segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Teísmo, ateísmo e outros ismos

Dias atrás, numa entrevista concedida nesta Folha ao professor Arthur Leandro Lopes me foi pedida uma classificação do meu “status religioso”. Sempre fico na dúvida sobre a oportunidade de dar essas definições pessoais, fundamentalmente porque ao nos rotular atraímos todas as opiniões injustas e preconceituosas ainda associadas a esses rótulos (esta dúvida não é apenas minha como pode ser observado neste ótimo artigo de Michael Shermer).

Existem várias definições e considerações filosóficas sobre ateísmo e agnosticismo. Como não sou da área (filosofia) prefiro conhecer as mais relevantes e optar pela que mais me satisfaz. Assim, o que vem abaixo é um apanhado sobre o qual o leitor poderá concordar ou não (veja neste vídeo http://www.youtube.com/watch?v=LVkklTe77Ww uma explicação bem humorada e com muitos links para referências adicionais).


Agnosticismo (termo criado por Thomas Huxley no século 19) se relaciona com saber/conhecer. Como cientista considero que a melhor forma de conhecimento é a que nos proporciona a ciência. Não é perfeita, claro, é apenas a melhor que temos, fundamentalmente porque incorpora um mecanismo de detecção de erros que outras formas de conhecimento não possuem. Mas a ciência não tem uma fórmula que permita saber se deuses existem ou não. Não ha experimento possível já que a teoria "Deus" não é falseável, o que significa que não posso provar que esteja errada. Sem esse requisito ela não é mais uma teoria científica. Assim, eu me considero agnóstico porque não posso saber se deuses existem ou não, utilizando as fontes de conhecimento que eu disponho e aceito. 


É a Thomas Henry Huxley (1825 — 1895), biólogo britânico que ficou conhecido como "O Buldogue de Darwin" por ser o principal defensor público da teoria da evolução,  a quem foi creditada a utilização pela primeira vez do termo agnosticismo, conforme texto abaixo.


" When I reached intellectual maturity and began to ask myself whether I was an atheist, a theist, or a pantheist…I found that the more I learned and reflected, the less ready was the answer. They [believers] were quite sure they had attained a certain ‘gnosis,’—had, more or less successfully, solved the problem of existence; while I was quite sure I had not, and had a pretty strong conviction that the problem was insoluble. "
(Tradução aproximada: Quando alcancei a maturidade intelectual e comecei a perguntar a mim mesmo se eu era um ateu, um teísta, ou um panteísta..., percebi que quanto mais eu refletia mais longe estava da resposta. Eles (os crentes) estão convencidos de ter alcançado certa "gnosis"; tinham, com algum sucesso, resolvido o problema da existência, enquanto que eu estava longe disso, e tinha a forte convicção que esse problema era insolúvel.)

Já ateísmo (ou teísmo) se refere a "acreditar" (e não saber). Alguns dividem o ateísmo em dois tipos: o forte e o fraco (ou cético). Os ateus fortes acreditam que Deus não existe. Ou seja, ele está baseado numa crença. Já no ateísmo cético você não acredita na existência de Deus, o que não é a mesma coisa que acreditar na sua não existência. Uma diferença sutil, mas muito importante para mim.

Assim, eu sou agnóstico porque não posso saber se Deus existe ou não, e ateu (cético) porque pela minha experiência de vida e pelas evidências científicas existentes não acredito na existência de deuses. De fato, pelas informações que possuo tenho boas razões para crer que religiões e deuses são construções do cérebro humano. E claro, se novas e conclusivas evidências aparecessem mostrando o contrário, não teria problema em mudar de opinião.

Já como cientista –e curioso- também estou interessado em entender por que a maioria das pessoas tem fé –definida aqui como a crença ante a falta de evidências- e outras, como eu, não conseguem ter. Geralmente ateus não são ateus por motivos ideológicos. Como já comentou o Dr. Dráuzio Varella, somos ateus porque nosso cérebro não nos permite acreditar sem provas válidas. O caminho da crença é bloqueado rapidamente pela necessidade de conferir se a informação está correta ou não. Como os que propõem o sobrenatural falham em apresentar provas minimamente satisfatórias, as teorias místicas não nos convencem.

Provavelmente a base dessa diferença esteja na forma como o cérebro organiza o pensamento, como já comentamos em colunas anteriores.

Apenas isso nos diferencia. Sutis alterações na conetividade neural que fazem com que alguns utilizem prioritariamente o pensamento intuitivo e simbólico associado à religião, e outros o pensamento analítico associado à atividade científica.

É demasiado óbvio, pelo menos para mim, que não há nessas variações na forma como o cérebro processa a informação nada que indique que crentes ou ateus sejam moralmente superiores ou inferiores, a menos claro que a crença descambe para o fanatismo com todas as consequências que isto costuma acarretar. Nada que justifique o preconceito ou as perseguições. Nada que justifique, por exemplo, palavras como as proferidas recentemente pelo arcebispo de Maringá (PR), “Este ambiente de descrença, misturado com ateísmo, leva a pessoa a viver no deserto da vida sem gosto, sem rumo, vagando em busca de um sentido”.

Como vamos diminuir essa carga de confronto e preconceito se de quem se deve esperar cordura e ponderação ouvimos mensagens estigmatizadoras como essa?

Algumas autoridades religiosas –não todas- forçam demais a barra tentando criar uma imagem negativa de quem não acredita em deuses. Deveriam parar com isso. Com certeza encontrariam coisas mais edificantes para fazer.

2 comentários:

  1. Adorei a coluna, tema polêmico...Não conheço ninguém que admita não ter fé e sempre que digo que não sei se acredito em Deus, as pessoas me olham como se eu fosse uma maníaca. Tenho dúvidas, não consigo simplesmente acreditar só por que minha mãe ensinou assim, e daí? Não faço e não desejo mal a ninguém mas já cansei de ver pessoas que não saem da igreja aprontando todas. Portanto, fé não define o carater nem a capacidade de amar. Por favor, entendam e respeitem, pois eu tenho muito respeito por todos que tem fé.
    E gostei do vídeo, agora , quando me perguntarem, direi: sou agnóstica e meu ateísmo é fraco.

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  2. Ótimo texto! Gostei muito.
    De fato, os religiosos, uma grande parte claro, atuam com certo preconceito quando alguma pessoa diz não acreditar em deus, como se essa pessoa fosse adoradora do diabo ou estivesse fazendo algo errado. Isso cria muitos problemas e impede, no meu ponto de vista, que muitas pessoas sem fé tomem a iniciativa de frequentar uma igreja por mera curiosidade. Entretanto, acredito que agir dessa forma é algo do próprio ser humano em geral. Se alguém, na época do ditador Muamar Kadafi, tivesse tido que concorda com as atitudes do ditador, muitas pessoas afirmariam que ele estaria sendo a favor do genocídio, fascismo e tudo mais. Isso é apenas um exemplo.
    No meu ponto de vista, acredito que todas as pessoas deveriam nascer e não frequentar nenhuma religião até terem capacidade mental de poderem escolher qual religião seguir. Digo isso pois, em sua grande maioria, as pessoas são, como eu chamo, religiosos por indução. E acabam defendendo ideais que no fundo não sabem o que significam. O problema dos religiosos, em sua grande parte, é a ignorância (não dos líderes claro!) que pensam coisas como "o papa do Vaticano é um líder religioso de amplitude global. Em particular os religiosos brasileiros, católicos e evangélicos e outros também, acham que existem apenas aquelas religiões presentes no Brasil, o que é um erro gravíssimo. Bom...acho que me estendi rs. Novamente, ótimo texto!
    Abraços

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