domingo, 6 de julho de 2014

Os sem-fé

Anos atrás, quando ainda a fé fazia minha cabeça, a palavra de autoridades religiosas era para mim definitiva. Com esforço tentava que a dúvida em relação ao que lia ou ouvia vindo delas não se instalasse porque tinha aprendido que o simples fato de questionar seria duvidar não apenas da fé, mas da palavra do próprio Deus, expressa pela boca dos seus representantes na Terra. Assim, reconheço que em parte minha fé era mantida pelo medo.

Os anos passaram e quem sabe devido a aspectos de funcionamento cerebral, a necessidade de questionar tudo –mesmo os mais arraigados dogmas- prevaleceu. Com isso a fé, entendida aqui como a crença mesmo na falta ou contra toda evidência, se foi.

Se bem a opção religiosa individual não deveria ser um assunto sobre o qual alguém tenha que se intrometer, a história e evolução das religiões como fenômeno social é um tópico que sempre desperta um enorme interesse, motivo pelo qual nesta coluna já tínhamos abordado alguns aspectos, tanto sociológicos como neurobiológicos da experiência religiosa. 

Por tudo o que já tinha lido, prevalecia a informação que a importância das religiões estaria em franco declínio nos países mais desenvolvidos da Europa (entre outros). Assim causou um real interesse a informação lida dias atrás nesta Folha, segundo a qual o número de candidatos a batismo teria crescido nos últimos anos (A redescoberta da fé, Charles Borg, 22/06/2014). E mais, esse fenômeno teria acontecido em países como a França, justamente um dos países europeus mais desenvolvidos. A religião estaria aumentando seu espaço nas Sociedades do Conhecimento? Como ficariam então os prognósticos de alguns pesquisadores que indicam que até a década de 2040 a religião terá uma relevância minoritária nesses países? Poderia um ateu ou um agnóstico, pelo fato de não encontrar respostas para tudo, abraçar explicações sobrenaturais? Seu cérebro inquiridor o permitiria? 

Mas antes de discutir essas possibilidades seria muito importante confirmar esses números. Uma das mais utilizadas referências ao discutir o tema é a ampla pesquisa de opinião pública realizada pela WIN-GALLUP International, o Índice Global de Religiosidade e Ateísmo (GLOBAL INDEX OF RELIGIOSITY AND ATHEISM – 2012). A pesquisa foi feita em 2005 e repetida em 2012, fazendo a mais de 50.000 homens e mulheres de 57 países a mesma pergunta: “Independentemente do fato de você participar ou não de um local de culto, você se considera uma pessoa religiosa, uma pessoa não religiosa, ou um ateu convicto? ”. Por ter sido realizada com um intervalo de sete anos é possível não apenas conhecer os números totais, mas também as tendências. Em relação à França os dados da GALLUP indicam que entre os países europeus é o segundo menos religioso (superado apenas pela República Checa). Em 2005 a porcentagem de franceses que se consideravam religiosos era de 58% despencando para 37% em 2012 (queda de 21%). Já o número de ateus convictos passou de 14% dos franceses em 2005 para 29% em 2012, um aumento de 15%. Assim, os números da GALLUP parecem ir de encontro à ideia de um ressurgimento da fé religiosa entre os franceses. Pelos dados desta abrangente pesquisa, presumivelmente o aumento no número de adultos candidatos a batismo descritos pelo episcopado francês deva ser um fato isolado, que deve ser analisado no contexto de informações mais abrangentes.

Independente dos números, autoridades religiosas deveriam ser mais prudentes na hora de qualificar eventuais benefícios da fé. Entendo a necessidade que elas sentem de defendê-la veementemente, mesmo por que é através da fé que o pensamento religioso com seus dogmas e improbabilidades pode subsistir. Mas outra coisa é tentar estimular a fé em detrimento daqueles que não a possuem. Expressões como “Sem a fé a vida é fútil, uma viagem sem destino e as conquistas um cruel cinismo” soam como uma forma de menosprezar aqueles que, como eu, substituíram a fé por um saudável ceticismo. Não consigo imaginar como esse tipo de comentário pode ser agregador e estimular a tolerância e o respeito. Será que é fútil então a minha vida? Será fútil também a vida de gente como Bertrand Russel, Jean-Paul Sartre, José Saramago, Jorge Amado, Marie Curie, Carl Sagan, Mark Twain, Stephen Hawking, Bill Gates, Simone de Beauvoir, Charles Chaplin e tantos outros?

Achar, como na Idade Média, que a resposta aos grandes dilemas da humanidade e da nossa vida reside na fé no sobrenatural é menosprezar a engenhosidade humana e a evolução da nossa inteligência como espécie. 

Finalmente, vale lembrar as palavras do Dalai Lama: “Qualquer resposta, baseada na religião, para o problema de nossa negligência dos valores internos não pode ser universal, e assim será insuficiente. O que nós precisamos na atualidade é uma abordagem para a ética, que não faça referência à religião e que seja igualmente aceitável para aqueles que tenham fé e os que não tenham: a ética secular.”.

Concordo com ele, e suspeito que um certo argentino também.



4 comentários:

  1. Em menos de dez anos, a tal mudança aconteceu na minha mente também. Agora com a Net, mais conhecimento, mais questionamentos e fé de menos.
    Valeu professor Roelf, seus textos me revelam e esclarecem muitas questões.
    Um abraço do CelsoW

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    1. Amigo Celso!! Que bom te reencontrar aqui. Visitando São Paulo me avisa e a gente toma umas!!
      Abraço!

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  2. Texto bastante esclarecedor Professor, parabéns!

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