sábado, 11 de maio de 2013

Africanos amaldiçoados

Durante boa parte da Idade Média, a Igreja Católica proibiu os fieis lerem a Bíblia. Registros dessa proibição podem ser encontrados na obra do Papa Gregório IX (1160 - 1241). De certa forma, a proibição vinha ao encontro da necessidade de manter a população afastada do conhecimento, sempre tão perigoso para os poderosos de plantão, religiosos ou não. Esta ideia central foi magistralmente explorada por Umberto Eco no ótimo livro (e filme) “O Nome da Rosa”. 

Para alguns, e devo concordar, parte do temor eclesiástico ante a leitura da Bíblia estaria no fato de o leitor perceber que o Deus amoroso, justo, e misericordioso que nos é contado em verso e prosa em nada se parece àquele do Velho Testamento. 

A história que dá origem a este artigo é uma dessas passagens que valeria a pena que não existissem, de tanta desgraça que causou.

A ideia que os africanos são amaldiçoados por Deus vem de uma passagem do Gênesis, onde Noé se embebeda e deita nu para dormir. Seu filho menor, Cam, descobre e conta para seus irmãos. Quando Noé acorda fica bravo com a atitude do seu filho e, vá lá saber porquê, lança uma maldição ao filho de Cam, Canaã (“Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos.”).

A história seria mais uma entre tantas lendas bíblicas se não fosse porque essa maldição forneceu a base religiosa para justificar o racismo e a escravidão dos africanos, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, já que de acordo com algumas interpretações os africanos seriam descendentes de Cam. Assim, e com esse precedente histórico, causa espanto que alguém se atreva sequer a mencionar nos dias de hoje tamanho disparate, bíblico ou não.

É claro que os africanos não são descendentes de Cam, nem de Canaã. Caso Noé ou Cam tenham de fato existido, eles seriam descendentes de africanos, como todos nós. Como já se sabe ha muito tempo, África é o berço da humanidade.

Mas conhecimento não parece ser algo que esteja na pauta do Congresso, muito menos entre os membros da bancada evangélica (democraticamente eleita pelo povo).

Em breve todos esquecerão da existência do pastor/deputado (mesmo ele fazendo tanta força para que isso não aconteça). Tem sido assim. Barbaridades se repetem no noticiário, causam um estremecimento inicial e depois caem no esquecimento. Aos poucos vamos nos acostumando e com isso o atraso impulsionado pelo fundamentalismo religioso se consolida, de forma lenta mais segura.

Se existe algum antídoto para este quadro preocupante, quem sabe a tolerância promovida pela cultura da ciência seja um deles. 

Não faço propaganda enganosa ao defender uma visão racional baseada no conhecimento científico para fugir da nossa intolerância atávica, tão impregnada nos textos religiosos. 
O trecho que reproduzo abaixo, extraído de um livro que trata sobre a natureza humana analisada desde um ponto de vista evolutivo, é um exemplo de como o conhecimento que a ciência fornece pode nos tornar indivíduos melhores. 
Compare o leitor este texto científico com a maldição bíblica. Tire suas conclusões.

“[...] toda a evolução significativa em nossa espécie ocorreu em populações de pele escura vivendo na África. No início da evolução dos hominídeos, cinco milhões anos atrás, nossos ancestrais semelhantes a macacos tinham a pele escura como chimpanzés e gorilas. Quando o moderno Homo sapiens evoluiu há cem mil anos, nós ainda tínhamos pele escura. Quando o tamanho do nosso cérebro triplicou, triplicou em africanos.
Quando a seleção baseada na escolha sexual moldou a natureza humana, ela foi moldada em africanos. Quando a linguagem, a música e a arte evoluíram, elas evoluíram em africanos. Peles claras apareceram em algumas populações de países europeus e asiáticos muito tempo depois de a mente humana ter atingido sua presente capacidade.

A cor da pele dos nossos antepassados ​​não tem muita importância científica. Mas tem importância política dada a persistência do racismo antinegros. Eu acho que um poderoso antídoto contra tal racismo é a percepção de que a mente humana é um produto da ação de mulheres negras africanas que favoreceram a inteligência, bondade, criatividade e linguagem articulada em homens negros africanos, e vice-versa.

Afrocentrismo é a atitude apropriada a tomar quando estamos pensando sobre a evolução humana.”


(The Mating Mind; Geoffrey Miller) 

12 comentários:

  1. OK, então repito.

    As variações de cores da pele humana não tem nenhuma ligação com a maldição de Noé. Esta maldição sobre Canaã e seus descendentes se concretizou quando da conquista da Terra de Canaã - Palestina - por Josué em 1400 AC quando os cananeus foram subjugados e posteriormente totalmente extintos.

    É pura especulação e motivo de ampla controvérsia científica a questão da origem humana africana.
    E como explicar o surgimento repentino do sofisticado e complexo cérebro do homo sapiens (muitíssimo melhor que qualquer micro) a apenas 200.000 anos? bem diferente dos supostos animalescos hominideos.
    E como explicar que só há uns 5.000 anos esse homem começou a criar cidades, códigos, escritas, construções e organização social complexa e línguas diversas ao mesmo tempo na Mesopotâmia e Oriente Médio? e não na África, o suposto berço da humanidade? e o resto do tempo; ficaram só caçando e dormindo?

