sábado, 24 de novembro de 2012

A alma está no cérebro?

Em verde, a rede de microtúbulos em uma célula de 
embrião de camundongo observada mediante
 microscopia de fluorescência. Fonte
É bem provável que sejamos todos intuitivamente dualistas. De fato temos bons motivos para não associar as atividades mentais com o cérebro. Isto não acontece com os outros órgãos e sistemas do nosso corpo. Podemos, por exemplo, fazer uma associação visceral entre os alimentos que ingerimos e os órgãos do sistema digestório. Conseguimos perceber a passagem do bolo alimentar pelo esôfago, estômago, intestinos... Da mesma forma associamos facilmente a respiração com nossas vias aéreas, cavidade nasal, brônquios..., sentimos o tórax expandir pela entrada do ar. Sentimos músculos e ossos ao nos movimentar, ao sentar ou ao cair. Enfim, de certa forma podemos relacionar nossas vísceras com suas respectivas funções, mas com o cérebro isso não acontece. 

Não temos como criar uma relação perceptiva entre aquilo que o cérebro faz (pensar, sentir, calcular, decidir, planejar, desejar, etc.) com essa massa gelatinosa dentro de nossa cabeça. A impressão que temos é que a produção de ideias e pensamentos é algo que fica fora do corpo, próximo da cabeça talvez, mas não dentro dela.

Em parte por causa disto -e em boa parte também pelo medo da morte- temos uma forte propensão a separar a mente do corpo.

Pensar numa mente, alma, espírito, ou self independente do nosso corpo é um pensamento espontâneo e intuitivo, amparado naquilo que nossos sentidos nos revelam, mas como vimos em colunas anteriores pensamentos intuitivos não são bons para resolver problemas complexos. Lembremos como foi intuitivo por séculos pensar que a Terra estava fixa e tudo se movia ao redor dela, ou que era plana, ou que raios eram a reação de deuses zangados.

Com esse pano de fundo podemos entender por que somente nas últimas décadas os cientistas passaram a apostar - a partir de todas as evidências disponíveis - que a consciência é uma propriedade da atividade química do cérebro.

Durante boa parte da nossa história isso foi algo impensável. No antigo Egito, por exemplo, o cérebro era considerado um órgão insignificante que devia ser retirado na hora da mumificação. Eles acreditavam que o coração era o órgão mais importante do corpo, essência da vida, origem do bem e do mal. Após a morte, o coração era pesado usando penas por Maet, a deusa da justiça. Coração pesado, portas fechadas.




Com a pluma da verdade Maet (à esquerda, com a pluma na cabeça) pesava as almas de todos que chegassem ao Salão de Julgamento subterrâneo. Colocava a pluma na balança e no prato oposto o coração do falecido. Se os pratos ficassem em equilíbrio, o morto podia festejar com as divindades e os espíritos dos mortos. Entretanto, se o coração fosse mais pesado, ele era devolvido para Ammit, (que é parte hipopótamo, parte leão, parte crocodilo) para ser devorado. Fonte Wikipedia.


Curiosamente, Alcmaeon, médico da Grécia antiga (ano 450 AEC) se aproximou bastante das teorias atuais ao concluir que era o cérebro, e não o coração, o órgão central de sensação e do pensamento. Mas esta aproximação com a realidade foi destruída pelo pensamento aristotélico. Aristóteles continuava defendendo que o órgão das ideias e as sensações era o coração e que o cérebro seria apenas um “radiador” destinado ao resfriamento. E como sabemos o pensamento aristotélico, tão anticientífico, dominou a civilização ocidental até o século 16, quando Galileu apontou uma luneta aos céus e comprovou que apenas com a intuição jamais conseguiríamos entender a complexidade do universo. Para isso precisávamos da ciência. E sobre a existência de uma alma imortal que sobreviva à morte do corpo físico, a ciência tem sido nada reconfortante. 




