domingo, 3 de julho de 2016

Receita para o desastre



"Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende ciência e tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara."

A frase acima não é minha, e sim do astrônomo Carl Sagan, preocupado com a ignorância científica entre os jovens do seu país, os Estados Unidos. Em nossas sofridas terras suspeito que essa ”mistura inflamável” já explodiu e hoje colhemos os frutos.


Os resultados do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) corroboram o descaso com a educação e as dramáticas consequências. O PISA mede basicamente a capacidade de jovens na faixa dos 14 anos usar o conhecimento científico -teoricamente aprendido na escola- na resolução de problemas (e não a capacidade de decorá-los para “passar na prova”). Dos 65 países avaliados ocupamos a 59ª posição. Na América Latina estamos apenas na frente de Colômbia e Peru. 


Uma situação tão destacada não poderia ser conseguida sem a atuação decisiva dos nossos governantes, independente do partido político de cada um (e sim, estou sendo irônico). Em São Paulo, o tucanato, dono do poder há anos, não consegue dizer até agora a que veio. Além do fracasso na educação formal, que inclui professores desmotivados e mal pagos (mas não só), é incompreensível como um estado e uma cidade desse porte não disponham sequer de um museu de ciência ou de História Natural, nos moldes dos que conhecemos em outras cidades do mundo e até do Brasil. Para piorar, um espaço como a Estação Ciência da USP acaba de fechar por falta de verbas. Problema da USP? Claro que não. Esses espaços não formais de educação científica são atalhos importantes para melhorar nossa desastrosa situação. Preservá-los deveria ser uma prioridade do poder público.


Já em nossa cidade durante anos peregrinei para a criação de espaços como esses. Museu de ciência, ônibus da ciência e outros. Visitei prefeitos, secretários e vereadores de todos os partidos. Fui chamado para apresentar e apresentei resultados, números, projetos arquitetônicos. Mostrei eventuais parcerias com minha universidade para reforçar a viabilidade dos projetos. Tudo possível. Tudo exequível. Nenhuma fantasia. Projetos pé no chão. 


Mas desisti. Foi tempo perdido. Pensei que a ideia ao ser tão boa iria ser comprada facilmente pelas autoridades de plantão. Que nada. Hoje devo confirmar o que li do próprio Sagan. Boa parte dos governantes tem muito medo da cultura da ciência e do potencial desta em criar pessoas com pensamento crítico. Sem ele, é bem mais fácil manter o status quo com tudo o que ele incorpora de corrupção, desmando, enganação religiosa. Para que arriscar. Deixa a ciência para lá.

2 comentários:

  1. Mas faltou tocar no fundamental e que de fato paralisa a ciência no patamar que cita, aqui e externamente: o modelo educacional que se preocupa mais com a ideologia de gênero do que com o mérito; que se preocupa mais com o "nóis pega u pêxe" do que com a gramatica opressora; com a doutrinação crítica da realidade dividida eternamente entre opressores e oprimidos" do que o fortalecimento da cultura formal... Está querendo construir castelos em terrenos pantanosos... Nã dá certo mesmo ;)

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    1. Oi. Suspeito que nem de longe a situação da nossa educação científica esteja relacionada com os assuntos que você cita. Fechar a Estação ciência, falta de espaços não formais de educação científica, rede de ensino com laboratórios sucateados, etc., fazem parte de uma falta de preocupação das autoridades sobre esse assunto. Culpar a discussão sobre gênero me parece delirante.
      Obrigado pela visita.

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