    Racismo vemos nos crentes fundamentalistas evolucionistas:

    "Nenhum homem racional, conhecedor dos fatos, acredita que o negro comum é igual, e muito menos, superior que o homem branco" - Thomas Huxley.

    Huxley foi chamado de “Darwin’s bulldog” sendo o pregador do mito evolucionário na Inglaterra.

    "O credo do eugenismo foi fundado na idéia da evolução" - Francis Galton (primo de Darwin).

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    1. Publicado.
      Tá apelando, hein Cícero rsrsrsr. Todos teus "como explicar...?" já foram explicados. Vc sabe.

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    2. Até onde eu sei o Egito fica na Africa, um dos berços da civilização e grandes conhecimentos humano... e há piramides com mais de 7.000 anos, ou seja, antes de Adão aparecer em Gêneses... No Oriente tem civilizações tão antigas quanto e desenvolvimento formidável... ou seja, da Africa se espalhou pelo mundo... não ficou no oriente médio, como desejaria.

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  2. A biblia é a verdade absoluta,eu não preciso provar a verdade, a verdade permanece por si só.e verdade que não suporta questionamento não e verdade

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  3. Eu duvido que vc tenha se dado o trabalho de pelo menos ler a bíblia.

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  4. é de chorar...quanto absurdo...orem para que o espirito santo vós de interpretaçao...isso esta muito errado...um homem ser condenado por ele ser negro...isso nao é coisa de DEUS,mas sim dos homens,mas estes pagarao por tudo que fizeram,no inferno...ate porque muitos destes nao se arrependeram...

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  5. Creio que foi sim.....os filhos de noe foram espalhados pelo mundo inteiro e certamente cam foi enviado a africa, nao propositamente a africa, mas se fosse enviado para a europa certamente ocorreria o mesmo.

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  6. CONFRONTO, ou alguém tem, no vocabulário lusófono, pode ser anglófono, ou francófono, alguma palavra que defina melhor o que os evangélicos estão procurando fazer, para nos desagradar, visto que pra nós Biblias são tão fantasias quanto "Pinóquio" com o agravante que Pinóquio dá sinais claros e não precisa de nenhuma denúncia da FORBES e os pentecostais, no Brasil, seguem orando alto em nossos parlamentos, invadindo nossa Constituição, caso da bofetada na cara do bom senso que foi o Estatuto da Família, querendo ensinar a fantasia do criacionismo, na escola de nossos filhos, usando como retórica essa confusão mental que provoca a natureza se manifestando pela indiscutível identidade de gênero, com espaço no planeta, de sobra para héteros 30% e homos 70%, isso calculado em qualquer reino, pelo menos até que algum daqueles  prescrutadores de almas, psicólogos, não aceitamos, nem que a vaca tussa,  "psicologia/cristã", e psiquiatras nos digam que homofobia não  é guerra interna, com inconscientes atancando conscientes, por que, pra nós, "non eczistem" héteros homofóbicos. Mas, o nosso direito de defesa está ligado de forma perene,  ao cânon de um jornalismo que já existiu, no Brasil, ditado por jornalistas como Millôr Fernandes e assim nada de agressões a pessoas, como esses pastores, donde há até igrejas acusadas de "lavar" dinheiro sujo e que mostram disposição até para travar o nosso avanço civilizatório em troca de continuar montados em montanhas do "vil metal", o que todos os outros segmentos da sociedade devem fazer de forma até certo ponto sincronizada é combater AS IDEIAS dessas lideranças armadoras dessa verdadeira "Espada de Dâmocles" sobre cabeças brasileiras. Então, o alerta vai para os católicos, os protestantes luteranos e calvinistas, os muçulmanos, os umbandistas, os candomblecistas, os espíritas, os ateus e todos os espiritualistas. O tempo urge.

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  7. nao tenho nada haver com isso,meu compromisso e com a palavra,meu compro misso e com DEUS! o que fazem ou deixam de fazer,nao me interessa,no final todos responderao ao verdadeiro JUIZ...POR ISSO NAO ME ABALO,POIS QUEM ESTA COMIGO E MAIOR dO AQUELE QUE ESTA LA FoRA COM VC

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  8. acorda pra vida a maldição de Canaã veio do homem e não do eterno

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  9. e isso ai...perda de tempo ficar discutindo...

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  10. Essa frase de “ser julgados pelo verdadeiro juiz”, sendo esta bem comum entre pessoas de pouco conhecimento e grande arrogância, nos traz a memória o conflito entre albigenses (cristãos cataristas) e cristãos católicos (ano 1200 e.c.), que quando efetuado o ataque a Béziers (França), tendo invadido a cidade e sem saber quem era ou não efetivamente do catarismo ou católico, Simão de Montfort, líder do exercito cruzado, determinou : “matai-os todos, deus reconhecerá os seus!”. Só nessa brincadeira degolou sete mil pessoas que tinham-se protegido na igreja Madeleine, local propicio para pessoas de fé. O cântico usado para dita matança fora “Veni Sancte Spiritus”. Após o extermínio Amalrico (irmão de Simão) escreve para Inocencio III (o papa da época, representante de deus na Terra): “hoje, sua santidade, vinte mil cidadãos foram passados pela espada sem importar o sexo nem a idade”. Uma das tantas demonstrações de amor divino do padroeiro dos psicopatas, conhecidos como “sarça ardente e confraria”.

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