sábado, 18 de agosto de 2012

A boa vida dos bonobos (e o que eles podem nos ensinar)

Sexo bonobo. Fotografia extraída do site da
pesquisadora Vanessa Woods.
Em um período da nossa história geológica conhecida como Mioceno começou a se diferenciar evolutivamente um grupo de primatas que daria origem – em um longo processo de 15 milhões de anos - aos gorilas, chimpanzés, humanos, bonobos e orangotangos.
Como muitos já leram por aí, é enorme a semelhança genética que mantemos com esses primos. Compartilhamos com alguns deles 98,7% do nosso DNA
Para mim sempre foi fascinante a história que esses dados genéticos e os associados ao estudo do seu comportamento nos contam sobre o que somos, sobre a forma como agimos e pensamos. E analisando tudo isso alguns pesquisadores chegaram a questionar, provocativamente, se nós humanos não tomamos o caminho errado em nossa caminhada evolutiva.
Essa constatação surge quando analisamos a forma como os grandes primatas nos relacionamos, como lidamos com nossos conflitos, como tratamos aquilo que nos dá prazer. Em todos esses quesitos, os bonobos dão um banho de sabedoria e bom viver no restante da família símia. Já escrevemos sobre o assunto nesta coluna quando tratamos da história evolutiva do pênis

Mas qual a grande diferença entre animais tão semelhantes? Bom, evidentemente nosso cérebro, graças provavelmente a algumas mutações em genes responsáveis pela organização neural, deu o pulo cognitivo que podemos hoje testemunhar e estudar. Mas em termos de relacionamento, não diferimos muito dos gorilas e dos agressivos chimpanzés. Somos proclives à violência, à territorialidade, ao rapto, ao estupro, à guerra, à submissão pela força, mesmo compartilhando estruturas cerebrais que nos permitem ter empatia. Criamos uma sociedade competitiva, estressante e machista, que costuma associar prazer com algo ruim e pecaminoso. Tudo o contrário da forma “bonoba” de viver a vida. 

Um dos maiores estudiosos do comportamento desses primatas, o holandês Frans de Waal, associou definitivamente os bonobos com a expressão “faça amor, não faça a guerra”. Ao comparar os bonobos com seus quase irmãos chimpanzés (os bonobos são também conhecidos como chimpanzés-anões) observou que “enquanto chimpanzés usam violência para obter sexo, bonobos usam o sexo para evitar a violência”. 

Mas o que diferencia realmente os bonobos do resto dos grandes macacos? A principal diferença parece estar em que entre eles, e só entre eles, as fêmeas assumiram o comando, e criaram uma sociedade pacífica onde a guerra não existe e o sexo é tão comum quanto um amistoso aperto de mãos. Promíscuo? Sim, talvez, mas pelas evidências que temos todos os primatas somos. E os bonobos parecem ter descoberto que entre a promiscuidade e a violência a primeira é infinitamente melhor. 

Tudo o que diz respeito à forma como os bonobos se organizam em sociedade é digno de ser estudado. Eles levaram o sexo a um patamar superior aos dos outros mamíferos. Na quase totalidade do reino animal, o objetivo do sexo é a procriação, e o prazer que ele proporciona apenas uma recompensa química para que os animais procriem e perpetuem a espécie. Já os humanos modernos utilizamos o sexo de forma fundamentalmente recreativa, para obter um prazer individual ou a dois. Ao que parece, os bonobos transcendem esse limite e utilizam o sexo para criar laços sociais baseados no companheirismo, na camaradagem e na colaboração, conforme pode ser observado nos textos de Frans de Waal e nos vídeos indicados ao final deste post. 

Infelizmente, seus primos humanos estão conseguindo a proeza de eliminar essa espécie, hoje resumida a uns 10.000 indivíduos sobrevivendo em um único país: a República Democrática do Congo, na África. Caso consigamos a humana façanha de acabar com eles, não teremos mais condições de estudar animais que aprenderam a resolver seus problemas com níveis mínimos de violência, animais que parecem possuir o que há de melhor em nós mesmos.



O que os bonobos podem nos ensinar sobre amor e sexo?


