domingo, 27 de maio de 2012

Quanto mais pensamos, menos acreditamos

Foto: Nils Jorgensen/Rex Features
Tente resolver este problema: um taco de beisebol e uma bola custam $110,00 e o taco custa $100,00 a mais que a bola. Quanto custa a bola? Se -como a grande maioria- rapidamente concluiu que a bola custa $10,00, provavelmente você é religioso. Mas se respondeu $5, provavelmente você não tem crenças religiosas.

Este e outros testes foram utilizados por um grupo de pesquisadores canadenses interessados em estudar as bases cognitivas da religiosidade. O estudo foi publicado no mês passado na prestigiosa revista Science. Mas antes de tentar explicar a “mágica” por trás desses resultados -e dessas estranhas conclusões- peço ao leitor um pouco de paciência para explicar dois aspectos importantes da sua base conceitual.

1) Já faz algum tempo estudiosos do cérebro tentam elucidar os mecanismos que nos levam à tomada de decisão. Uma das teorias -conhecida como teoria do processamento dual do pensamento humano- indica que em nosso cérebro ocorrem dois processos de análise, diferentes mas interconectados. O primeiro, denominado Sistema 1, é instintivo, intuitivo e aparentemente o compartilhamos com outros animais. De acordo com Daniel Kahneman, um dos idealizadores da teoria, esse sistema “é escravo das emoções, atuando rápida e automaticamente, com pequeno ou nenhum esforço, e sem a percepção de um controle voluntário”. Já o Sistema 2 utiliza o pensamento analítico e é uma conquista evolutiva mais recente, exclusiva dos humanos, não é intuitivo e utiliza o raciocínio lógico para tomar decisões.




A ideia geocêntrica de Aristóteles e Ptolomeu, segundo a qual a Terra seria estática e os outros astros orbitariam ao redor dela, é típica do processamento intuitivo do Sistema 1 (ver no texto). A intuição é apoiada pela informação que nos chega pelos nossos sentidos e pelas nossas concepções mais arraigadas. Mas está errada. Essa visão aristotélica predominou até o século XV quando Nicolau Copérnico fez ressurgir a teoria heliocêntrica de Aristarco de Samos, fruto do pensamento analítico.

Os dois sistemas convivem em nosso cérebro, mas cada indivíduo parece ter o predomínio de um deles. Pela sua base instintiva o Sistema 1 aparece espontaneamente e nos leva a decidir rapidamente com as poucas pistas que temos. Embora tenha desempenhado um papel fundamental em nossa história evolutiva, ele falha bastante quando temos que decidir e analisar coisas complexas (ver a figura acima). O exercício colocado no início deste texto é um exemplo. Utilizando o intuitivo Sistema 1 respondemos $10, e claro, erramos. Poucos tiveram o impulso de verificar essa intuição, transformar a dúvida em uma equação matemática, e verificar que a resposta correta é $5.

2) Também já faz algum tempo os cientistas verificaram que atividades que estimulam o raciocínio analítico –como calcular, refletir, analisar, ordenar sequências de palavras – executadas previamente à realização de testes cognitivos complexos melhoram o desempenho nesses testes; e mais, o processamento analítico subjacente a essas atividades pode até inibir o processamento intuitivo, como se o Sistema 2 fosse agora capaz de bloquear o instintivo Sistema1.

Mas o leitor deve estar se perguntando, que tem a ver isto com ser religioso ou não? De acordo com os pesquisadores, a crença em deuses é composta na realidade de várias presunções intuitivas básicas do Sistema 1, que abrangem conceitos teológicos, dualismo mente-corpo, imortalidade da consciência entre outros. Assim, é de se esperar uma maior religiosidade em indivíduos onde o Sistema 1 é preponderante e uma maior descrença religiosa em indivíduos onde o Sistema 2 comanda.

No estudo da revista Science os pesquisadores verificaram inicialmente que voluntários que respondiam corretamente testes como os colocados no início deste artigo mostravam um menor nível de religiosidade*, confirmando a relação entre fé religiosa e Sistema 1, e descrença religiosa e Sistema 2. 


No estudo canadense foi solicitado aos voluntários que visualizassem a imagem de O Pensador (de Rodin, à esquerda)  ou da escultura O Discóbolo. Observar que as imagens são semelhantes, mas desencadeiam processos cognitivos diferentes. Estudos anteriores já tinham comprovado que a  contemplação de O Pensador  melhorava a capacidade para realizar testes que exigissem raciocínio dedutivo (do tipo  "todos os homens são mortais; os gregos são homens; logo, os gregos são mortais"). No presente estudo, a observação de O Pensador aumentou significativamente a descrença religiosa.


