sábado, 27 de outubro de 2012

Hongerwinter

Uma das passagens mais dramáticas –e menos conhecidas- da segunda guerra mundial foi o Hongerwinter, ou “Inverno da fome”. Já quase no final do confronto (1944-1945), após o desembarque dos aliados nas praias da Normandia, o exército alemão se reagrupou no oeste da Holanda cortando os suprimentos para a população civil. Como consequência os habitantes dessa região só podiam contar para seu sustento com o que pudessem extrair da terra. Para piorar a situação as condições climáticas desse ano foram severas, com um inverno longo e extremamente rigoroso. Ainda, para evitar que os aliados utilizassem esse território como corredor para invadir a Alemanha, o exército nazi dinamitou os diques holandeses e boa parte das terras férteis foi inundada. Toda essa situação levou a que entre setembro de 1944 e os primeiros meses de 1945 aproximadamente 22.000 holandeses morressem de fome e as sequelas nos sobreviventes se estendessem por pelo menos uma geração. 

Por sua severidade, o Hongerwinter representou um experimento macabro. Durante as últimas décadas cientistas se debruçaram no estudo dos efeitos da fome severa nos sobreviventes desse terrível episódio. De particular interesse foi a análise das consequências da desnutrição no desenvolvimento do cérebro e na cognição das crianças que nasceram ou foram concebidas nesse período. Entre muitos outros resultados os cientistas observaram que a desnutrição pré-natal aumentou o risco para o surgimento tardio (durante a adolescência ou fase adulta) de alterações patológicas e comportamentais como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), autismo e, fundamentalmente, esquizofrenia.

Este último dado chamou nossa atenção. Há anos nosso grupo se dedica ao estudo de diversos aspectos do córtex pré-frontal e sabíamos que esta região do cérebro é afetada em pacientes esquizofrênicos. Também sabíamos que em muitos casos a esquizofrenia provoca alterações em populações específicas de células cerebrais. Ao ler sobre essa história nos perguntamos se algumas destas alterações celulares poderiam ser também encontradas em modelos experimentais de desnutrição. Ou seja, um modelo experimental de desnutrição pré-natal em ratos poderia reproduzir precocemente as alterações celulares que observamos em humanos esquizofrênicos? 




Corantes especiais permitem marcar neurônios que apresentam
 alterações relacionadas com a esquizofrenia (Fonte: Johns Hopkins Medicine)


Responder essa pergunta é importante não apenas para tentar entender melhor a gênese de uma doença tão enigmática como a esquizofrenia, mas também para melhorar nossa compreensão sobre como a inanição afeta o cérebro em desenvolvimento. Como a desnutrição infantil é ainda um grave flagelo para boa parte da humanidade*, os resultados poderiam ser bastante relevantes.

Ao mesmo tempo, caso nosso modelo de desnutrição experimental venha a produzir alterações semelhantes às que a esquizofrenia produz, teremos a oportunidade de formular novas e melhores perguntas. Por exemplo, seria possível reverter essas alterações melhorando a dieta dos animais após o nascimento ou o déficit é irreversível? As alterações nas células estão associadas a alterações no comportamento dos animais compatíveis com aquelas observadas em pacientes esquizofrênicos? A utilização de determinadas drogas poderia minimizar as eventuais alterações microanatômicas ou comportamentais?

Não temos ainda as respostas. O processo entre formular as perguntas e obter respostas pode ser difícil, demorado, e de resultados inesperados, o que apenas aumenta a beleza da ciência. Mas uma coisa é certa, todas estas pesquisas só podem ser realizadas graças ao apoio financeiro da FAPESP, que confiou na importância dos projetos e no empenho dos pesquisadores. Mas até o dinheiro da FAPESP tem uma fonte: o contribuinte, o mesmo que paga meu salário e a infraestrutura das nossas universidades públicas.

