sábado, 7 de dezembro de 2013

Conversando com o além

Apenas uma rosa? 
No final dos ‘80 eu ainda flertava com o sobrenatural, embora cada vez com mais desconfiança. Foi nesse tempo que entrei em contato com uma literatura que estimulou minha curiosidade e deu fôlego ao meu desejo de acreditar. Uma turma de cientistas –pelo menos eu achava que eram cientistas nessa época- tinha criado dispositivos eletrônicos que lhes permitia se comunicar com “outras dimensões”, incluindo aqui entidades desencarnadas, Ets, mensagens telepáticas e outros lances do mundo paranormal, e tudo em “rigorosas condições de laboratório”.

Tudo consistia em gravar por horas e horas esse ruído que se escuta quando um rádio fica sintonizado entre uma estação e outra. Esse ruído de fundo, carregado de estática, era bem caraterístico nos rádios mais antigos, nos atuais quase não existe.

Depois de gravar e filtrar todo esse barulho, os autores afirmavam ouvir vozes humanas, algumas palavras, algumas frases. Um dos pesquisadores, talvez o mais famoso, Konstantīns Raudive (aluno de Carl Jung) chegou até ouvir a voz de sua ex-namorada Aileen, recentemente falecida. Curiosamente, a frase de Aileen tinha apenas quatro palavras (“Sua Aileen sabe tudo”), cada uma em um idioma (inglês, francês e alemão), mas com erros gramaticais, demostrando que, caso o além exista, lá aprendemos idiomas tão deficitariamente quanto em vida. Raudive também gravou a voz da sua mãe, uma senhora da Letônia que depois de morta começou a falar, além do seu dialeto natal (único que ela conhecera em vida), uma mistura de espanhol, italiano, sueco e alemão, coincidentemente, todos idiomas que Raudive conhecia. No final da sua vida, Raudive – que chegou a lançar um livro de grande sucesso em 1971- se dedicou a estudar as capacidades mediúnicas de um periquito chamado Putzi, que segundo ele enviava mensagens de uma menina de 14 anos morta há pouco tempo.

Mas a literatura sobre o assunto não para aí. Projetos como o Spiricom, de William O'Neil (1980) e outros, todos baseados no mesmo sistema de gravação de estática ficaram bastante famosos e deram origem posteriormente aos estudos sobre EVP (Electronic voice phenomena). Na internet há uma boa quantidade de material disponível aos interessados. Mas nosso objetivo aqui não é discutir a comunicação com o além. Essa não é uma questão científica. A questão é entender por que alguns afirmam ouvir vozes humanas, palavras, frases, no meio desse barulho? 




Spiricom: paranormalidade, fraude ou pareidolia?


Algumas caraterísticas em comum desses estudos nos dão alguma pistas. O ouvinte tem que escutar muitas vezes a gravação para perceber algo. Se nos é antecipado o que vamos ouvir, acabamos ouvindo, mas se não, ouvintes diferentes poderão ter interpretações diferentes. Se somos céticos, não ouvimos, se somos crentes, geralmente sim.

Em resumo, ao que parece nosso cérebro está dando significado a padrões acústicos que não têm significado algum. Este fenômeno, denominado padronicidade (ou pareidolia), é bastante comum em relação ao sistema visual. Já comentamos sobre a face de Marte, onde algumas elevações no solo marciano levaram muitos a acreditar tratar-se da escultura de uma face. É o mesmo fenômeno por trás da aparição da Virgem Maria numa torrada ou no vidro de uma janela (veja alguns exemplos de pareidolia aqui).




Uma máquina de lavar bêbada?


Mas a padronicidade auditiva não explica apenas essa suposta comunicação com o mundo espiritual. Ao final dos ‘60 tinha corrido o boato que o beatle Paul McCartney morrera num acidente de carro, que a banda decidira esconder colocando um sócia em seu lugar. Uma das evidências dessa teoria conspiratória seria que ao ouvir alguns versos da música Revolution 9 com o LP girando ao contrário, se ouviria a mensagem "turn me on dead man" (me transformar em homem morto) e "let me out!" (deixe-me sair; quem sabe McCartney gritando para sair de seu carro acidentado,.. Confira no vídeo abaixo).



Claro que Paul não tinha morrido e que as frases não existiam, mas nosso cérebro não está interessado na realidade, e sim na coerência. Todas as ilusões sensoriais (ópticas, auditivas e outras) nascem disso. Se passamos a acreditar em alguma coisa nosso cérebro distorce nossa percepção para que coisas sem significado passem a significar algo que dê coerência às nossas crenças.

Padronicidade é apenas um exemplo das dezenas de vieses ou tendências cognitivas que desviam nosso julgamento e nos convencem de realidades inexistentes. Vivemos nessa armadilha cerebral e somente o conhecimento que essas armadilhas existem pode nos ajudar. Por enquanto, fica a dica, cada vez que estamos convictos de algo, é mais do que provável que estejamos errados. É bom lembrar disso.

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