Os estudos de Frans de Waal e de outros que se debruçaram para entender a organização social destes primos tão particulares, alimentaram uma série de artigos e livros sobre a vida dos bonobos e sua relação com nossa própria organização social e sexualidade. Um dos mais lidos atualmente é “Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality”, de Christopher Ryan e Cacilda Jethá (sem tradução ao português, mas sim em espanhol: “En el principio era el sexo”).
Recentemente, a neurocientista e editora do Huffington Post, Cara Santa Maria, solicitou a Christopher Ryan, em ocasião do dia dos namorados, que este citasse sete dicas que os bonobos poderiam nos dar sobre amor e sexo. Quem quiser ler o original em inglês pode clicar no link acima. 
Aqui vai uma tradução aproximada:

1. Mais sexo = menos conflito. Como o grande primatologista Frans de Waal comenta "chimpanzés usam violência para conseguir sexo, enquanto os bonobos usam o sexo para evitar a violência." Enquanto os chimpanzés se maltratam de várias formas (guerras, estupro, homicídio, infanticídio, etc.) nunca houve um único caso observado de qualquer uma dessas formas de agressão entre os bonobos, que são muito mais sexy que os chimpanzés. Como James Prescott demonstra em uma meta-análise com todos os dados antropológicos disponíveis, a conexão entre sexualidade menos restritiva e menos conflitos geralmente vale também para as sociedades humanas.

2. O feminismo pode ser muito sexy. Quando as fêmeas estão no comando, todo mundo vive melhor (incluindo os machos). Ao contrário dos chimpanzés, onde os machos dão as cartas, entre os bonobos são elas que mandam, com muito melhor qualidade de vida para todos os envolvidos (ver item 1).


3. Irmandade feminina é poderosa. Embora bonobos fêmeas sejam cerca de 20% menores que os machos – relação semelhante à observada entre chimpanzés e seres humanos- elas dominam os machos mediante sua união. Se um macho sair da linha e perturbar uma fêmea, TODAS as outras se unirão contra ele. Esta solidariedade fraternal, combinada com muito sexo, tende a manter os machos se comportando educadamente.


4. Ciúme não é romântico. Embora bonobos sejam capazes de sentir sentimentos direcionados especificamente a um indivíduo, eles não se preocupam muito em controlar a vida sexual do seu parceiro. Nem parece gostarem de fofocas... 


5. Ha promessa de promiscuidade. Todo o sexo casual entre bonobos é sem dúvida uma grande parte do que os colocou entre os mais inteligentes de todos os primatas. Até os humanos chegarem para estragar festa, bonobos desfrutavam muito com sua qualidade de vida, baixos níveis de estresse, e grande interação social. Na verdade, das muitas espécies de primatas sociais que vivem em grupos compostos de muitos machos, não existe uma única espécie sexualmente monógama. Os mamíferos mais inteligentes - humanos, chimpanzés, bonobos e golfinhos- são promíscuos. 


6. O bom sexo não precisa incluir sempre um orgasmo, e sexo "casual" não significa necessariamente "vazio" ou "barato". A maioria das interações sexuais entre bonobos não são nada mais do que uma sensação rápida, uma bolinação, uma penetração, um “aperto de mãos bonobo”, conforme narra Vanessa Woods em seu ótimo livro. Mas os bonobos são muito românticos: como os seres humanos, eles se beijam, seguram as mãos (e os pés!), e olham nos olhos um do outro enquanto fazem sexo.


7. Pelo menos para os bonobos, sexo e comida combinam melhor que sexo e casamento. Nada incentiva mais o início de uma orgia bonoba do que um banquete. Dê a um grupo de bonobos uma boa refeição e eles partirão para um sexo rápido antes de compartilhar educadamente a comida. Não há necessidade de partir para a briga sobre os restos como um grosseiro bando de chimpanzés!

Quem quiser assistir vídeos sobre a vida dos bonobos, recomendamos o site da pesquisadora Vanessa Woods: http://www.bonobohandshake.com/
Sobre a organização social dos primatas (incluindo os humanos) recomendo o ótimo "Eu, primata. - Por que somos como somos" de Frans de Waal.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Teísmo, ateísmo e outros ismos

Dias atrás, numa entrevista concedida nesta Folha ao professor Arthur Leandro Lopes me foi pedida uma classificação do meu “status religioso”. Sempre fico na dúvida sobre a oportunidade de dar essas definições pessoais, fundamentalmente porque ao nos rotular atraímos todas as opiniões injustas e preconceituosas ainda associadas a esses rótulos (esta dúvida não é apenas minha como pode ser observado neste ótimo artigo de Michael Shermer).

Existem várias definições e considerações filosóficas sobre ateísmo e agnosticismo. Como não sou da área (filosofia) prefiro conhecer as mais relevantes e optar pela que mais me satisfaz. Assim, o que vem abaixo é um apanhado sobre o qual o leitor poderá concordar ou não (veja neste vídeo http://www.youtube.com/watch?v=LVkklTe77Ww uma explicação bem humorada e com muitos links para referências adicionais).


