segunda-feira, 15 de junho de 2015

Homossexualidade é “não natural”?

Mesmo depois de dezenas e dezenas de artigos escritos no jornal e no blog sobre diversos assuntos, “Homossexualidade sob a lupa da ciência”, de 2012, continua a ser o mais lido e acessado. Pelos motivos certos ou errados o tema da homossexualidade não sai da pauta. Entre os motivos errados, a constante tentativa de negar direitos civis entre outras formas de discriminação.

Um dos argumentos mais utilizados para esta atitude seria que esta, a homossexualidade, é “não natural”. Deuses (ou a natureza) teriam criado macho e fêmea e baseado nisso os comportamentos “naturais” de corte, acasalamento e reprodução, que seriam a base do que li por aí como “valores irrefutáveis da família”. Se considerarmos que “natural” significa “que pertence ou se refere à natureza” ou “regido pelas leis da natureza; provocado pela natureza” (Dicionário Houaiss), o argumento é um completo equívoco.

Já foram identificadas mais de 1300 espécies animais com comportamentos homossexuais, e é certo que esse número é subestimado. Cientistas denominam comportamentos homossexuais em animais não humanos com a sigla SSB, do inglês “same-sex sexual behavior”, definido como “interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo que também ocorrem com indivíduos do sexo oposto com a finalidade de reprodução”. O termo SSB substitui nesses estudos denominações como “preferência” ou “orientação” sexual, que implica um desejo consciente que, por motivos óbvios, não pode ser comprovado em animais (não podemos saber o que um animal deseja, podemos apenas observar o que ele faz e a partir de aí fazer inferências).

SSB foi descrito cientificamente em animais de todos os níveis de complexidade e tamanho, incluindo vermes (nemátodos), moluscos, insetos, anfíbios, répteis, peixes, aves e mamíferos, entre os quais nossos primos mais próximos, os bonobos, mas também golfinhos, felinos, morcegos e muitos outros. A duração do SSB na natureza é extremamente variável, podendo ser identificados casais homossexuais relativamente estáveis a comportamentos homossexuais esporádicos.

Pelas evidências disponíveis cientistas especulam que interações homossexuais poderiam permitir alianças estratégicas como ocorre entre algumas espécies de golfinhos, ou para facilitar a reconciliação após conflitos, como foi observado entre alguns primatas (Macaca fuscata). Também foram observadas em situações onde é necessário confirmar hierarquias (bisão-americano) ou diminuir o sucesso reprodutivo de competidores (moscas Hydromyza livens). A lista de utilidades ainda inclui o simples “treino” entre machos jovens para depois ter mais sucesso numa situação real ante uma fêmea (descrito em Drosophila) e, ainda, como forma de inseminação indireta, depositando o esperma em outros machos para que estes o depositem nas fêmeas posteriormente, comportamento descrito entre alguns tipos de besouros.

Biólogos ainda discutem o aparente paradoxo evolutivo da preferência homossexual em humanos ou do SSB nos outros animais. Por que os genes que levam ao SSB, mesmo diminuindo o potencial reprodutivo, permanecem na população? Apesar de paradoxal, não seria a primeira vez que nos resulta difícil conciliar certas características e comportamentos observados na natureza com o que sabemos sobre evolução darwiniana, fundamentalmente quando não conseguimos descobrir de forma imediata os benefícios de características que à primeira vista parecem muito pouco adaptativas. Este já foi o caso de comportamentos como a agressão, o altruísmo e mesmo a complexa e custosa ornamentação exibida por alguns animais.

Nos últimos anos, dezenas de estudos vêm abordando esta questão. Em relação aos animais não humanos, não há dúvida que a resposta está nos genes. Duas teorias, não necessariamente excludentes, tentam explicar a sobrevivência evolutiva de genes ligados ao SSB: a sobredominância e o antagonismo sexual.

Resumindo – e muito- na sobredominância o par de genes que seriam responsáveis pelo SSB (que denominaremos aqui genes H-H) confeririam esse comportamento apenas na condição homozigótica (quando os dois genes são idênticos). Mas se um dos genes for diferente (H-h, condição heterozigótica) não apenas o comportamento SSB poderia não se manifestar como outras caraterísticas com valor adaptativo poderiam surgir. Uma situação semelhante se observa na anemia falciforme, uma doença hereditária. Quando o indivíduo é homozigótico para os genes que provocam a doença esta se manifesta, mas na condição heterozigótica a doença pode não se manifestar e ainda a combinação genética oferecer resistência para outra doença, a malária, o que em regiões onde é endêmica representou uma vantagem adaptativa que permitiu assim a sobrevivência dos genes da anemia.

Já no antagonismo sexual, o par de genes que em um sexo pode gerar uma situação pouco adaptativa, pode apresentar uma situação adaptativa no outro. Isto foi observado num recente estudo utilizando a mosca da fruta (Drosophila melanogaster). Pesquisadores observaram que machos com uma carga genética relacionada com o SSB, que os colocaria em desvantagem na hora de reproduzir, quando o fazem geram fêmeas com maior capacidade reprodutiva, equilibrando assim a deficiência reprodutiva dos pais machos. 


Algo semelhante foi observado em humanos. Em um estudo com mais de 4900 gêmeos foi observado que indivíduos heterossexuais, quando eram irmãos gêmeos de indivíduos não heterossexuais (de acordo com os resultados de questionários psicológicos específicos) apresentavam um número maior de relacionamentos (heterossexuais) que no caso de gêmeos heterossexuais, o que parece indicar que carregar fatores genéticos que predisponham para a homossexualidade pode oferecer alguma vantagem reprodutiva nos heterossexuais, o que, finalmente, poderia explicar a sobrevivência evolutiva destes genes "H-H".

É isso, de “antinatural” a homossexualidade parece não ter nada. Seria legal se a informação científica conseguisse desarmar essa intolerância toda que permeia a discussão sobre os direitos civis, mas claro, não será o caso. Fundamentalismos não são permeáveis a este tipo de esclarecimento.

E para finalizar, é bom lembrar que se uma delicada propaganda de perfume tem o potencial de destruir os “valores irrefutáveis da família”, com certeza o problema não está na propaganda, não é mesmo?


Fontes:

-Hoskins JL, Ritchie MG, Bailey NW. 2015 A test of genetic models for the evolutionary maintenance of same-sex sexual behaviour. Proc. R. Soc. B 282: 20150429.
-Bailey, Nathan W. et al. Same-sex sexual behavior and evolution Trends in Ecology & Evolution , Volume 24 , Issue 8 , 439 - 446
-Brendan P. Zietsch et al. Genetic factors predisposing to homosexuality may increase mating success in heterosexuals. Evolution and Human Behavior 29 (2008) 424 – 433






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