance of symmetry, beauty, and health in human faces. Brain and Cognition 57 (2005) 261–263
Jahme C., Breast size: a human anomaly; The Guardian (Science), 14/05/2010.


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