Agnosticismo (termo criado por Thomas Huxley no século 19) se relaciona com saber/conhecer. Como cientista considero que a melhor forma de conhecimento é a que nos proporciona a ciência. Não é perfeita, claro, é apenas a melhor que temos, fundamentalmente porque incorpora um mecanismo de detecção de erros que outras formas de conhecimento não possuem. Mas a ciência não tem uma fórmula que permita saber se deuses existem ou não. Não ha experimento possível já que a teoria "Deus" não é falseável, o que significa que não posso provar que esteja errada. Sem esse requisito ela não é mais uma teoria científica. Assim, eu me considero agnóstico porque não posso saber se deuses existem ou não, utilizando as fontes de conhecimento que eu disponho e aceito. 


É a Thomas Henry Huxley (1825 — 1895), biólogo britânico que ficou conhecido como "O Buldogue de Darwin" por ser o principal defensor público da teoria da evolução,  a quem foi creditada a utilização pela primeira vez do termo agnosticismo, conforme texto abaixo.


" When I reached intellectual maturity and began to ask myself whether I was an atheist, a theist, or a pantheist…I found that the more I learned and reflected, the less ready was the answer. They [believers] were quite sure they had attained a certain ‘gnosis,’—had, more or less successfully, solved the problem of existence; while I was quite sure I had not, and had a pretty strong conviction that the problem was insoluble. "
(Tradução aproximada: Quando alcancei a maturidade intelectual e comecei a perguntar a mim mesmo se eu era um ateu, um teísta, ou um panteísta..., percebi que quanto mais eu refletia mais longe estava da resposta. Eles (os crentes) estão convencidos de ter alcançado certa "gnosis"; tinham, com algum sucesso, resolvido o problema da existência, enquanto que eu estava longe disso, e tinha a forte convicção que esse problema era insolúvel.)

Já ateísmo (ou teísmo) se refere a "acreditar" (e não saber). Alguns dividem o ateísmo em dois tipos: o forte e o fraco (ou cético). Os ateus fortes acreditam que Deus não existe. Ou seja, ele está baseado numa crença. Já no ateísmo cético você não acredita na existência de Deus, o que não é a mesma coisa que acreditar na sua não existência. Uma diferença sutil, mas muito importante para mim.

Assim, eu sou agnóstico porque não posso saber se Deus existe ou não, e ateu (cético) porque pela minha experiência de vida e pelas evidências científicas existentes não acredito na existência de deuses. De fato, pelas informações que possuo tenho boas razões para crer que religiões e deuses são construções do cérebro humano. E claro, se novas e conclusivas evidências aparecessem mostrando o contrário, não teria problema em mudar de opinião.

Já como cientista –e curioso- também estou interessado em entender por que a maioria das pessoas tem fé –definida aqui como a crença ante a falta de evidências- e outras, como eu, não conseguem ter. Geralmente ateus não são ateus por motivos ideológicos. Como já comentou o Dr. Dráuzio Varella, somos ateus porque nosso cérebro não nos permite acreditar sem provas válidas. O caminho da crença é bloqueado rapidamente pela necessidade de conferir se a informação está correta ou não. Como os que propõem o sobrenatural falham em apresentar provas minimamente satisfatórias, as teorias místicas não nos convencem.

Provavelmente a base dessa diferença esteja na forma como o cérebro organiza o pensamento, como já comentamos em colunas anteriores.

Apenas isso nos diferencia. Sutis alterações na conetividade neural que fazem com que alguns utilizem prioritariamente o pensamento intuitivo e simbólico associado à religião, e outros o pensamento analítico associado à atividade científica.

É demasiado óbvio, pelo menos para mim, que não há nessas variações na forma como o cérebro processa a informação nada que indique que crentes ou ateus sejam moralmente superiores ou inferiores, a menos claro que a crença descambe para o fanatismo com todas as consequências que isto costuma acarretar. Nada que justifique o preconceito ou as perseguições. Nada que justifique, por exemplo, palavras como as proferidas recentemente pelo arcebispo de Maringá (PR), “Este ambiente de descrença, misturado com ateísmo, leva a pessoa a viver no deserto da vida sem gosto, sem rumo, vagando em busca de um sentido”.

Como vamos diminuir essa carga de confronto e preconceito se de quem se deve esperar cordura e ponderação ouvimos mensagens estigmatizadoras como essa?

Algumas autoridades religiosas –não todas- forçam demais a barra tentando criar uma imagem negativa de quem não acredita em deuses. Deveriam parar com isso. Com certeza encontrariam coisas mais edificantes para fazer.
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