É isso, a coluna de hoje não serve apenas para mostrar a relação entre cérebro e (des)nutrição. Serve também para ilustrar que é possível fazer boa pesquisa, financiada por agências de fomento com políticas rigorosamente seletivas, e ao mesmo tempo contribuir com o letramento científico da sociedade que é a que paga por tudo isso. 
Está mais do que na hora dos pesquisadores pararem de torcer o nariz quando se trata de comunicar ciência ao cidadão comum. Não é só possível, mas fundamental fazer as duas coisas. Mesmo por que, como diria o grande Carl Sagan, “não explicar a ciência me parece perverso”.



*Os problemas nutricionais, fundamentalmente aqueles relacionados com insuficiências proteicas e calóricas, continuam representando um grave flagelo para boa parte da humanidade. Considerando essa situação, a Organização das Nações Unidas estabeleceu como uma das metas do milênio reduzir em 50% a prevalência da subnutrição em crianças menores de cinco anos até o ano de 2015 (Millennium Development Goals). Não obstante, estudos recentes indicam que essas metas não serão alcançadas, nem mesmo em regiões desenvolvidas (De Onis e cols., 2004). Problemas nutricionais, que chegam a ser dramáticos em países em desenvolvimento, são também observados em regiões industrializadas, onde setores da população sofrem pela carência generalizada ou específica de determinados nutrientes. Assim, resulta aparentemente desnecessário reforçar a importância que adquirem os estudos sobre os problemas relacionados com a desnutrição infantil.


Projetos:
-Quantificação estereológica de populações celulares do córtex pré-frontal de ratos submetidos a desnutrição protéica fetal e pós-natal precoce. Projeto FAPESP 2011/21509-3. Pesquisadores envolvidos: UNESP: Roelf Justino Cruz-Rizzolo (coordenador), Edilson Ervolino, 
Isabela Paiva, Lais Leal Limieri, Luciana Pinato. USP: Edson Liberti, Ricardo Bandeira.

-Quantificação estereológica de populações celulares do córtex pré-frontal de ratos submetidos a anóxia neonatal. Projeto FAPESP 2011/21509-3. Pesquisadores envolvidos: UNESP: Roelf Justino Cruz-Rizzolo (coordenador), Edilson Ervolino, Gestter Tessarin, Henrique Rinaldi Matheus, Marina Módolo, Wiry Samara Cândido. (USP) Maria Ines Nogueira, Leila Maria Guissoni Campos, Silvia Honda Takada.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

E Einstein continua ateu

Quando li estes dias a manchete “'Carta de Deus' escrita por Albert Einstein será leiloada na internet” me perguntei por que será que a imprensa está requentando uma notícia de 2008? Nesta coluna já tinha escrito sobre o assunto há alguns anos, daí minha surpresa. 

O que de fato ocorreu (e isto a imprensa parece não ter noticiado agora) é que a mesma carta está sendo renegociada. Ela foi descoberta em 2008 e nesse mesmo ano leiloada por 170.000 libras esterlinas (uns US$275.000,00). Agora, será novamente leiloada, só que com um lance mínimo de três milhões de dólares!!!

O medo na época era que o comprador fosse algum fanático religioso capaz de, em nome da fé, destruir o documento. Nada disso. Um investidor esperto salvou a carta e vai lucrar mais de 1000% em quatro anos.

Com a fortuna que nossos pastores andaram acumulando aqui no Brasil, espero que os temores de 2008 não se confirmem agora!!!






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O discreto ateísmo de Einstein

(Publicado 07/06/2008)

“A palavra Deus para mim é nada mais que a expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma coleção de lendas honradas, mas ainda assim primitivas, que são bastante infantis.”

Albert Einstein


Uma carta do físico Albert Einstein que ficou escondida por mais de 50 anos, parece ter jogado uma pá de cal sobre o debate sem fim a respeito da “religiosidade” do pai da teoria da relatividade. A frase acima foi extraída dela, e permite entender o porquê de tanta decepção por parte dos defensores de um Einstein religioso.


A carta de Einstein, escrita em 1954, um ano antes da sua morte, foi uma resposta dirigida a Erich Gutkind, autor do livro “O chamado bíblico para a revolta”. Talvez tivesse pensado Gutkind que o endosso de um grande cientista reforçaria as teses religiosas da sua obra. Na carta, Einstein não apenas deixa clara sua posição em relação a Deus, como também sua posição como judeu: 


“Para mim, a religião judaica, como todas as outras, é a encarnação de algumas das superstições mais infantis. E o povo judeu, ao qual tenho o prazer de pertencer e com cuja mentalidade tenho grande afinidade, não tem qualquer diferença de qualidade para mim em relação aos outros povos.”

