terça-feira, 15 de abril de 2014

Mosquito transgênico contra a dengue está pronto


Em tempos de epidemia de dengue, declarada ou não, vem aí uma notícia que deve chamar a atenção de todos, fundamentalmente das nossas autoridades sanitárias. A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação aprovou no dia 10 de abril, por 16 votos a 1, a liberação comercial da linhagem OX513A do Aedes aegypti, um mosquito geneticamente modificado (GM), para controlar a população do vetor do vírus da dengue e, assim, combater a doença.

O início desta pesquisa tem mais de uma década, e já foi comentada por esta coluna. Resumidamente a ideia é introduzir mediante técnicas de engenharia genética um gene letal em mosquitos Aedes aegypti machos. Estes mosquitos (lembrar que os mosquitos machos não nos picam, e sim as fêmeas) são liberados nas áreas urbanas em grande quantidade de forma a ter um número bem maior de mosquitos GM que mosquitos selvagens, numa proporção próxima de 10:1. Ao copular com machos GM as fêmeas selvagens geram larvas que, devido à mudança genética do pai, morrem prematuramente. Como o número de mosquitos machos GM é bem maior que o de mosquitos selvagens, as cópulas ocorrem majoritariamente entre fêmeas selvagens e machos GM e com isso a população de larvas com o gene letal vai ficando progressivamente maior que a população de larvas sadias, levando assim a uma redução na população de mosquitos.


Para permitir que sejam os pesquisadores (e não a natureza) os “gerentes” na reprodução das larvas, o gene letal é inibido quando estas crescem na presença de tetraciclina. Isto permite que as larvas GM atinjam a fase de mosquitos adultos apenas nos laboratórios das biofábricas já instaladas na Bahia. 

De acordo com alguns críticos do projeto, este pode ser um ponto negativo. Tetraciclina é um antibiótico comumente empregado nas indústrias da pecuária e da aquicultura, que despejam no meio ambiente grandes quantidades dessa substância. Obviamente, se larvas descendentes de machos GM se reproduzissem no ambiente natural em águas contaminadas com tetraciclina, o gene letal seria inativado e elas chegariam à fase adulta.

O projeto vem sendo desenvolvido pela empresa Oxitec, surgida nos laboratórios da Universidade de Oxford no Reino Unido, uma das mais prestigiosas universidades do mundo, e trabalha no Brasil em parceria com a USP e a Moscamed Brasil, uma Organização Social sem fins lucrativos (OS) reconhecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e pelo Governo da Bahia.

A técnica está sendo testada desde 2011 em alguns municípios da Bahia, como Juazeiro, onde a Moscamed já possui uma biofábrica que produz aproximadamente 4 milhões de mosquitos por semana. As larvas são modificadas geneticamente no Reino Unido pela Oxitec e importadas pela Moscamed, que se encarrega do resto da cadeia produtiva. Dados fornecidos pela própria Oxitec, aos quais não tivemos acesso, apontariam uma redução de 96% na quantidade de mosquitos selvagens nos municípios testados. 


Com a liberação da CTNBio, a Oxitec já está em plena expansão no Brasil para o início do projeto comercial. O valor que os municípios terão que pagar pelo programa oferecido pela empresa ainda não foi divulgado, mas dependerá do número de habitantes de cada cidade.

O que se espera é que o mais breve possível tenhamos dados relativos à diminuição ou não da incidência da doença nos municípios onde o projeto vem sendo desenvolvido. Se estes números forem tão animadores quanto o pessoal da Oxitec e a Moscamed comenta, teremos pela primeira vez uma solução real e efetiva para diminuir a incidência da dengue em nossos municípios.

Cabe assim às nossas secretarias de saúde estarem completamente informadas de todos os aspectos relacionados com o projeto, mesmo porque a ideia já saiu do papel e em breve estará à disposição dos interessados.

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