sábado, 17 de dezembro de 2016

Cesáreas em alta

Uns cinco milhões de anos atrás, alguns dos nossos ancestrais primatas desceram das árvores e se aventuraram em terra firme. A partir daí um evento dramático na evolução humana começa a ocorrer: substituímos o andar quadrúpede num lento processo que nos levaria ao bipedalismo total que nos caracteriza. Liberar as mãos abriu caminho para outra transformação que culminaria uns milhões de anos depois, o gradual aumento do cérebro (encefalização) e com ele, claro, do nosso crânio.

Os dois eventos, bipedalismo e encefalização, se por um lado foram ótimos para aumentar nossas capacidades cognitivas foram péssimos para nossos pés (ver aqui) e para nossa coluna vertebral (ver aqui) . Pagamos as consequências disso até hoje na forma de entorses de tornozelo, fascite plantar, tendinite de Aquiles, dores nas pernas e tornozelos quebrados por causa de um pé que a evolução adaptou inicialmente para viver nas árvores e que agora tem que suportar nosso peso na caminhada. Ainda, escolioses, hérnias de disco e espondilólise entre outros problemas nos atormentam por causa de uma coluna vertebral que em um tempo relativamente curto em termos evolutivos teve que assumir uma posição vertical por causa do nosso bipedalismo tão particular.

Todas essas alterações posturais levaram também a um estreitamento no canal do parto, provocado pela adaptação dos ossos da bacia à nova postura. Isto acarretou um problema obstétrico sério: como nascer com uma cabeça tão grande (produto do processo de encefalização) e um canal do parto tão estreito devido à adaptação da bacia para o andar ereto? Nada fácil. Esta desarmonia entre o tamanho da cabeça do feto e a bacia da mãe (desproporção cefalopélvica) é em parte responsável por sermos os vertebrados com a maior incidência de problemas graves na hora do nascimento. Sem os recursos médicos apropriados que se tornaram disponíveis apenas a partir do século 20, entre 20 a 25% dos nascimentos humanos ao longo da nossa história evolutiva terminaram com a morte da mãe ou do filho.


Uma das formas que encontramos para solucionar este dilema obstétrico foi o parto assistido e fundamentalmente a cesárea, curiosamente eventos que foram possíveis pelo nosso cérebro tão desenvolvido, o mesmo que ajudou a criar o problema todo. Agora, um estudo recém-publicado na prestigiosa revista científica PNAS aponta que o uso frequente de cesáreas nas últimas décadas pode ter favorecido o nascimento de crianças maiores (e com isso com cabeças maiores). Isto é bom porque, até certos limites, crianças maiores têm maior chance de sobrevivência, mas como não se observa um aumento evolutivo no tamanho do canal do parto, a desproporção cefalopélvica parece ter aumentado entre 10 a 20% desde o uso regular de cesáreas. Se isto se confirmar e essa tendência continuar, cesáreas serão cada vez mais necessárias e nossas ideias sobre a conveniência do parto vaginal terão que ser revistas.

Fontes adicionais:

-The Evolutionary Origins of Obstructed Labor: Bipedalism, Encephalization, and the Human Obstetric Dilemma; Wittman, A.B. e cols., OBSTETRICAL AND GYNECOLOGICAL SURVEY; Volume 62, Number 11O; 2007

-Bipedalism and Parturition: an Evolutionary Imperative for Cesarean Delivery? Weiner, S. e cols., Clin Perinatol 35 (2008) 469–478 doi:10.1016/j.clp.2008.06.003

sábado, 10 de dezembro de 2016

Aborto

Quando sociedades começam a discutir assuntos polêmicos como legalização do uso de drogas, aborto, pena de morte, etc., a análise objetiva das experiências que outros países tiveram sobre esses assuntos é sempre relevante.

Nesse sentido o Uruguai, um dos 68 países no mundo que permitem o aborto legal sem restrições, tem uma experiência rica que merece ser conhecida. 




O Uruguai no mapa do aborto no mundo. Um isolado ponto verde ( Vermelho: proibido ou autorizado apenas para salvar a vida da mãe. Laranja: autorizado por motivos de saúde. Rosa: autorizado por motivos econômicos. Verde: sem restrições. Cinza: sem dados.
Fonte:Center for Reproductive Rights http://worldabortionlaws.com/map/

 Curiosamente, o aborto no Uruguai não constituiu crime entre 1934 a 1938, sendo o segundo país do mundo depois da União Soviética a legalizar a prática. Em 1938 é proibido e a discussão oficial sobre o tema volta apenas em 2007. Em 2008 o Congresso aprova a legalização, mas a decisão é vetada pelo então presidente Tabaré Vasquez. Em 2011 volta a discussão no Congresso e este aprova em 2012 a atual Ley de Interrupción Voluntaria del Embarazo (IVE), que é a que vigora atualmente. Em 2013 os opositores à lei conseguem a autorização da Justiça para recolher assinaturas e assim solicitar a realização de um plebiscito derrogatório. Entretanto só conseguem reunir menos de 9% das assinaturas dos votantes registrados, bem abaixo do mínimo de 25% exigido em lei para a realização do plebiscito.

A lei permite a interrupção voluntária da gravidez até a 12ª semana (em caso de estupro vai até a 14ª semana e se há risco para a saúde da mãe ou anomalias fetais, sem limite). Tomada a decisão, a mulher deve comparecer a um centro de saúde. Nessa primeira consulta são realizados os exames para confirmar a gestação. Uma vez confirmada é marcada uma segunda consulta, desta vez com uma equipe formada por um(a) obstetra, um(a) psicólogo(a) e um(a) assistente social. Estes informam e assessoram entre outras coisas sobre os aspectos clínicos e sobre a assistência que o Estado pode oferecer, algo importante no caso de mães solteiras, mas sem interferir na decisão. 






 

Após esta consulta a mulher deve aguardar cinco dias (período de reflexão) para confirmar ou não sua decisão. Caso confirme assina um consentimento médico e é realizado o procedimento, que poderá ser farmacológico ou cirúrgico. Seja qual for o procedimento utilizado, a mulher deve voltar para uma última consulta para a realização de uma outra ultrassonografia e assim confirmar se o aborto de fato ocorreu. Nesta última consulta é orientada sobre todos os métodos anticonceptivos que pode utilizar, que são oferecidos de forma gratuita, para evitar uma nova gravidez indesejada.

Ainda é cedo para avaliar os resultados da nova legislação uruguaia, mas alguns dados já chamam a atenção. O número de abortos legais obviamente cresceu, mas a mortalidade materna caiu praticamente a zero (em 2014 nenhuma mulher morreu por causa de aborto no país). Entre 2013 e 2014 o número de mulheres que mudaram de opinião e decidiram levar em frente sua gestação depois do período de reflexão aumentou 30% quando comparado com o ano anterior, chegando agora aos 9%.

Considerando que em nosso país a cada 2 dias uma brasileira morre por aborto inseguro, as notícias que vêm “del paisito” lá no Sul deveriam ser levadas em conta.
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