Posteriormente analisaram se a realização prévia de atividades que estimulam o raciocínio analítico (como a observação da figura acima entre outras), era capaz de alterar o nível de religiosidade. Este grupo foi comparado com o grupo controle, que respondeu os testes de religiosidade sem a realização prévia de atividades analíticas. Os pesquisadores confirmaram que de fato, o nível de religiosidade caía significativamente em todos os experimentos realizados.

De acordo com os autores, quando as pessoas são encorajadas a pensar analiticamente bloqueiam o pensamento intuitivo que é a base da crença religiosa. Talvez isto possa justificar o fato de mais de 90% dos grandes cientistas serem ateus ou agnósticos e que apenas 15% dos filósofos atuais se considerem teístas.

Prevendo a saraivada de críticas que o estudo iria despertar, os autores tentaram relativizar seus resultados o que, aliás, é sempre importante. Não entram no mérito de julgar se o Sistema 1 é melhor ou pior que o 2 , cada sistema provoca resultados diferentes e para cada resultado temos um preço a pagar 
(tenho minhas dúvidas pessoais sobre isto). Também não afirmam que a descrença religiosa esteja apenas baseada na predominância de um dos sistemas. O grau de crença ou descrença pode estar relacionado com aspectos culturais e mesmo com o grau de bem-estar social que o Estado oferece. 

Também, como outros já apontaram, devemos ter muito cuidado ao generalizar estes resultados. É difícil acreditar que filósofos da religião como Tomás de Aquino, David Hume, Emanuel Kant ou George Berkeley seriam menos religiosos caso usassem mais o pensamento analítico.

Mas o estudo é importante já que dá uma base biológica para diferenças que têm sido tratadas com muita intolerância, tanto por parte dos crentes como dos não crentes. Quem sabe, como o Dr. Dráuzio Varella comenta em um recente artigo defendendo seu ateísmo “Não se trata de opção ideológica: o ateu não acredita simplesmente porque não consegue. O mesmo mecanismo intelectual que leva alguém a crer leva outro a desacreditar.”

Vamos respeitar então. Sem demonizar.



* O nível de religiosidade foi medido pela escolha espontânea por parte dos voluntários de frases que mais se ajustassem às suas crenças individuais, como "Minha fé envolve toda minha vida", "Na minha vida sinto a presença do Divino", "Minha fé por vezes restringe minhas ações", "Embora eu seja uma pessoa religiosa, não permito que a religião influencie meus assuntos cotidianos", "Quando as pessoas rezam, estão apenas falando consigo mesmas", entre outras.

Fonte: Analytic Thinking Promotes Religious Disbelief. Will M. Gervais, Ara Norenzayan; Science 27 April 2012: Vol. 336 no. 6080 pp. 493-496 DOI: 10.1126/science.1215647

9 comentários:

  1. Gostei bastante da publicação professor !

    ResponderExcluir
  2. Única coisa ruim é que sou ateu, mas respondi de forma errada o problema matemático.

    ResponderExcluir
  3. Achei bastante falho o método que mede o nível de religiosidade. Não acredito que tais perguntas e frases como: "Minha fé envolve toda minha vida" possam realmente mensurar o nível de fé de alguém. A questão é que todos temos o intuitivo e o analítico, um não exclui o outro. Acredito que pelo o que foi exposto, O Sistema 2, também deve indicar pessoas com maior dificuldade de amar, pois uma vez que se põe a análise como primeiro ato, se deixa o sentimento em segundo plano.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que eu seja capaz de compreender que o amor é biologicamente relacionado com reações químicas em meu cérebro, não significa que o amor que sinto seja maior ou menor. Sinto o mesmo amor que qualquer um. E, de fato, não preciso provar cientificamente que amo meus filhos, por exemplo. A gente sente e pronto. Apenas alguns queremos entender que é isso e de onde surge, e hoje a ciência tem ferramentas bem legais para investigar.

      Excluir
    2. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
    3. Dizer que o amor é uma reação química é como dizer que a liberdade é uma reação química.

      Excluir
    4. O comentário anterior foi removido por erros na digitação. O comentário melhor formulado seria :
      Se o amor é uma reação química, a liberdade também seria uma reação química.

      Excluir
  4. Quanto mais pensamos (estudamos), mais questionamos aquilo que vemos, percebemos e aprendemos!
    Por exemplo: Antes eu ia na linha de Popper. Agora, estou mais para Feyerabend.
    O engraçado é que que Popper o influenciou muito no começo da sua jornada pelo conhecimento e pensamento filosófico-científico, até a sua "virada".
    Valeu!
    Augusto Ferreira

    ResponderExcluir

Ocorreu um erro neste gadget