sábado, 27 de abril de 2013

“USP comprova: reiki cura!!”

Técnica de "imposição de mãos" realizada no estudo (Monezi, R., 2003).
Não sei se todos os leitores desta coluna navegam pelas redes sociais. Quem o faz deve ter recebido –em mais de uma oportunidade- a postagem que dá título a este artigo. 

Ela foi compartilhada milhares de vezes. A imprensa se encarregou de divulgar e hoje está ficando difícil convencer as pessoas que isso está errado. Como já pediram minha opinião sobre o assunto, com muita relutância aproveito este espaço para fazer o que jornalistas preparados para divulgar ciência deveriam ter feito antes.

De cara já podemos responder: não, USP não comprova. E o termo “cura” é para lá de discutível.

A história começou em 2003, quando o pesquisador Ricardo Monezi apresentou uma dissertação de Mestrado na USP. Nesse estudo afirmou que mediante técnicas de imposição de mãos (reiki especificamente) camundongos apresentaram um aumento de resistência imunológica, dobrando sua capacidade de reconhecer e destruir células cancerígenas.

Seria algo realmente impressionante. Conseguir provar cientificamente que (a) existe por aí flutuando um tipo de energia desconhecida pelos cientistas que (b) pode ser “canalizada” através das mãos, (c) direcionada sem contato físico para outro indivíduo e lá chegando (d) ter a capacidade de detectar patologias e curá-las, seria experimento digno de publicação nas principais revistas científicas do mundo. Sim, seria uma descoberta notável.

Depois de esquecido por algum tempo o assunto voltou com força em 2012 quando algumas revistas de divulgação científica e outros meios de comunicação requentaram o tema com manchetes como “Acupuntura e reiki agora têm explicação científica”, “Reiki nas mãos da ciência”, "Física quântica - USP confirma eficácia do passe magnético", entre outras.

Não vou usar este espaço para discutir detalhes do trabalho. Isto já foi feito por outros de forma muito detalhada (ver aqui). Pelo que li, a metodologia e resultados apresentados não justificam as conclusões. Como já disse Carl Sagan, "Alegações extraordinárias exigem prova extraordinária.", e a alegação da “comprovação” científica da imposição de mãos é para lá de extraordinária!!

É de fato grave que a imprensa tenha embarcado na divulgação desse estudo com tanta superficialidade. Pior ainda quando isso é feito por uma revista de divulgação científica como a Galileu, que tem como lema “Questione, entenda, evolua”.

Mas vamos aos esclarecimentos.

Em ciência temos que tomar muito cuidado com o termo “comprovar” já que nunca se prova definitivamente uma teoria científica. Teorias científicas, junto com suas respectivas hipóteses  são refutadas ou corroboradas. Refutar significa que os experimentos que fizemos para validar nossa hipótese mostraram que ela estava errada. Se os experimentos validam nossa hipótese, a teoria é corroborada, mas nunca confirmada. Todos sabemos que amanhã pode surgir um novo experimento que mostre que nossos resultados estavam errados. Felizmente, as "verdades" científicas são sempre aproximadas e provisórias. Assim, quando a mídia afirma que algo está comprovado cientificamente, a coisa já não vem muito bem encaminhada, a menos que este esclarecimento seja feito.

A utilização de frases de impacto como “USP comprova” pertence ao tipo de argumento de autoridade 
que em ciência não deve existir. A Teoria da Evolução é uma teoria muito forte porque em mais de 150 anos foi corroborada por centenas de experimentos e resistiu a todas as tentativas de refutação, e não porque Darwin fosse um gênio ou fosse um pesquisador da USP ou Harvard. Divulgadores científicos (jornalistas ou não) deveriam fugir da tentação de colocar esse tipo de argumento de autoridade para tornar o artigo mais crível. 

É lamentável verificar que o jornalismo científico –salvo exceções- não segue os mesmos critérios de rigor que são exigidos em outras áreas. Toda informação (e fonte) deveria ser cuidadosamente checada. O contraditório deveria ter um espaço garantido. Em ciência, estes elementos da notícia -informação e fonte- estão facilmente disponíveis para checagem. Por que então não se faz isso? Desinformação? Preguiça?

No caso desta notícia nada disso foi feito. Não foi sequer mencionado que a despeito dos quase 90 anos de prática, não há na literatura científica nenhuma evidência que o reiki (ou outra técnica de toque terapêutico, com fundamentação religiosa ou não) funcione melhor que o placebo, e que qualquer efeito -quando existe- se deve à autossugestão do paciente ou do praticante.

Tampouco foi noticiado que o estudo foi sequer publicado em qualquer revista científica, o que significa que o mundo da ciência não teve acesso a essas informações de forma a analisar a metodologia e os resultados. Resultados tão extraordinários como os descritos teriam que ser validados de forma independente por outros laboratórios, e apenas depois de toda essa verificação poderíamos falar de algo parecido com “comprovação”. Mas nada disso existe. Então, não temos uma notícia científica.

Ao que parece, estamos ante a velha tentativa de usar a credibilidade da ciência para validar crenças pessoais.





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