Alcmaeon (ano 450 AEC), médico da Grécia antiga (Magna Grécia, atual península itálica), é o primeiro a usar dissecação anatômica em animais para fundamentar suas teorias. Ele conclui a partir dos seus estudos que é o cérebro, e não o coração, o órgão central de sensação e do pensamento. Esta ideia contradiz frontalmente o conceito aceito nesse período segundo o qual era o coração o real local da inteligência. Alcmaeon também sugere que os nervos ópticos são vias de luz em direção ao cérebro e que o próprio olho produz luz. Fonte History of the brain


Por isso quando uma notícia como a que pipocou estes dias nos meios de comunicação com manchetes do tipo “Cientistas pesquisam existência da alma”, ou ainda uma mais chamativa: “Cientista encontra prova científica da existência da alma” ela gera uma forte expectativa e merece ao menos uma clicada esperançosa. 




Aristóteles (ano 335 AEC) afirma que o órgão das ideias e as sensações é o coração e que o cérebro é apenas um “radiador” destinado ao resfriamento. Ele esclarece, entretanto, que o “órgão” das ideias não é o mesmo que a “base” das ideias, a qual ele chama de alma racional, imaterial, e que não pode ser encontrada em nenhuma parte do corpo. Apesar dos erros e percepções equivocadas, as teorias aristotélicas sobre a memória foram mais acertadas. Ele corretamente afirmou que o processo envolvido na memória de curta duração é diferente do envolvido na memória de longa duração. Fonte History of the brain


Mas não há nada de novo nessa notícia. As teorias de Stuart Hamerroff e do físico britânico Sir Roger Penrose, segundo as quais a alma estaria localizada em estruturas dos neurônios denominadas microtúbulos, é da década dos 90 e recebeu da comunidade científica pouquíssima atenção devido à sua falta de evidências, mesmo que esta falta de evidências esteja revestida de palavreado quântico.

É isso aí. Muita manchete, pouco conteúdo. Quem preferir acreditar em sua alma imortal pode continuar acreditando. Se nenhum cientista conseguiu provar sua existência, tampouco conseguirá provar sua inexistência (e claro, o mesmo se aplica a qualquer entidade sobrenatural, desde a fada do dente aos espíritos da floresta).




12 comentários:

  1. Sou seu fã de carteirinha, você já deve estar enjoado de mim comentando nos seus posts por aí a fora. Muito bom este!

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  2. De fato, tenho a impressão que sou dualista. Essa dicotomias entre a fé a razão. A ciência e as crendices povoam meu universo. Dê uns tempos pra cá, tenho questionados amigos, parentes e desconhecidos sobre fenômenos sobrenaturais, vividos ou que tiveram conhecimento. A quantidade de respostas positivas impressiona. Me impressiono quando estas são "vividas" de forma coletiva, como o da uma senhora evangélica, junto de seus filhos (um casal de adolescentes), que viram uma mulher desconhecida entrar em sua casa, se dirigir a um dos quartos e desaparecer dentro dele. A janela do quarto tinha grade. Poderia ser mentira dela... dei crédito mesmo assim. Ou a do meu primo, na infância, ele seu irmão e mais um coleguinha, numa estrada rural, em cima de uma ponte de madeira, viu um vara de pescar flutuar no ar ao mesmo tempo que se preparavam para correr viram, segundo eles, um ser, com um rosto de sofrimento, emergir por entre as tábuas da ponte em direção ao céu. Ao questionar sua mãe relatou que os três chegaram pálidos, com falta de ar e precisou dar água com açúcar, para acalmá-los... Poderia relatar que tive a oportunidade, na minha infância, de visualizar minha avó, já falecida, flutuando no meu quarto, sem as pernas num vestido branco, olhando uma foto de parede. Poderia dizer que era um sonho, mas tinha acabado de acordar de um...puxei o cobertor sobre o nariz, mas deixei os olhos pra fora, espantado com a visão. Enfim, sempre haverá histórias e estórias a respeito desses fenômenos... Deveria haver um setor da ciência para pesquisar esses casos. No mínimo, que não tivesse interesse comercial, nem ideológico. Mas é possível separar ideologia da ciência ou da fé?
    Continua de parabéns pelo blog. Acompanho sempre.
    Forte abraço.

