sábado, 17 de agosto de 2013

A ciência do déjà vu

Foto: leandroagguire
Eu estava numa ruazinha em Nápoles. Minha primeira visita na terra dos meus antepassados. De repente aquela sensação..., caramba, eu já estive aqui! Cada varal pendurado na janela, cada café, a sensação de pressentir o que ia acontecer. 

Dois terços dos entrevistados parece já ter passado por uma situação semelhante. Sentir a vaga lembrança de ter estado num lugar ou situação na qual, de fato, nunca esteve. Daí o nome, déjà vu (já visto, em francês).

Obviamente um nome errado. Não tinha antes visitado Nápoles, não poderia ter visto essa ruazinha. Claro que muitos dirão sim, você já esteve, em vidas passadas... Ok, vai lá saber..., mas será que não tem uma explicação mais... científica?

Sim.

Para variar Freud ficou bastante interessado neste fenômeno e - para variar - o associou a um tipo de memória inconsciente dos genitais maternos (“Não existe de fato outro lugar sobre o qual possamos dizer com tanta convicção que já estivemos lá.”, ok Sigmund, concordo).

O fato de pacientes epilépticos experimentarem a sensação de déjà vu antes de uma crise fez corretamente supor que esse fenômeno estaria relacionado com mecanismos neurais, e de fato estudos posteriores indicaram que a estimulação no lobo temporal era capaz de desencadear uma sensação parecida ao déjà vu. E mais, alguns pacientes com lesões nessa região cerebral vivem constantemente com essa sensação. Eles perdem até o interesse em assistir TV ou ler o jornal porque estão convencidos que já viram ou leram tudo antes. Bizarro mas real.

As primeiras teorias científicas remontam ao século 19. Entre elas a da “dupla percepção”. Imagine que estamos a atravessar a rua. Olhamos rápida e quase que inconscientemente para a esquerda e depois detidamente para a direita. Ao olhar de novo à esquerda temos a sensação que já tínhamos visto esse lugar antes, mas não conseguimos lembrar quando já que a informação –depois do primeiro olhar - não foi armazenada corretamente com todos os detalhes na memória de longa duração. Isso produziria a sensação de déjà vu.

Mas isso, claro, não explica a sensação que eu tive em Nápoles. Eu nunca tinha visto essa rua antes.

Para tentar entender melhor as teorias que explicam o déjà vu é importante descrever como os pesquisadores subdividem o que chamamos memória.

Existem basicamente dois tipos: de curta e longa duração. Áreas específicas do cérebro se encarregam de trabalhar com cada uma delas. O fenômeno de déjà vu estaria relacionado à memória de longa duração (mas com elementos de ambas). Esta por sua vez é subdividida em memória declarativa (que nos permite lembrar e descrever fatos, pessoas, etc.) e memória de procedimentos (faz com que nunca esqueçamos, por exemplo, como andar em bicicleta).

A memória de reconhecimento é uma subcategoria da memória declarativa e tem dois componentes: a lembrança e a familiaridade. A lembrança permite, como o nome indica, lembrar com bastante precisão fatos e pessoas da nossa história autobiográfica. É um processo relativamente lento e com alto consumo de energia, mas bastante preciso. Depois de um tempo temos todas as informações que estavam armazenadas na memória. Já a familiaridade é o sentimento que algo foi experimentado anteriormente, sem informações precisas de quando ou onde. É um sentimento rápido e, suponho, provavelmente selecionado ao longo da evolução para pressentir o perigo de uma situação antes de ter todos os dados sobre ela. O déjà vu parece estar mais relacionado com familiaridade que com lembrança.

Mas assim voltamos ao início. Se nunca vi ou experimentei isso antes, como posso ter esse sentimento? De acordo com os pesquisadores, o sentimento de familiaridade pode ser experimentado a partir de “similaridades”. Imagine agora que entramos na casa de um amigo onde nunca estivemos mas temos essa estranha sensação de já ter estado aí. O arranjo dos móveis, lâmpadas, quadros. Sabemos que é tudo novo mas temos a sensação de déjà vu. Por quê?

Uma das mais convincentes teorias vem da psicologia Gestalt, a hipótese Gestalt de familiaridade. O que estaria acontecendo é que esse arranjo da sala do amigo bate aproximadamente com o arranjo, por exemplo, da sala de espera de nosso médico. A incapacidade de lembrar da sala do médico – por não ter sido fixada no componente “lembrança” da memória de reconhecimento – geraria o déjà vu.

Uma teoria bem interessante, mas em ciência teorias precisam passar pelo crivo da experimentação. Seria possível provocar déjà vu em laboratório e testá-la? 


Com este objetivo, pesquisadores norte-americanos criaram cenários mediante técnicas de imersão em realidade virtual. Utilizando óculos especiais (ver figura abaixo), os voluntários podiam percorrer virtualmente ambientes como dormitórios, quintais, salas de boliche, etc. (ambientes controle). Posteriormente entravam virtualmente em ambientes que podiam ser a) completamente diferentes ou b) diferentes mas com configurações similares em termos de disposição dos elementos principais. Os pesquisadores observaram que a possibilidade de gerar sensações do tipo déjà vu foi bem maior quando o voluntário "entrava" no ambiente tipo "b", e não em ambiente tipo "a". E a sensação aumentava quando ele não conseguia reconhecer nenhuma similaridade entre o ambiente controle e o ambiente novo porém semelhante. 


Aspectos de cenários virtuais criados para testar a hipótese Gestal de familiaridade. Na coluna da esquerda três cenários "controle" e à direita cenários diferentes em seus detalhes porém estruturalmente semelhantes  (cenário teste). Alguns cenários teste não tinham nenhuma semelhança estrutural com os controles (não mostrados na figura). Os participantes do experimento podiam explorar os cenários mediante a utilização de óculos 3D (figura superior).  Quando entravam num cenário teste sem semelhanças estruturais com o controle, a sensação de déjà vu não acontecia. Já quando entravam num cenário teste como os mostrados acima (à direita) a sensação de déjà vu era bem mais frequente.

Para os pesquisadores a hipótese Gestalt poderia ser assim corroborada. A sensação de déjà vu estaria associada a um sentimento de "novidade" ante um cenário que subliminarmente não é desconhecido, o que geraria o sentimento de familiaridade mas não lembrança.
Mais que vidas passadas, a ciência parece apontar assim para experiências passadas, mas não muito bem lembradas. 
Me parece bem mais provável.  
E a você?



Fonte: Familiarity from the configuration of objects in 3-dimensional space and its relation to déjà vu: A virtual reality investigation. Anne M. Cleary e cols., Consciousness and Cognition 21 (2012) 969–975




Um comentário:

  1. Li todo o seu resumo,eu sempre tenho isso,quase toda semana é estranho,e concordo como os fatos que trazem esse texto,mais o mais estranho é que lenbro dos dois momentos em que se ocorre o deja vu,e algumas coisas me deixão em duvida,grande duvida,.Quando ocorre o deja vu eu tenho a sensação de que ja tenha lenbrado daquilo antes,mais em um sonho,ou um lugar que esteja tranquilo a reflexos da vida,coias que passão pela sua vida,imagens em fleshs em pequenos segundos,eu ate cheguei a achar que era o uso de thc alterado que podia fazer isso mais nao,eu tenho isso des de que era criança,esses fatos me acontecerão,mais nunca me assustarão,mais hoje em dia eu ja acho que isso como uma normalidade e as vezes quando acontece meu celebro roda todo,é como si minha cabeça ficase confusa naquele momento do deja vu.

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