sábado, 14 de fevereiro de 2015

A incrível história da mulher que confundiu seu marido com um dragão

Não, não se trata de uma história vinda da série Game of Thrones, e a personagem não é a bela Daenerys Targaryen (aquela Nascida da Tormenta). Os dragões que atormentavam a vida de Rosa (nome fictício, claro) nasciam das bizarrices e truques do nosso cérebro, esse velho contador de histórias, quase sempre irreais.

Mas antes de narrar o drama de Rosa temos que comentar algo sobre como nosso cérebro reconhece faces. Boa parte de nosso sistema de comunicação não verbal ocorre pela complexa e rica expressividade facial que nós humanos (e provavelmente outros primatas) possuímos. Uma parte importante de nosso cérebro é formada por redes neurais que permitem diferenciar rostos de outros tipos de imagens. É tão importante compreender a expressividade facial que só de visualizar três traços já enxergamos aí uma face, e uma face que expressa sentimentos. Os emoticons são uma prova disso. O lado ruim é que muitas vezes acabamos vendo faces onde elas nem existem, como o já famoso caso da face de Marte, um fenômeno que entra no grupo das pareidolias.

Há um bom tempo que sabemos que lesões numa área específica do cérebro denominada giro fusiforme provocam uma incapacidade de reconhecer rostos, embora a capacidade de discriminar qualquer outro tipo de objeto permaneça inalterada. Esta condição foi denominada prosopagnosia, neste caso adquirida (pela lesão). Pacientes com esta condição são incapazes de reconhecer as pessoas pelo rosto, mesmo as mais íntimas, e têm que recorrer a outros aspectos como a forma de andar, voz, cor do cabelo entre outras. Sim, meio bizarro, mas real. 


Depois descobrimos que esta cegueira perceptiva para faces pode ser também congênita, e hoje sabemos que, em diferentes graus e formas, afeta quase 2,5% da população, incluindo aqui gente famosa como Brad Pitt.

Mas agora voltemos a Rosa. Ela resolveu procurar ajuda especializada na sua terra natal (Suíça) quando aos 52 anos seus problemas alcançaram um nível desesperador. Ela não tinha grandes dificuldades para reconhecer rostos, com o que o diagnóstico de prosopagnosia não mais cabia. O problema de Rosa era que após alguns minutos de olhar o rosto de alguém, este começava a mudar. Ia se tornando completamente escuro, se alongava, surgiam orelhas pontudas e um focinho proeminente. Sua pele adotava um reptiliano aspecto escamoso e os olhos cresciam assumindo brilhantes cores amarela, verde, azul, vermelha... Excluindo o fato de não cuspir fogo pelas ventas, todos se transformavam em dragões.

O problema começara a se agravar a partir da adolescência, mas mesmo assim Rosa chegou a ter uma vida relativamente normal, com curso superior, casamento, filhos e tudo mais. Mas com o passar do tempo os dragões do seu cérebro começaram a tomar conta não apenas dos rostos de amigos, colegas e familiares. Eles apareciam quando fixava seu olhar em tomadas, em telas de computador, ou na escuridão das suas noites insones.

Desesperada, enviou uma carta narrando seu caso ao neurologista Oliver Sacks, que ficara mundialmente famoso ao descrever a história “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”. E foi Sacks (curiosamente, ele também portador de prosopagnosia), quem encaminhou Rosa aos seus colegas na Suíça.

Ao ouvir a história os médicos suíços suspeitaram, claro, de alguma lesão no giro fusiforme, mas os exames de ressonância magnética e o EEG não mostraram nada que pudesse ser relacionado com as alucinações visuais descritas pela paciente. Tampouco nada na sua história clínica ou qualquer outro distúrbio psiquiátrico, salvo a depressão associada à sua situação e uma ocasional (e curiosa) alucinação onde via formigas rastejando pelas suas mãos (zoopsia).

Até o momento, nenhuma abordagem comportamental ou farmacológica tinha funcionado. Finalmente os médicos tentaram com rivagstimina, uma medicação que aumenta no cérebro a quantidade de um neurotransmissor, a acetilcolina, e que é utilizada para melhorar a memória e outros aspectos cognitivos em pacientes vítimas das doenças como Alzheimer ou Parkinson.

E funcionou. Felizmente, por enquanto, a história de Rosa e seus dragões parece estar se encaminhando para um final feliz.

É isso. Um pequeno desequilíbrio químico no cérebro e somos capazes de transformar o rosto de entes queridos em terríveis dragões. Mas é também esse delicado equilíbrio químico que nos mantêm dentro dos parâmetros de normalidade. Uma ligeira flutuação pode fazer mudar nosso humor, nossa capacidade de atenção, nossa memória, nossos sentimentos e desejos. Ou pior, nos faz enfrentar um dragão ainda mais temido que os de Rosa, a depressão.


Fonte: Prosopometamorphopsia and facial hallucinations. Jan Dirk Blom, Iris E C Sommer, Sanne Koops, Oliver W Sacks, www.thelancet.com Vol 384 November 29, 2014


3 comentários:

  1. Tá aí. Gostei muito.
    Tudo o que se equilibra em nosso organismo e que propicia o nosso jeito de ser, o faz com delicadeza. Isso faz com que a concepção do criacionismo seja considerada. Acho que somente o evolucionismo não explica tudo.
    Parabéns pelo belo texto.

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    1. Obrigado Brito. Concepções criacionistas são consideradas no campo das nossas crenças pessoais, mas não em ciência. "Criadores" sobrenaturais não fazem parte do mundo da ciência, já que a hipótese não é falseável.
      Um abraço :)

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  2. Senhor Hamilton Brito, parece não ter percebido o que está oculto na historia. A idéia de que uma pessoa enxergue um dragão no conjugue, quer dizer que a nossa capacidade de alucinar é maior do que a capacidade de enxergar a realidade.
    Lamentavelmente podemos dizer o mesmo do tal de Paulo, Moises, Maomé, etc., etc.. Alucinar é parte da nossa capacidade natural. Por exemplo: acreditar no criacionismo; cobras falantes; mulheres nascendo da costela de alguém; árvores mágicas com frutos mágicos; bruxas; virgens parindo; pombos copulando com humanos; cornos submissos; andrornitos filósofos; estrelas caindo na terra; um ser humano segurar o sol; e todas essas estupidezes que o ser humano conseguiu inventar quando tem medo, se encontram fora da proposta da matéria.

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