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  3. Também não acredito em alma imortal, não acredito em mente sem cérebro ou ectoplasma. Mas não tenho arrogância de afirmar que não exista algo semelhante a uma alma. Acho que negar a alma não vai levar a nada, ainda mais quando fenômenos considerados paranormais, como experimentos de telepatia dos soviéticos durante a guerra fria, geraram evidências, mas não provas ao longo de tanto tempo, uma das razões pelas quais foram criticados. As ciências noéticas para mim são um grande passo na elucidação da alma, mente coletiva; seja lá o que acharem que exista. Não estamos discutindo religião, mas sim a existência de algo mais, não uma alma eterna, mas um fundo de verdade sobre assuntos relacionados à fé.

    Parabéns pelo blog. Achei boa a abordagem mais próxima do imparcial e histórica sobre o tema. Odeio os ateus radicais que estão surgindo que querem transformar ciência em dogma, como os religiosos fazem com suas crenças.

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  4. Professor, se o senhor quiser, peço que comente sobre esta reportagem, já que versa sobre neurociência. A reportagem é: "Neuroimaging during Trance State: A Contribution to the Study of Dissociation".
    Não conheço a instituição que publicou a pesquisa, mas, certamente, a que a realizou.
    link - http://www.plosone.org/articleinfo%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0049360.
    Obrigado.
    Augusto Ferreira

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  5. Meu comentário não saiu?
    Repetindo.
    Professor, o senhor poderia comentar sobre a seguinte pesquisa: Neuroimaging during Trance State: A Contribution to the Study of Dissociation.
    Ela se encontra no seguinte site: http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0049360.
    Não conheço a instituição que publicou a pesquisa, mas quem a fez parece que foi o pessoal da USP.
    Como o assunto é sobre neurociência eu gostaria da sua opinião, se possível, é claro.
    Obrigado.
    Augusto Ferreira

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  6. Professor, gostaria que o senhor, se puder, opinasse sobre o seguinte artigo:
    A NOVA FRONTEIRA DO DEBATE RELIGIÃO - CIÊNCIA: AS NEUROCIÊNCIAS.
    Está no seguinte endereço eletrônico: http://jcienciascognitivas.home.sapo.pt/09-03_reimao.html
    Obrigado!
    Augusto Ferreira

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    1. É muito longo, a revista científica não é reconhecida, a autora parece não ter publicado um artigo científico na área. Com tudo o que tenho que ler, me dê um motivo sensato para eu ler isso.

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  7. É importante olhamos e examinamos tudo; você não achá?
    Olha este relato que se refere a Alma e o Espirito, e mais, Anjo e Deus.
    https://www.youtube.com/watch?v=ohFrngXSy0s

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  8. Nossa consciência e imortal e eterna soberana livre sublime pura e livre presa em um corpo frágil fraco dependente de tudo que não presta que na verdade e uma ilusão

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  9. Olá amigo. Acho que deveria ver todo o conteúdo e presta a atenção. Não se falou nem um momento em mortalidade da Alma. Quanto a eternidade de ambos (ALMA E ESPÍRITO) são eterno para ficar no Inferno ou no Céu. Livre sublime pura? Isso já mais, enquanto não receber o corpo glorioso em que Deus Jesus nos concebera. Quanto ao homem; "livre"; só se não estivermos preso pelo pecado. Ai samos escravos neste tempo, e pereceremos por toda a eternidade. corpo glorioso em que Deus Jesus nos concebera. Quanto ao homem;"livre"; só se não estivermos preso pelo pecado, ai samos escravos neste tempo e na eternidade.

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    1. Oi Elcio, prestei atenção, mas acho que vc não. Este é um espaço de letramento científico, e não de proselitismo religioso.
      Abraço!

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