Segundo o jornal britânico The Guardian, a carta, que era desconhecida por alguns dos principais biógrafos do cientista, foi leiloada por 170.000 libras (mais de R$540 mil) no último dia 15 de maio (2008).




Original da carta de Einstein que será leiloada com lance mínimo de 
US$3.000.000,00

Não é de hoje que a suposta religiosidade de Einstein é motivo de debate. Boa parte da mídia e aqueles que pregam uma visão religiosa sempre deram ênfase a alguns aforismos e frases proferidas em público pelo físico alemão que apontavam nesse sentido, enquanto que posições em sentido contrário expressas geralmente através de cartas particulares ficavam escondidas. A frase “Ciência sem religião é manca, religião sem ciência é cega” talvez tenha sido a mais explorada. “Deus não joga dados” é outra. Em relação a esta última, hoje fica claro que fora tirada do contexto. No caso Einstein se referia de forma bastante irritada aos pressupostos da física quântica -de seus colegas Niels Bohr, Max Born e outros- nos quais Einstein não acreditava muito (evidências posteriores, entretanto, mostraram que Einstein estava errado). 

Mas em várias ocasiões a posição de Einstein tinha ficado clara. Também em 1954, respondendo uma carta que lhe fora enviada por um missivista presumivelmente ateu perguntando se de fato Einstein era, como a mídia americana afirmava, um homem religioso, este respondeu


“Foi, claro, uma mentira o que o Sr. leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que vem sendo sistematicamente repetida. Eu não acredito em um Deus pessoal e nunca neguei isso, ao contrário, tenho expressado isso claramente. Se há algo em mim que pode ser chamado religioso é a ilimitada admiração pela estrutura do universo até onde nossa ciência pode revelá-la.”

Em outra oportunidade, recusando o convite de um rabino para freqüentar a sinagoga, Einstein responde:


“Desde o ponto de vista de um padre jesuíta eu sou, claro, e sempre tenho sido, um ateu. Eu tenho dito repetidamente que a ideia de um Deus pessoal é infantil. Você pode me chamar de agnóstico, mas eu não compartilho o espírito de cruzada (crusading spirit) dos ateus profissionais cujo fervor é principalmente devido a um doloroso ato de liberação dos grilhões da doutrinação religiosa que eles receberam na sua juventude. Eu prefiro uma atitude de humildade correspondente com a fraqueza de nossa compreensão intelectual sobre a natureza e nosso ser.”

Independente se esta carta acabará ou não com a controvérsia, é curioso assistir esta relação de contestação e desejo da religião para com a ciência. Quando a ciência, através de evidências e sem nenhum propósito de atacar alguém, diz que a Terra tem bilhões de anos e não os oito mil e poucos que a Bíblia indica, a ciência não serve. Quando diz que o universo parece ter sido criado bilhões de anos atrás através de uma grande explosão a partir da qual surgiu todo o resto, contradizendo assim a versão literal do Gênesis, a ciência está errada. Quando a ciência diz que os humanos e todas as outras espécies são fruto de um lento processo de evolução e não de criação, a ciência está absurdamente enganada. Mas quando um cientista eminente manifesta uma posição pessoal pró-religião, ou quando algum experimento científico parece sustentar, mesmo que indiretamente, alguma revelação bíblica, cientista e descoberta assumem um valor inquestionável. Agora a ciência serve, mas apenas este minúsculo fragmento do pensamento científico!

A fé de quem crê não deveria ser posta em dúvida pela opinião pessoal de outro indivíduo, cientista ou não. A fé não se fundamenta em argumentos racionais, assim, não faz sentido utilizar a racionalidade da ciência para sustentá-la. Se as evidências científicas chegam a abalar nossa fé, é porque ela não era tão forte - e cega - assim. 

Ainda bem!




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