quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Detox funciona?

A ideia que devemos de alguma forma purificar nosso corpo não é nada nova. Entre os judeus ortodoxos, por exemplo, após o nascimento de um filho ou mesmo após a menstruação mulheres devem passar por um banho ritual de purificação (Mikveh). Rituais semelhantes são descritos em diversas culturas, praticados por xamãs ou outras figuras religiosas. Todos sabemos, claro, que esses rituais estão ligados ao misticismo, mas nada a ver com ciência.

Mas agora querem nos vender uma forma “científica” de purificação baseada na “desintoxicação”, ou apenas “detox” (não confundir com os procedimentos sérios de desintoxicação realizados, por exemplo, junto a usuários de drogas), a qual seria fundamental para eliminar as toxinas que vão se acumulando em nosso corpo, resultado de uma “alimentação pobre em vitaminas e rica em hormônios, agrotóxicos, aditivos alimentares, açúcar, gordura e uso abusivo de medicamentos (...) que comprometem o bom funcionamento do corpo”. Então, caso você sofra –como li num grande portal de notícias- de “cansaço excessivo, insônia, dificuldade de digestão, mau funcionamento do intestino, excesso se gases, retenção de líquido, falta de concentração, dores de cabeça e dificuldade para perder peso”, uma semana à base de chá de brócolis com limão (claro, acompanhado de uma dieta) ou uma boa lavagem intestinal detox, ou um banho em água detox, “vão deixar você como nova”.

Se alguém curtir suco de brócolis com limão ou mesmo outros mais exóticos, vá em frente. Provavelmente mal não deva fazer. O problema é que não existe nenhuma evidência científica indicando que essas dietas detox tenham a propriedade de desintoxicar coisa alguma. Qual a toxina que elas eliminam? Qual o processo bioquímico? Para entender por que isso não passa de enganação (para variar utilizando um palavreado muito sedutor), temos que ter uma ideia mínima da complexa bioquímica do nosso corpo –que hoje conhecemos bastante bem- e a função de órgãos especialmente capacitados para eliminar todas as toxinas que entram ou são produzidas pelo nosso organismo.

Resumidamente, para gerar a energia que nos mantém vivos nosso corpo deve absorver ou produzir substâncias essenciais como água, carboidratos, peptídeos, oxigênio, lipídeos, ácidos nucleicos e, em menor quantidade, vitaminas e sais minerais. Uma vez utilizados pelas células, esses compostos geram subprodutos metabólicos tóxicos que devem ser eliminados. Outras toxinas podem entrar em nosso organismo pelo que ingerimos ou respiramos. Achar que conseguiremos eliminar tudo isso tomando um suco detox ou terapias similares como “detox intestinal” é, como li por aí, o pináculo da charlatanice.

A bioquímica por trás desses processos de eliminação é para lá de complexa. Felizmente estamos equipados com órgãos que dão conta de todo o processo. Pulmões removem o CO2 resultante da respiração celular. Sem a remoção de CO2, o pH de nosso sangue baixa, o que leva a uma condição grave chamada acidose que se não tratada com urgência mata. Os rins também desempenham uma função importante ao eliminar ácidos do sangue e não há, claro, dieta detox que dê conta de uma insuficiência renal.

Mas entre os órgãos detox nada iguala nosso fígado. Como lemos nos livros de fisiologia, o fígado atua tanto como porteiro ao limitar a entrada de substâncias tóxicas na corrente sanguínea, e como lixeiro ao remover os produtos metabólicos potencialmente tóxicos. Ele é o primeiro órgão a receber tudo o que é absorvido pelos intestinos durante a digestão, tanto as coisas boas quanto as ruins (incluindo aqui os remédios que ingerimos). Antes de voltar para a corrente sanguínea, as células do fígado, os hepatócitos, fazem uma verdadeira triagem e mediante processos físicos e bioquímicos transformam elementos nocivos de forma que possam ser eliminados posteriormente através dos rins ou das fezes via bile.

Se tudo está funcionando bem, não precisamos de mais nada fora uma dieta saudável, exercício físico regular, fugir do cigarro, e outras boas práticas que estamos cansados de conhecer. Não há dieta de desintoxicação que possa fazer o que seu organismo sadio já faz ou deixa de fazer por causa de doença. Se um desses órgãos falhar, esqueça as dietas da moda e procure um bom médico. E antes de ser atraído por um desses sistemas naturais e mágicos de desintoxicação, lembre-se que a única limpeza que eles podem fazer de fato é no seu bolso.


É isso.
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